Nem bom, nem mau selvagem

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ricardo mioto

*Ricardo Mioto

Antropólogos têm de aceitar que a violência tem forte papel entre os povos   nativos, e isso não significa diminuí-los, afirma Jared Diamond em novo  livro.

O escritor e pesquisador Jared Diamond, que lança um novo livro no Brasil, ao que parece deu a volta por cima.

Ele tinha tudo que um divulgador de ciência poderia querer. Especialista “só” em antropologia, evolução, fisiologia, geografia e história, ganhou um Pulitzer por “Armas, Germes e Aço” (1998, 1,5 milhão de exemplares). Escreveu ainda obras como “Colapso” (2005) e “Por que sexo é divertido?” (1997) “”sim, some ambiente e sexualidade à lista.

Isso até 2009, quando foi acusado de fraudar na revista “New Yorker” relatos sobre uma guerra tribal na Papua Nova Guiné, onde viveu por anos. Dois papuanos o processaram por terem sido citados. Diamond e David Remnick, editor da revista, negaram as acusações e um acordo posterior acabou com a ação.

O livro “O Mundo até Ontem”, que a editora Record está lançando agora, é uma volta à carga ousada. Primeiro, por tratar, por vários capítulos, justamente do tema da guerra tribal, sempre com muitos relatos –é o livro mais “papuano” de Diamond.

Em segundo lugar, por meter a mão em uma cumbuca perigosa: a guerra entre os antropólogos sobre a violência nas tribos tradicionais.

 

VIOLÊNCIA

Diamond parte do princípio de que a espécie humana surgiu há 6 milhões de anos. Durante quase todo esse período, vivemos em pequenas tribos baseadas na caça e na coleta. As sociedades estatais que conhecemos só começaram a aparecer há 5.400 anos.

Ou seja, o comportamento humano evoluiu quase que inteiramente nessas sociedades primitivas. As que restaram intocadas, como os ianomâmi, na fronteira do Brasil com a Venezuela, estudados por Napoleon Chagnon, e os povos da Papua Nova Guiné, estudados por Diamond, seriam janelas para esse passado que nos moldou.

O problema é que esse “quem somos de verdade” não é muito bonito. Chagnon, que estudou os ianomâmi, aponta que os índios eram muito violentos e que sua motivação principal para a guerra poderia ser resumida em uma palavra: mulheres –os ianomâmi mais cruéis e egoístas eram justamente os que deixavam mais descendentes.

Chagnon, como mostra o documentário “Segredos da Tribo” (2010), de José Padilha, foi muito atacado por outros antropólogos, mas Diamond, que cita o colega várias vezes em seu novo livro, o defende.

“Os estudiosos e acadêmicos tendem a gostar dos povos tradicionais entre os quais vivem durante vários anos”, afirma Diamond.

“Eles não querem que seu’ povo seja visto como mau. Eles sabem que estigmatizá-los como belicosos é uma desculpa usada justificar abusos, mas negar a realidade por causa do mau uso político é uma má estratégia.”

Diamond aponta que, em proporção à população total, as sociedades tradicionais matam em média dez vezes mais em guerras do que os Estados modernos. Nesse sentido, mesmo com bombas atômicas e Holocausto, viver no Japão ou na Alemanha do século 20 era mais seguro do que entre caçadores-coletores.

Ele conta ainda detalhadamente no livro diversos casos de ataques e guerras na Papua Nova Guiné, recheados de emboscadas e traições.

Aceitar que as taxas de violência entre os povos tradicionais são mais altas não significa, porém, que tais povos não tenham lições a dar.

Diamond dedica vários capítulos a elas. Poderíamos aprender com a maneira como tais povos lidam com crianças, por exemplo, dando mais autonomia a elas.

Além disso, a exemplo de tais tribos, poderíamos reduzir a quase zero o consumo de açúcar ou sal, que nos levam à obesidade e à hipertensão.

Ele faz ainda um chamado a uma maior compreensão com atitudes como o infanticídio de crianças deficientes nas tribos: é fácil criticar quando se vive em uma sociedade com comida abundante, onde escolhas tristes e difíceis não são necessárias, diz.

 

*Jornalista. Editor da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ciência+Saúde, de 23/12/2014.
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