Livro conta a história do Brasil antes de Cabral

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 *Ricardo Bonalume Neto

Quanto mais recuada no tempo a época escolar de um brasileiro, mais clichês foram “aprendidos” sobre os habitantes originais da terra.

Não era incomum ouvir que o país era quase despovoado e repleto de mato. Pior ainda, ouvia-se que os índios eram selvagens primitivos vivendo em plena Idade da Pedra, “indolentes” demais para trabalhar nas lavouras dos colonos portugueses, que por isso tiveram que importar escravos africanos.

Parte dessa visão ainda domina muitas salas de aula. O jornalista Reinaldo José Lopes, que foi editor de “Ciência e Saúde” da Folha, escreve uma coluna quinzenal nesta página, aos domingos, e é autor do blog “Darwin e Deus”, escreveu “1499 – O Brasil antes de Cabral” para colocar a casa em ordem.

“Este livro é uma modesta tentativa de tirar da sua cabeça a imagem, a um só tempo clássica e profundamente equivocada, do Brasil pré-Cabral como um paraíso terrestre tropical, no qual a mão do homem (e a da mulher, lógico) pouco havia mexido”, escreveu Lopes na introdução.

A visão dos originais habitantes do território brasileiro foi colorida desde o primeiro contato com um povo letrado, o desembarque dos portugueses da frota de Pedro Álvares Cabral na região de Porto Seguro (BA) em 22 de abril de 1500. Foi na carta de Pero Vaz de Caminha, o primeiro cronista do país, que começaram os mitos.

“Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram” é como descreve Caminha o primeiro contato transatlântico em carta ao rei de Portugal.

“Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha”, continua Caminha, já lançando as sementes da ideia de que aqui haveria um paraíso, e que os índios viviam em estado adâmico.

Mesmo depois de três quartos de século desde o primeiro “encontro de civilizações” -a maneira politicamente correta hoje de falar “descobrimento”- os preconceitos dos europeus permeavam sua visão dos nativos.

É o caso de um pioneiro historiador luso, Pero de Magalhães de Gândavo (autor de “História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil”, 1576). Para Gândavo, “a língua de que usam toda pela costa é uma […]. Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei: e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disto conta, nem peso, nem medido”.

É curioso relembrar o comentário de Gândavo ao ler o que Lopes escreveu sobre a variedade linguística da América do Sul: “basta dizer que o nosso pedaço do continente abriga, sozinho, cerca de um quarto do total de famílias linguísticas do planeta: 108 famílias sul-americanas, para ser mais exato, de uma soma de 420 delas mundo afora”.

“Não é exagero dizer que você é um privilegiado por viver nesta década de 2010, gentil leitor”, diz o autor do livro. O motivo é simples: nas últimas décadas a ciência avançou muito em áreas tão distintas como arqueologia, genética, botânica ou linguística, e esses avanços jogaram nova luz na pré-história do continente americano (veja infográfico nesta página).

Outros locais da América Latina exibem prédios monumentais que atestam a pujança de civilizações pré-colombianas, como os astecas do México, os maias da América Central e os Incas do Peru, além de outros com nomes menos conhecidos.

Nada parecido foi achado no Brasil; nenhum Indiana Jones local achou um templo perdido na floresta amazônica. Mas isso não quer dizer que culturas sofisticadas não existiram por aqui.

Claro, não existia tanta pedra para criar pirâmides e fortes, como nestes outros lugares. Mas muitas das funções rituais, religiosas, simbólicas equivalentes às dessas megaconstruções existiram no território brasileiro. Não havia pirâmides, mas montes artificiais ou “tesos”, cumpriam essa função. Na região de Santarém (PA) pode ter mesmo existido um “quase estado” com líderes “aristocratas”, guerreiros, e diferenciação social que deveria incluir sacerdotes e com certeza artesãos especializados.

Algo parecido aconteceu na ilha de Marajó, um lugar ruim para a agricultura por conta das inundações, mas ótimo para a criação e/ou captura de peixes, um dos elementos mais básicos da dieta amazônica até hoje. Métodos relativamente sofisticados de uma forma de piscicultura foram então desenvolvidos.

Frutos do mar também estão na base dos chamados sambaquis do litoral, enormes montes de conchas e restos de peixes. A ideia antiga de que era um mero depósito de lixo foi deixada de lado quando novas pesquisas mostraram que ali havia corpos enterrados e sinais de rituais simbólicos.

Na falta de esqueletos ou cerâmica, a arqueologia usa desde restos de plantas ou de pólen para identificar a flora; é um bom exemplo de como as técnicas ajudaram a avançar o conhecimento sobre o Brasil pré-1500.

O gosto de Lopes pelo tema e a experiência com reportagens e pesquisas estão destilados em “1499” com o tradicional estilo coloquial do autor, que cordialmente chama o leitor de “gentil”, “nobre” ou “insigne”.

O autor procura ser didático, por isso o livro inclui vários quadros com “explicações técnicas”. Em uma delas, sobre o método de datação por carbono-14, ele diz que o “treco é instável: surge quando a atmosfera da Terra leva pancadas de raios cósmicos, vindos do espaço sideral, e desaparece com o tempo, transformando-se lentamente em nitrogênio-14 após cuspir um par de partículas radioativas, feito criança que perde um dente de leite”. Quem mais escreveria algo assim?

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ciência+Saúde, de  06/08/2017.
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