O 470º Aniversário do Rio Madeira

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1971

“Esse dia [08 de junho de 1542] nos metemos num monte e descansamos o dia seguinte [09 de junho], prosseguindo a nossa viagem no imediato [10 de junho]. Não havíamos ainda andado quatro léguas quando vimos entrar pela mão direita um rio muito grande e poderoso, maior que o que percorríamos, e por isso lhe puzemos o nome de Rio Grande, e passamos adiante. À mão esquerda vimos haver umas povoações muito grandes sobre uma lomba que chegava até a margem do rio” (cf. frei Gaspar de Carvajal, in “Descobrimento do Rio das Amazonas”, ano de 1542).

Como mencionado no relato acima, firmado pelo frei dominicano Gaspar de Carvajal (1504-1584), escrivão da frota de Francisco de Orellana (1511-1546), a descoberta do Rio Madeira ocorreu no longínquo dia 10 de junho de 1542. Nossa expectativa era a de que o evento, ao transcorrer o seu 470º aniversário, no penúltimo domingo (dia 10) do mês andante, seria solenemente comemorado, como merecido. Porém, o silêncio em relação ao assunto nos conduziu à constatação de que o povo amazonense de há muito perdeu a tradição da história.

Rio de planície, que os índios denominavam Caiari, o Rio Madeira traça a divisória entre Brasil e Bolívia. Mede aproximadamente 3.315 km de extensão, sendo o 17º maior do mundo. Nasce com o título de Beni na Cordilheira dos Andes, no lado boliviano, desce em direção ao norte recebendo o Mamoré e o Guaporé e tornando-se o Rio Madeira, nome conferido em meados do século dezoito pelos colonizadores portugueses, em razão de que, no período chuvoso (anualmente de dezembro a maio), seu nível sobe e inunda grandes porções de floresta trazendo troncos e restos de madeira.

No Brasil banha os estados de Rondônia e Amazonas. Mas, antes, ao encontrar-se com o Rio Abunã, segue em direção ao nordeste atravessando dezenas de pequenas corredeiras até chegar a Porto Velho, onde se iniciará a Hidrovia do Madeira. No seu delta fica a ilha Tupinambarana em uma região de alagados, por onde correm inúmeros afluentes de porte médio, entre os quais Canumã e Abacaxis, segundo e terceiro berços do núcleo que deu origem a Itacoatiara.

Sob os protestos do mundo ambientalista, no médio Rio Madeira estão sendo construídos dois projetos hidrelétricos de grande porte: UHE Jirau e UHE Santo Antonio.

Segundo a lição do maior historiador da Amazônia, Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993), a exploração do Rio Madeira deu-se imediatamente após a expedição de Pedro Teixeira (1587-1641) em 1638. Em março desse ano, portanto há 374 anos, o intrépido bandeirante passou defronte a então futura vila de Serpa.

No período colonial o Rio Madeira foi palco de muitos acontecimentos, com destaque para as guerras entre os colonizadores portugueses e os valentes índios Muras. Em 1716 nele ocorreu o trucidamento dos índios Torás pelo genocida João de Barros Guerra. Em 1722 o sertanista Francisco de Melo Palheta fez-lhe o reconhecimento total, desde sua embocadura até as cabeceiras no território de Mato Grosso.

Antes, desde 1649, assistiu à intensa movimentação catequética dos jesuítas junto aos indígenas, com o fito de arrebanhá-los para adeptos do governo português; e em 1650, à passagem do bandeirante paulista Antônio Raposo Tavares vindo do altiplano andino, no vice-reino do Peru, e seguindo até sua confluência com o Rio Amazonas, defronte à atual Itacoatiara e alcançando o Atlântico no ano seguinte.

No século 18 o Rio Madeira era via natural de transporte entre a vila Bela Santíssima Trindade, a capital do ouro, no vale do alto Rio Guaporé, e Santa Maria de Belém do Grão-Pará, na foz do Rio Amazonas, o porto mais próximo à Lisboa na Europa. A ligação entre esses dois núcleos urbanos era feita pela Companhia de Navegação do Maranhão e Grão Pará, fundada pelo marquês de Pombal, detentora do monopólio da navegação na rota fluvial Amazonas/Madeira/Mamoré/Guaporé, oficializada pela carta régia de 14 de novembro de 1752, competindo-lhe com exclusividade o abastecimento com os produtos importados e o escoamento da produção de ouro matogrossense.

Realizando levantamentos topográficos na região, percorreram-no: em 1724 o sargento-mor João Azevedo; em 1742 Felix de Lima; e em 1749, Luís Fagundes Machado. Vindos de Belém, em 1779, descendo-o da confluência às suas cachoeiras, os sertanistas Luis Fagundes Machado e José Gonçalves da Fonseca. Entre 1781 e 1782 lá estiveram, a serviço da Comissão de Demarcação de Limites entre as colônias portuguesa e espanhola, o capitão Ricardo Lacerda Franco de Almeida Serra e o engenheiro João Lacerda de Almeida. Finalmente, chefiando a expedição filosófica, Alexandre Rodrigues Ferreira, em 1788, esteve no Rio Madeira a caminho de Vila Bela/Mato Grosso.

