Inútil

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A arte se baseia no absurdo de que todo acerto é um erro, todo bem é um mal e todo salvador é falível.

Em “A Segunda Vida de Brás Cubas” (editora Rocco, R$ 33, 288 págs.), o filósofo Patrick Pessoa procura analisar o herói defunto de Machado de Assis pelo seu valor artístico, independente do caráter sociológico ou filosófico que a obra não deixa de conter.

Pessoa introduz sua tese com três visões distintas da arte.

No livro 10º, da “República”, Platão defende a exclusão dos poetas de sua sociedade utópica, taxando-os de imitadores que “instauram na alma de cada indivíduo um mau governo, lisonjeando a parte irracional”, “sempre a forjar fantasias” que afastam o homem da verdade.

Hegel segue um raciocínio diferente, mas igualmente avesso à poesia, ao tratá-la como uma versão primitiva da filosofia. “O caráter peculiar da produção artística não satisfaz nossa mais alta necessidade”, afirma. “O espírito do mundo atual, da nossa religião e formação racional, ultrapassou o estágio no qual a arte constitui o modo mais alto de o absoluto se tornar consciente.”

Kant constrói uma terceira hipótese, na qual a experiência estética independe das razões puras e práticas. O juízos referentes ao belo não serviriam nem para o conhecimento teórico da realidade nem para o aprimoramento humano no mundo.

Prazer e desprazer fariam parte do enigmático jogo entre as faculdades transcendentais da imaginação e do entendimento, do princípio da finalidade sem fim.

A finalidade sem fim. A conclusão cala fundo em alguém que, como eu, faz uso das leis de incentivo num país de desigualdade social alarmante.

Quando Lula assumiu o primeiro mandato, houve uma grande discussão a respeito das contrapartidas sociais que uma obra deveria oferecer para ser agraciada pela isenção fiscal.

Contra-argumentou-se que o filme, a peça, o livro ou o show seriam a própria contrapartida, mas o MinC achou pouco. Talvez fosse mesmo.

No teatro, a política de preços acessíveis foi uma das saídas encontradas para o problema, mas ela acabou por tornar os produtores ainda mais carentes das benesses do estado. No cinema, a dependência e culpa pela falta de uma finalidade prática fez com que os filmes se justificassem, ora pelo lucro que geram, ora pela tragédia social que denunciam.

Comédias Pastelão versus Favela Movie. Abandonou-se o caminho do meio, que o cinema argentino, mesmo diante da crise econômica, soube tão bem traçar.

É difícil assistir a “Relatos Selvagens” sem se perguntar o porquê de não sermos capazes de produzir algo tão maduro, livre de pressões de mercado ou catequeses morais, sociais e partidárias.

A arte se baseia no absurdo de que todo acerto é um erro, todo bem é um mal e todo salvador é falível. Sua natureza é como a do filme de Damián Szifrón, inconsciente, ilógica, trágica e feroz. É compreensível que Platão a queira longe de seu ideal.

No dia em que liguei a televisão e dei com Barack Obama e Raúl Castro anunciando o fim da animosidade entre Cuba e os Estados Unidos, pensei nas milhares de pessoas que deram a vida por uma causa que, décadas depois, cairia por terra com a bênção do Papa.

O cadáver de Che na Bolívia, o paredão, a Baía dos Porcos, o perigo vermelho e a Guerra Fria, tudo acabava ali, com o “somos todos irmãos”.

Parada, diante da TV, reafirmei a desconfiança que cultivo por toda e qualquer ideologia. Elas são como as febres, que passam, caso não levem à morte. E dei graças pela minha herança inútil de artista.

O Buena Vista sobreviveu a Batista, Fidel e ao embargo; Nelson Rodrigues, à patrulha ideológica de esquerda, à MPB ao golpe de 64; e Ricardo Darín ao populismo botocado da Casa Rosada.

Obama e Raúl deveriam ter encerrado seu discurso com o breve credo de Macbeth.

“Amanhã, e amanhã, e amanhã, chegando no passo impressentido de um dia após um dia, até a última sílaba do tempo registrado. E cada dia de ontem iluminou, aos tolos que nós somos, o caminho para o pó da morte. Apagai-vos, vela tão pequena! A vida é apenas uma sombra que caminha, um pobre ator, que gagueja e vacila a sua hora sobre o palco e depois nunca mais se ouve. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada.” Ato 5º – Cena 5, tradução de Millôr Fernandes.

*Atriz e escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno E10 Ilustrada, de 10/01/2015.
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