O Brasil e ‘O Senhor das Moscas’

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*Cristovão Tezza

A obra de Golding é um desses não tão raros livros se tornam maiores do que o autor pretendia.

Uma ilha deserta é povoada por um grupo de crianças e pré-adolescentes que sobrevivem a um desastre de avião –este é o ponto de partida do romance “O Senhor das Moscas”, do inglês William Golding (1911-1993), prêmio Nobel de Literatura. Publicado em 1954, o romance promove uma meticulosa e assustadora desmontagem do mito do bom selvagem e de uma das ideias filosóficas mais poderosas dos últimos dois séculos, com ramificações em praticamente todas as áreas da atividade humana, da política à cultura – a de que nascemos naturalmente bons, e que é a sociedade que nos corrompe.

É uma crueldade reduzir a complexidade romântica do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que essa ideia sintetiza, a uma frase, mas ela contém o amplo espírito do tempo que levaria à revolução iluminista e às transformações radicais que se seguiram a partir da descoberta (para dizer numa simplificação grosseira) de que não existe “pecado original”.

Lembro que a leitura de “O Senhor das Moscas” teve um grande impacto sobre mim no início dos anos 1980, quando comecei a dar aulas e a ditadura militar se encaminhava para o fim –afinal, eu era um sujeito que havia entrado de cabeça no imaginário rousseauniano dos anos 60.

Mas seria um erro compreender o livro apenas como uma resposta mecânica ao mito, com os sinais trocados. “O Senhor das Moscas” é um desses casos não tão raros de livros eventualmente concebidos para um fim determinado e que se tornam maiores do que o autor pretendia. (O melhor exemplo é “Dom Quixote”, supostamente escrito apenas para ridicularizar novelas de cavalaria.)

No livro de Golding, trata-se de meninos ingleses educados que precisam sobreviver num ambiente selvagem enquanto a ajuda não chega. Em pouco tempo eles estarão se matando, mas até lá seguimos um percurso didático em etapas.

Logo no início surge a figura do pré-adolescente Ralph, que assume um início de liderança sobre as crianças menores. É um menino com instinto político, bom senso e ponderação. O leitor, também instintivamente, vê Ralph com bons olhos, sente empatia e torce por ele.

Logo ele cria um ritual para organizar os debates sobre o que fazer, a partir de uma concha simbólica –quem está com a concha pode falar, e ela passa de mão em mão, num aprendizado democrático. A concha é a “Constituição” agregadora do grupo. A memória civilizada ainda está bastante viva na cabeça deles.

O segundo menino que se destaca parece o mais inteligente e metódico de todos; é ele que sempre relembra a prioridade de cuidar de um fogo permanente para produzir fumaça e sinalizar onde estão para a chegada de algum resgate. Mas ele é gordo (o seu apelido é Porquinho), desajeitado, e tem óculos “fundo de garrafa”. É uma figura meio ridícula, e será a vítima de bullying dos colegas.

Um terceiro pré-adolescente, Simon, tem um temperamento místico, atraído pelo mistério –e mistério é o que não falta na ilha (sem truques sobrenaturais; é uma narrativa de pressuposto realista). Simon representa o sentimento religioso.

O problema é que todo o bom senso e as boas intenções enfrentam um inimigo concreto: o medo das crianças menores. À noite, a ilha é assustadora. A escuridão, os sons, os bichos desconhecidos, tudo provoca medo. Para as crianças pequenas, o senso político de Ralph, a meditação de Simon ou a inteligência do Porquinho não servem de nada.

A memória civilizada (a escola, o pai, a mãe, as leis, as regras cotidianas) começam a se esfarelar. Uma nova liderança cresce, o menino Jack. O leitor vai antipatizar com a agressividade dele, mas será Jack quem dará a resposta mais eficiente ao medo. Institui a caçada aos “porcos selvagens” (cada criança terá uma lança como arma), e promove danças em torno do fogo com gritos de guerra, o que será um sucesso entre os pequenos.

Em pouco tempo, a dança catártica descambará em tragédia, com um linchamento ritual; e segue-se uma perseguição aterrorizante ao Porquinho para sequestrar seus óculos, a arma capital cujas lentes permitem acender o fogo. A regressão selvagem se completa. Não quero estragar o prazer da leitura de quem não conhece o livro –mas adianto que, em muitos aspectos, a história parece uma fábula sobre o Brasil contemporâneo.

*Escritor. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C8, de 22/10/2017.
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