O descobrimento da Amazônia

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Coube aos espanhóis a primazia da descoberta e das primeiras incursões europeias na Amazônia.

Na passagem do século XV para o século XVI, três expedições formadas na Espanha tocaram as enseadas do Golfo Amazônico, antecipando-se ao ato tradicional atribuído ao navegador português Pedro Álvares Cabral.

 

a) Expedição de Alonso Ojeda, Juan de la Costa e Américo Vespúcio.

Constituída de quatro navios, saiu do porto de Santa Maria, a 18 de maio de 1499. O ponto da costa brasileira atingido a 27 de junho daquele mesmo ano é ainda objeto de discussão: – a foz do Amazonas, 5º de latitude sul ou o Rio Grande do Norte

Arrastada por temporais e pelas correntes marítimas da costa guianense, foi ter ao lago Maracaíbo e, depois, ao cabo de la Vela, na península Guajira.

 

b) Expedição de Vicente Yanez Pinzon e Aires Pinzon.

Composta de quatro caravelas largou das costas espanholas a 13 de novembro de 1499 e escalou na ilha de Santiago, pertencente ao arquipélago de Cabo Verde. Em 26 de janeiro de 1500, atingiu o cabo de Santa Maria de la Consolación, hoje identificado como a ponta de Mucuripe, no Ceará. No mês seguinte, alcançou a foz do rio de Santa Maria de la Mar Dulce que, pelos cálculos dos marinheiros, avançara vinte léguas mar a dentro – o Rio Amazonas.

Costeando o litoral amazônico do Amapá, a 2º e 40’ de latitude sul, designou como cabo de São Vicente ao atual cabo Norte e, quarenta léguas mais ao norte, rio de Vicente Pinzon ao Oiapoque.

Ao atingir o golfo de Pária, Pinzon pensando ter avançado nas terras de Colombo, que prometera respeitar, regressou a Palos.

No ano seguinte, a 5 de setembro, recebeu o título de Capitão Governador da Terra de Nuestra Señora de la Consolación y del Rostro Hermoso.

 

c) Expedição de Diego de Lepe.

Zarpou da Espanha em dezembro de 1499 e, palmilhando a mesma rota seguida por Pinzon, também chegou ao rio Amazonas. A existência dessa expedição está documentalmente provada em processo instaurado em São Domingos contra os invasores das terras de Cristóvão Colombo. Nele, em 1512, Juan Rodrigues relata ter viajado do cabo de Santo Agostinho até o golfo de Pária, pilotando o navio de Diego de Lepe.

Anos após, consolidada a conquista do Império Inca, em 1539, por Francisco Pizarro e Diego Almagro, os espanhóis voltaram à Amazônia, descendo o Altiplano Andino e utilizando como vias de penetração os afluentes do rio Amazonas, oriundos daquela Cordilheira.

Duas vezes, castelhanos estabelecidos no Peru exploraram a região nos seus primórdios históricos.

 

a) Francisco Orellana e Gonçalo Pizarro.

O Peru ainda não se encontrava sob o domínio da Coroa Espanhola e Francisco Pizarro era senhor absoluto de sua conquista. O país da Canela, rico desta especiaria, localizado além dos Andes, convidava-o a novas aventuras.

Ideias de anexação levaram-no a ordenar o aprestamento de uma expedição em Cuzco, confiada a seu irmão Gonçalo Pizarro. Ali duzentos homens foram recrutados e noventa mil cruzados dispendidos em preparativos à realização da empreitada.

No natal de 1539, já em Quito, contando com a ajuda do governador Pedro de Puelles, Gonçalo conseguiu formar uma tropa de 340 espanhóis, 4.000 índios e 150 cavalos, com a qual partiu rumo ao Oriente desconhecido.

Em Guayaquil, de que fora um dos fundadores, ainda se encontrava Francisco Orellana, espanhol de Trujillo, nascido em 1511 e aparentado dos Pizarros. Um ano após a partida de Pizarro, foi encontra-lo às margens do Zimaco, acompanhado de 23 soldados. A marcha prosseguiu e ao atingirem o Coca, foi providenciada a construção de um bergantim e quatro canoas. Ali foram informados da existência, mais abaixo, de terras povoadas, ricas de ouro e mantimentos, que já escasseavam. Embasrcados no bergantim e sob o comando de Orellana, foram destacados cinquenta homens armados para conquistar a região do rio Napo, onde deveriam estabelecer uma guarnição e retornar a seguir para buscar os restantes. Era o dia 2 de fevereiro de 1542.

