O desafio

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Já se sabia que não seria fácil ordenar o espaço urbano de Manaus. Anos e anos de abandono e incentivo à permissividade, embalados por uma falsa consciência social, a cidade chegou num ponto em que não há mais um código de postura vigente, apenas a descompostura, o voluntarismo, a agressão pura e simples dos logradouros, das calçadas, das praças, de tudo o que alcança as mãos e as pernas. Na outrora pacata Rua José Clemente, nos fundos do prédio da antiga Santa Casa de Misericórdia, há uma calçada bastante ampla, construída antes do hiato de administradores municipais que não sabiam o que é uma cidade, muito menos como administrarem uma cidade. Pois bem, esses mesmos elementos do hiato de ignorância que nos assolou, permitiu a construção de um enorme quiosque de metal, que deixa apenas uma nesga de calçada aos transeuntes, além de encher de mesas e cadeiras. Isto já não seria tolerado em nenhuma cidade civilizada do mundo, mas o improvisado restaurante ao ar livre faz parte de um verdadeiro “complexo de entretenimento indigente”, pois ali uma chusma de ambulantes vende de tudo para uma multidão que flutua entre as mesas do tradicional Bar Caldeira, que de seu lado também invade o espaço público, e o franco lenocínio que ali prolifera com ofertas para todos os gostos e idades. Os incautos que tentam passar de carro pela José Clemente depois das 19 horas, são obrigados a abrir espaço em meio a turba, que costuma reagir com chutes na lataria e outras reações compatíveis com o nível de educação doméstica de cada. A impressão que eu tenho é que as autoridades teriam que engajar metade da população de Manaus como fiscais para coibir os abusos da outra metade. E ainda assim temo que não haveria fiscais suficientes. Por exemplo, bem aqui em frente da minha casa, na Rua Saldanha Marinho, entre a rua do Barroso e a Costa Azevedo. Todos os dias este trecho é ocupado por vendedores de frutas; na sexta e no sábado um carro que já deveria estar aposentado encosta e seus proprietários abrem o porta malas e comercializam umas garrafas de líquido colorido, sabe Deus que poções serão aquelas. Durante algumas semanas um comerciante da área resolveu vender móveis de plásticos, desses que servem de teste para obesidade, pois racham com a maior sem cerimônia. E daí, dirão meus sete leitores, ele não tem o direito de vender o que quiser? Calma, meu assíduo leitor, sim, o comércio é livre nesse país, mas não ocupando a calçada e o meio fio com pilhas de cadeira e mesas. E o fiscal da Prefeitura? Eles passaram, sim, senhor.

Advertiram o espaçoso comerciante, que imediatamente recolheu a tralha. Mas assim que os fiscais dobraram a esquina, tudo voltou para a calçada. E, como abuso é que não falta, os fiscais precisariam de um dia de 48 horas para dar conta do serviço. E esses não são absurdos isolados. Se um de meus sete leitores decidir caminhar pela Avenida Getúlio Vargas às sete da manhã, encontrará a calçada da esquina com a Saldanha Marinho ocupada por um restaurante que serve café da manhã. Este sortido café da manhã sofre a concorrência de pelos menos vinte outros cafés que ocupam as esquinas e calçadas do quadrilátero Ramos Ferreira, Joaquim Nabuco, Sete de Setembro e Getúlio Vargas.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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