Meninas

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*Fernanda Torres

Suspeito que muito do conceito de sororidade venha da canonização pós-AIDS do afeto entre moças.

Foi na capa de uma revista “Time” de 1985 que vi, pela primeira vez, uma foto ampliada do vírus da Aids. Tratava-se do anúncio oficial de uma peste que mudaria o comportamento da humanidade pelas próximas décadas.

Para uma garota recém chegada à maioridade, a notícia pesou como um #whynow?, com sérias chances de se transformar num #whyme?

A orgia libertária, vivida pelos que tiveram a sorte de terem sido jovens antes de mim, terminava ali, naquela manchete hedionda. Tudo o que os Dzi e a Leila conquistaram, Sônia e Gal experimentaram, tudo o que pregavam as divas da nouvelle vague foi temperado com o sabor de perigo e medo.

Vi muita gente morrer e adoecer.

Foi foda.

O risco de contaminação do que começou com a pecha de praga gay, logo se confirmou entre heterossexuais. A penetração, o falo, o sangue, o sêmen, o macho, enfim, tornou-se sinônimo de contágio.

Dentre todas as formas de amar, apenas uma resistiu ilesa, como símbolo de pureza e segurança: a do sexo entre mulheres.

Bem menos disseminada do que a homossexualidade masculina, a relação afetiva entre moçoilas foi, pouco a pouco, tornando-se aceita, e até desejada, por aquelas que atingiam a puberdade.

Nos meus tempos de ginásio e científico –olha como eu sou passada– o namoro entre meninas era algo raro, quase inexistente. Mas ele viria a se tornar costume nas gerações subsequentes, que passaram a praticar a fluidez de gêneros no recreio, sem o peso de uma opção sexual definida.

Eu suspeito que muito do conceito de sororidade tenha vindo daí, da canonização pós-Aids do afeto entre moças. De meninas que desenvolveram, na parceria entre iguais, um campo a salvo, independente da aprovação masculina.

A luta pela equiparação de salários, pela legalização do aborto e a condenação do estupro sempre existiram, mas a militância feminista do terceiro milênio é muito mais calcada na solidariedade do que na liberdade sexual que vigorava outrora.

Daí o estranhamento das francesas influentes do “Le Monde”, na sua maioria senhoras maduras, que não se reconhecem no repúdio a toda e qualquer forma de assédio e veem traços de puritanismo no #MeToo das americanas.

Num mundo onde imperavam machos alfa como Millôr Fernandes, autor da máxima “o melhor movimento feminista ainda é o dos quadris”, musas do calibre de Catherine Deneuve fizeram da sedução uma arma, pleiteando liberdade igual à dos ex-senhores.

Estamos mais puritanos, é vero, não há como negar.

Os meus 52 anos me situam a meio caminho entre as senhoras sexy de 70 e 80, e as garotas pans de 20 e 30. Compreendo o desconforto de Deneuve, pois cresci numa sociedade herdada dela.

Mas, depois de levar uma ou outra surra de consciência e de ver o tarado destruidor de carreiras, Harvey Weinstein, ser afastado do trono em Hollywood, percebo que não se pode desmerecer o caráter solidário do “mexeu com uma, mexeu com todas” global.

Como não suporto mais explicar as mudanças do mundo através do advento das redes sociais, deixo aqui esse palpite: o de que a Aids ajudou a tirar as meninas do closet, santificou suas relações, criou laços de companheirismo, diminuiu a competição e a necessidade de atenção masculina.

Um processo lento que terminou por desembocar num movimento político que pretende agir para além dos grupos de exceção.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C4, de 26/01/2018.
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