Índios em Itacoatiara

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O RIO AMAZONAS corta ao meio o Município de Itacoatiara. Costumo citar em minhas palestras e entrevistas que, desde o iniciar do período pré-colombiano ao final do século XVIII, o poderoso caudal amazônico constituiu-se num imenso corredor cultural por onde transitaram milhões de membros da civilização das selvas, em sucessivas ondas e num vai e vem constante.

A viagem do capitão espanhol Francisco de Orellana (1541/1542) revelou uma Amazônia de ocupações densas, diferentes da baixa densidade demográfica das aldeias indí-genas atuais – quadro que ainda se mostraria significativo à passagem de Pedro Teixeira quase um século depois.

Pela descrição de frei Gaspar de Carvajal, o cronista da expedição, os primeiros habitantes do médio Amazonas eram idólatras. Tinham lá seus mitos, “sendo o Sol que eles adoram e têm como seu Deus”. Em junho de 1542, estando os viajantes abaixo do Rio Negro, aportaram “numa aldeia de medíocre tamanho, onde a gente nos esperou. Havia lá uma praça muito grande e no meio da praça um grande pranchão de dez pés em quadro, pintado e esculpido em relevo, figurando uma cidade murada, com a sua cerca e uma porta. Nesta porta havia duas altíssimas torres com as suas janelas, as torres com portas que se defrontavam, cada porta com duas colunas (…). Havia no meio desta praça um buraco por onde deitavam, como oferenda ao sol, a chicha que é o vinho que eles bebem (…). Encontrou-se também nessa praça uma casa muito pequena (espécie de oratório), dentro da qual havia muitas vestimentas de plumas de diversas cores, que os índios usavam para celebrar as suas festas e bailar quando se queriam regozijar diante do já referido pranchão, e ali ofereciam seus sacrifícios com a sua danada intenção”. Mais abaixo, sempre descendo o imenso rio, seguramente próximo à foz do Madeira, encontraram “outra [aldeia], muito grande, que tinha o mesmo pranchão e divisa. Partindo dali, passamos por outros povoados, onde os índios nos esperavam em pé de guerra, como gente belicosa, com suas armas e [escudos] nas mãos, fazendo grande algazarra, gritando por que fugíamos, se eles ali nos esperavam (…). Em algumas partes, os índios de terra e nós da água nos fazíamos guerra, [e eles] eram muitos (Carvajal, 1941)”.

Carvajal explicita que ao longo do caminho, já no território de Itacoatiara, havia uma grande diversidade de tribos. Os indígenas defendiam com valentia o seu espaço, porém, mais fortes em armas e astúcia, os europeus agiam com redobrada violência. Os fatos comprovavam que além de inumeráveis os nativos eram fartos em alimentos. À altura do Paraná da Eva, os expedicionários defrontaram com uma pequena povoação onde havia “muito peixe secando nos varaus [e] muita comida, especialmente peixe, que havia em tal abundância que pudemos abastecer largamente os bergantins”. Várias vezes, tanto ao ocupar pela força como ao ser recebida amistosamente em povo-ados, ao longo da viagem, a expedição não teve dificuldade aparente em se abastecer de milho, farinha, frutas, peixes e tartarugas. Nas cercanias de São José do Amatari entraram em conflito com os índios, mataram vários deles enforcados e outros feitos prisioneiros. Em frente ao Rio Madeira os expedicionários viram “umas povoações muito grandes sobre uma lomba – suponho que a Ilha do Cumaru – que chegava até à margem do [Amazonas]”. Ali, “levantaram-se mais de cinco mil índios com as suas armas, e começam a dar gritos e a desafiar-nos, a bater com as armas uma nas outras, fazendo um tal ruído que parecia que o rio vinha abaixo. Passamos adiante e, obra de meia légua depois, – penso que próximo ao Paraná do Arauató  – demos com outro povoado  maior, mas aqui nos fizemos ao largo (…). [Continuamos] o nosso caminho, sempre entre lugares [muito] povoados (Carvajal, 1941)”.