Chegados ao Napo, reconheceram serem infundadas as informações colhidas anteriormente. Àquela altura, ante a correnteza do rio, tornou-se impossível o retorno, optando Orellana pela continuação da viagem, no qual foi obstaculizado por frei Gaspar de Carvajal e Fernão Sanchez de Vargas, que o acusaram de traição. Este último foi abandonado numa das margens do rio.

Do Napo, o bergantim desceu o Marañon, passando pelos rios Negro, Madeira e Nhamundá, a 3, 10 e 23 de junho de 1542, respectivamente. Neste último rio, segundo a tradição, os expedicionários teriam sido atacados pelas Amazonas, célebres e temíveis guerreiras.

Ao atingir o Atlântico, o bergantim aportou à ilha Margarita, de onde velejou para a Espanha. Pelo notável feito, Orellana recebeu de Carlos V o título de Adelantado, bem como as terras recém-descobertas, logo chamadas de Nueva Andaluzia.

Para a colonização de suas terras, Orellana armou três navios com uma equipagem de quinhentos homens. Partiu de São Lucar de de Berrameda a 11 de maio de 1543 e escalou em Cabo Verde e nas Canárias, onde os tripulantes foram acometidos de peste, o que determinou a morte de noventa e oito homens e a deserção de outros cento e vinte e sete.

A 20 de dezembro de 1543, chegaram os expedicionários à foz do rio Amazonas, onde, à procura de um local para estabelecer-se, faleceu Orellana.

Com a morte do Capitão, os remanescentes da expedição foram ter à ilha Margarita, povoando-a.

Quando Orellana se preparava para viajar, o português João de Sande e o espanhol Diogo Nunes de Quesada equiparam quatro naus com trezentos homens, para irem ao Amazonas. Todavia, seus planos falharam e Sande foi preso em Sevilha, de onde só conseguiu a liberdade após a saída de Orellana.

Gonçalo Pizarro, cansado de esperar o retorno do bergantim, desceu o rio em balsas por mais cem léguas, encontrando a Vargas, que o informou de todos os acontecimentos já mencionados.

Seu regresso ao Peru foi penoso e apenas oitenta homens conseguiram chegar a Quito, que se achava despovoada em consequência da guerra entre almagristas e pizarristas, cujo desenrolar se prolongou até 1548, quando o Império Inca, transformado em vice-reinado, passou para o domínio direto dos reis de Espanha.

 

b) Pedro de Ursua e Lopo de Aguirre.

O vice-rei do Peru, André Hurtado de Mendonza, marquês de Cañete, nos fins do ano de 1558, mandou organizar uma expedição com o objetivo de conquistar o reino de Paititi, onde o ouro e as pedras preciosas eram abundantes.

As notícias sobre esse misterioso país espalharam-se após a chegada à Chachapoyas de quinhentos índios vindos do Brasil.

Coube a Pedro e Ursua, com o título de Conquistador do Amazonas, a direção da empresa, recebendo para o seu custeio 15.000 pesos. Entre os oficiais escolhidos estavam Lopo de Aguirre e Fernando de Gusman.

A frota de onze navios, dois bergantins e nove barcos, saiu de Topesana, no Huallaga, em 27 de setembro de 1560, com destino a Paititi. Nela embarcaram trezentos espanhóis, dois mil índios e quinhentos cavalos.

Não foi feliz Pedro de Ursua, vez que, rebelando-se os expedicionários, assassinaram-no e proclamaram a Fernando de Gusman rei das possessões espanholas na América. No entanto, pouco durou o seu poder, pois foi morto a 22 de maio de 1561, tendo assumido o comando dos rebeldes Lopo de Aguirre, o verdadeiro iniciador da revolta.

Após descerem o Amazonas, os revoltosos atacaram a ilha Margarita e, quando se preparavam para conquistar outras ilhas antilhanas, foram presos e Aguirre, enforcado.

Muitos afirmam ter sido ele o primeiro homem a tentar a emancipação de uma colônia na América; outros, no entanto, julgam-no louco e responsável pela morte de sessenta e dois rebelados, bem como de sua própria filha, a fim de que não fosse proscrita.

As terras da Amazônia, em outras oportunidades, foram objeto de doação por parte dos reis de Espanha. Carlos V legou a Jerônimo de Aguayo, em 1522, as terras do Orenoco à foz do rio Amazonas. Em 1559, Felipe II deu a Nueva Andaluzia a Diego de Vargas e, em 1568, a Guiana e Cauria, entre o Amazonas e o Orenoco, a Diego Hernandez de Serpa.

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Antonio Loureiro
Historiador amazonense. Membro das academias Amazonense de Medicina e Amazonense de Letras. Ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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