Malu e Alfredão

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*Drauzio Varella

Ela era articulada e falava com entusiasmo; ele mais ouvia, encantado com os seios na blusa entreaberta.

Alfredão nunca entendeu por que viveu oito anos com aquela mulher.

Conta que se conheceram num restaurante nordestino com música ao vivo, na zona norte. Ela dançava com um rapaz tão magro quanto baixo:

— Mas não tirava os olhos de mim.

Incitado por um amigo que exaltou os dotes físicos da morena, ele foi tirá-la para dançar, mas o rapaz magro e baixo criou caso: mulher que estava com ele não dançava com outro nem morta.

Apesar de ter o triplo da massa corpórea do adversário, Alfredão houve por bem não criar caso.

Meia hora mais tarde, o garçom lhe entregou um bilhete, com um telefone e a mensagem sucinta: “Me liga. Malu”.

Ela mesma atendeu o telefonema no escritório de advocacia em que trabalhava como secretária. Combinaram encontrar-se num barzinho, no fim da tarde.

Ela era articulada, desenvolta e falava com entusiasmo. Ele mais ouvia, encantado com os seios exuberantes, na blusa entreaberta.

Tomaram cerveja com torresmo e caldo de feijão e riram muito. Ele só estranhou o empenho com que a moça defendia a igualdade entre mulheres e homens e a necessidade de acabar com machismo na sociedade brasileira.

— Nunca tinha ouvido falar em feminismo, mas concordei com tudo. Não estava ali para debater, meu interesse era levar ela para a cama.

Não conseguiu naquela noite nem nos quatro encontros seguintes. Na sexta vez, depois de se beijarem com ardor na porta do prédio dela, desanimou:

— Falei de mim para comigo: não vou conseguir comer essa mulher de jeito nenhum.

Uma semana mais tarde, ela ligou para saber a razão da indiferença. Ele desconversou, estava com excesso de trabalho na fábrica, além do que, a mãe andava doente e só contava com o filho único.

Malu suspirou, naquele fim de semana estava tão solitária no apartamento.

— Minha mãe sarou na hora. E, na fábrica, que trabalho?

A noite daquela sexta-feira acabou no sábado ao meio-dia. Até hoje Alfredão se orgulha da performance.

— Sete. Juro por Deus que foram sete.

A partir desse encontro, começaram a ficar juntos três noites por semana, frequência que Malu julgava frustrante.

— Era tanta reclamação que, quando vi, já dormia lá todos os dias.

A rotina o obrigava a acordar às cinco da manhã, passar em casa para o café com a mãe, trocar de roupa e ir para o trabalho.

Durante o expediente, precisava ligar pelo menos duas ou três vezes para a namorada, a última das quais ao sair, para que ela estimasse o tempo para chegar no apartamento. Se deixava de telefonar ou se atrasava, eram horas de falatório.

A marcação cerrada, no entanto, não era o pior: ela morria de ciúmes de todas as mulheres que passassem por perto dele. Não havia um dia em que o casal não brigasse.

— Quando ela começava, não tinha Cristo que fizesse parar.

De espírito conciliador por natureza, Alfredão acabava perdendo o controle. Os vizinhos reclamavam da gritaria.

Ele só pensava em acabar com tudo:

— Não tinha paz, sofria do lado dela, mas não conseguia me libertar. Quando criava coragem para ir embora, ela aparecia na saída da fábrica ameaçando se matar, meio implorando, meio me intimidando. Contra a vontade, eu cedia. Aquela mulher tomou posse do meu ser.

Alfredão se afastou da mãe, dos parentes e de todos os amigos. Vivia angustiado, triste, do trabalho para a casa. Para evitar as cenas de ciúme, fazia de tudo para não sair à noite.

Quando iam à pizzaria, dava um jeito de sentar virado para a parede ou de frente para uma mesa em que só houvesse homens. Apesar da cautela, as crises eclodiam a toda hora.

Única forma de encontro afetivo naqueles anos, a vida sexual se tornou bissexta.

Num fim de tarde, ele foi buscá-la no escritório. Não havia ninguém. Esperava o elevador quando ouviu vozes, lá dentro. Ao se aproximar percebeu que eram gemidos.

Esmurrou a porta até abrirem. Xingou Malu de todos nomes, ameaçou esganar o advogado, arrancou um computador da mesa e atirou contra a parede. Quase derrubou a porta ao sair.

— Tudo encenação. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Fiquei livre daquele inferno.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C12 de 25/11/2017.
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