Artigo assinado pelo ictiólogo Paulo Buckup, do Museu Nacional da UFRJ, e publicado na Folha de São Paulo em 09 de abril p. passado, informa ser o Madeira o rio com mais peixes no planeta terra – “Trata-se do rio com o maior número de espécies do mundo: cerca de 800”. Segundo o relatório de um grupo de pesquisadores da UNIR – Universidade Federal de Rondônia, liderados pela pesquisadora Carolina Dória, umas 40 dessas espécies ainda são desconhecidas da Ciência.

Carolina Dória e seus colegas estão realizando o levantamento há dois anos, como parte das contrapartidas ambientais para a construção da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, nos arredores de Porto Velho. Com o novo inventário, a quantidade de espécies registradas para o Rio Madeira e seus tributários dobrou. Predominam as diversas espécies de lambaris, piabas e cascudos. “Mas há também grandes e vistosas arraias, peixes ornamentais, como os acarás, e esquisitos peixes elétricos das profundezas”.

Além de realizar o mapeamento de espécies, os pesquisadores também identificaram os locais de desova dos principais peixes de interesse comercial da região, como a dourada e o filhote, o que deve ajudar em ações de conservação e planejamento dessa atividade no Madeira. Embora o consumo de peixe seja elevado entre as populações que vivem perto do rio, não há pesca industrial. Os rios Xingu, Tapajós e Tocantins contam em torno de 500 espécies, pelo menos – muito aquém da amostragem projetada para o Rio Madeira. “Como esforços tão intensos quanto o da equipe da UNIR no Madeira ainda não foram feitos para outros rios amazônicos, a posição de campeão pode mudar”, – concluiu Paulo Buckup.

O Estado do Amazonas e, em particular, Itacoatiara muito devem a esse mais importante afluente do Rio Amazonas e via de integração nacional. A propósito, escrevi em 1997 (in “Cronografia de Itacoatiara”, 1º volume, páginas 83/84): “[Nos idos de 1850] intenso comércio entre a Bolivia e a Provincia do Amazonas [era] feito por Serpa, através do Rio Madeira… Na intenção de melhor arrecadar os tributos e coibir o contrabando, o governo imperial estabeleceu uma Coletoria [na então] vila de Serpa, para onde convergiam navios procedentes da Europa e dos Estados Unidos, trazendo mercadorias para serem trocados por produtos regionais”…

No início do século vinte foram iniciadas démarches para retomar os trabalhos de construção da ferrovia Madeira-Mamoré – fruto do Tratado de Petrópolis, celebrado entre Brasil e Bolívia em 1903. Com a construção dessa estrada de ferro foram encaminhados para o Rio Madeira legiões e legiões de imigrantes vindos de todas as partes do mundo. Muitos deles ficaram em Itacoatiara.  Devido à sua pouca profundidade impossibilitando a navegação através dele de grandes navios, em Itacoatiara era feito o transbordo das mercadorias procedentes do sul do País e dos materiais que chegavam dos Estados Unidos, destinados à ferrovia, e daqui seguiam para Porto Velho através de embarcações de menor calado.  À época havia sido construído junto ao porto itacoatiarense, sob a orientação de engenheiros alemães, o edifício da Kahn Pollack & Cia., casa aviadora e exportadora de borracha, que também sediou escritório e depósito da empresa do norte-americano Percival Farquhar e concessionária da Madeira-Mamoré. O engenheiro civil Geraldo Rocha, que exercia cargo de confiança da empresa, morou vários anos em Itacoatiara e dela se desligou a pedido em 1913. Maiores detalhes sobre a história do velho edifício que, prestes de completar seus 110 anos, distingue-se entre o patrimônio antigo construído no centro de Itacoatiara – leiam o livro de minha autoria “Cronografia de Itacoatiara”, 2º volume, 1997, páginas 88 e seguintes.

Eleito como elemento catalizador de progresso econômico, já devidamente corrigido e balizado, o Rio Madeira vem sendo utilizado como ponte hidrográfica de Porto Velho até o Rio Amazonas, para escoar a produção de grãos matrogrosssense, através de balsas granularias até Itacoatiara e, desta, em cargueiros transatlânticos até os portos da Europa e dos Estados Unidos.

Começou a funcionar como hidrovia em março de 1997, com o embarque das primeiras toneladas de soja no terminal graneleiro de Porto Velho com destino ao de Itacoatiara, passando desde logo à condição de corredor natural de exportação do produto.

Por sua importância social e econômica e pela inigualável beleza desfrutada entre os demais da escala hidrográfica brasileira, o Rio Madeira merecia maior respeito e atenção. É imperdoável que tenhamos silenciado à passagem do 470º ano de sua descoberta.

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1 COMENTÁRIO

  1. Sr. Francisco, parabéns pelo seu trabalho, sou graduada em marketing, estou fazendo uma consultoria para o Palace Hotel que está com nova gestão. Estou pesquisando a história do prédio que está localizado na Av. 7 de setembro próxima a rua da instalação, o senhor teria informações sobre esse prédio, visto que os empresários Khan e Pollack parecem que foram os primeiros donos desse local. Grata e no aguardo.

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