Mais perguntas que respostas

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*Ferreira Gullar

Como têm observado os comentaristas políticos, a morte de Eduardo Campos e sua consequente substituição na candidatura à Presidência da República, por Marina Silva, mudou radicalmente o quadro político eleitoral.

Antes que ela manifestasse a decisão de substituir Eduardo como candidata ao governo do país, já os dois outros candidatos temiam pelo que viesse a acontecer. Sem dúvida, no mínimo, o projeto de campanha eleitoral que haviam elaborado não serviria mais.

Como a candidatura de Marina parecia inevitável, Lula teria telefonado para Roberto Amaral, presidente do PSB, sugerindo que desistissem de apresentar outro candidato e voltassem a aliar-se ao PT, como antes da ruptura provocada por Eduardo Campos.

Não resta dúvida que Roberto Amaral sempre teve simpatia por Lula e Dilma, razão por que este teria tentado convencê-lo a retirar seu partido da disputa presidencial.

Roberto Amaral não teria dito nem sim nem não, claro, mesmo porque não tinha ele autoridade para tomar tal decisão. A rigor, digo eu, nem se atreveria a prometê-la, já que isso soaria como traição ao companheiro que acabara de morrer tragicamente.

Se essa conversa aconteceu mesmo, não posso afirmar; o que sei é que, como dizia Brizola, “Lula é capaz de pisar no pescoço da mãe” para não perder o poder. Sem dúvida, se ele conseguisse impedir a candidatura de Marina, as eleições de outubro estariam vencidas por Dilma Rousseff.

Sucede que a exclusão do PSB da disputa eleitoral é inviável, não só pela identificação que nascera entre Marina e Eduardo, como porque a desistência seria como uma espécie de suicídio do partido.

Outra alternativa que, conforme se fala, poderia ajudar a candidatura de Dilma seria conseguir que Marina, no caso de ficar em terceiro lugar, tomasse a mesma atitude que tomara, em 2010, quando Dilma e Serra disputaram o segundo turno: ela simplesmente se omitiu, não disse a seus eleitores que votassem em Serra e, com isso, garantiu a vitória de Dilma.

Só que, desta vez, ao que tudo indica, caso Aécio vá para a disputa final com Dilma, Marina não adotaria a mesma atitude, uma vez que sua relação com o PT é hoje muito diferente.

Na verdade, ela o tem como seu inimigo, quando mais não seja, porque deve ter atribuído a ele, pelo menos em parte, não ter conseguido registrar seu partido na Justiça Eleitoral. Sim, porque não interessava ao PT que ela se candidatasse outra vez.

Porém, e se nas eleições deste ano ocorrer o contrário, se ela, e não Aécio, for para o segundo turno? Esse é, creio eu, o maior temor de Lula e sua turma. Numa tal hipótese, não resta dúvida de que Aécio apoiaria a candidatura de Marina Silva e, caso isso ocorra, dificilmente Dilma seria eleita.

Mas é evidente que tudo isso são hipóteses. Acredito que razoavelmente baseadas em possibilidades reais, em observações aceitáveis mas, de qualquer modo, discutíveis. Além disso, neste momento em que a morte de Eduardo Campos comove a nação, as considerações que fiz aqui levam em conta a influência que esse fator emocional terá na decisão dos eleitores.

Mas pode ser que, passado este momento, questões mais objetivas –como a inflação, as dificuldades econômicas que o país enfrenta, os problemas relacionados com a saúde, com a educação e a com segurança– passem a determinar a escolha do eleitor em outubro.

Claro que isso é possível, mas tudo dependerá de como os candidatos de oposição –e particularmente Marina Silva– consigam valer-se desse fator emocional para convencer o eleitor de que é possível livrar o país do populismo lulopetista.

Não se trata, evidentemente, de usar a morte de Eduardo Campos para chantagear o eleitor e, sim, de chamá-lo a participar de um momento decisivo para o futuro do país, fazê-lo crer que nem todo político é corrupto e demagogo.

Enfim, valer-se do fator emocional, para trazer o eleitor desencantado a confiar na mudança. Nesse sentido, pode ser que a candidatura de Marina consiga atuar de maneira decisiva, como já se viu na primeira pesquisa em que ela aparece. Isso é precisamente o que Lula e seu pessoal não querem. Para eles, quanto mais abstenção, melhor.

*Cronista, critico de arte e poeta. Colunista da Folha de São Paulo. Texto no Caderno E12 Ilustrada, de 24/08/2014.
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