Nas terras da margem esquerda do Rio Amazonas, que se estendem do Rio Preto da Eva, no limite oeste do Município de Itacoatiara com o de Manaus, à foz do Rio Uatumã, no atual Município de São Sebastião do Uatumã, a leste, a movimentação dos primeiros residentes foi intensa e muito forte.

Povos de língua Aruak, procedentes das regiões fronteiriças de Venezuela e Colômbia, há vários milênios haviam se estabelecido naquelas terras. Em 1550/1650, a população preponderante na margem esquerda, entre o Urubu e o Nhamundá, era de índios da nação Aroaqui. A leste, na bacia dos rios Nhamundá e Trombetas, havia os Conduri; e a oeste, da barra do Rio Negro até o Urubu, os Tarumãs. Na segunda metade do século XVII, o circuito Urubu-Uatumã era lugar de habitação de Aroaqui, Pareci (ou Pariqui) e Banauri. Mais ao centro viviam os índios Anibá, no Rio homônimo. Bettendorff (1990), que nessa época visitou o Urubu duas vezes, identifica-o como “o rio dos Aroaqui”. Relata que Pedro da Costa Favela, no final de 1664, ali encontrou 96 aldeias dessa tribo.

O Rio Urubu tem cerca de 400 km de extensão. Nasce nas proximidades da Guiana Inglesa, corre em leito fixo, ora pedregoso, ora em argila, e desagua no Paraná de Itapiranga, ao largo da cidade desse nome. Nos séculos XVII e XVIII foi devassado por militares e civis a serviço da Coroa portuguesa. Explorado desde os idos coloniais por arqueólogos, astrônomos, botânicos, geógrafos, etc. – corre por detrás da cidade de Itacoatiara e nele avultam muitos aglomerados rochosos dignos de menção. Visitado em meados de 1750 pelo missionário jesuíta João Daniel, que o descreveu como “Rio de águas pretas e lindas praias célebres pelo grande provimento de tartarugas (…) por isso, muito frequentadas dos portugueses, que dos seus ovos fazem manteigas, de que saem todos os anos muitos mil potes (Daniel 1976)”.

Nos lugares Maguari, Sangaris e Aibú, ao longo de suas margens, mil legendas e desenhos esculpidos em rochedos fazem despertar curiosidades. Foi visitado, pelo menos três vezes, pelo cientista João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Na vazante de 1926, após detida pesquisa no Sangaris, ele descobriu as ruínas de um templo místico formado de blocos de pedras, e dotado de altares conhe-cidos pelo nome de Cuaruaras. Para Barbosa Rodrigues – segundo nos informa o historiador Manoel Anísio Jobim (1877-1971) – as inscrições do Urubu não são de autoria autóctone e as atribui (creio que equivocadamente) aos gregos e fenícios que “em tempos imemoriais passaram por aquela região (Jobim, 1948)”.

Supersticiosos afirmam que o afluente Sangai ou Sangaris – que em tupi significa figura, imagem – ainda é pouco navegado, face às fantásticas histórias contadas em torno das imagens e dos escritos pré-históricos que suas rochas contêm. As pedras pintadas do Urubu – conforme foi dito antes – guardam similitude com as encontradas na enseada do Jauari, em Itacoatiara. Ambos locais carecem de proteção e tombamento.

“Rio sagrado dos Aroaqui“, o Urubu tem a mesma simbologia do Rio Negro. Ambos sediaram tragédias que resultaram no extermínio de várias populações nativas do Amazonas. O lendário curso d’água atravessa duas vezes a Rodovia estadual “Antônio Vital de Mendonça” (AM-010), à altura de seus km 180 e 247. Suas cachoeiras mais importantes são Iracema e Lindóia.

Por Amatari também transitaram índios Aroaqui. Ao tempo da primeira entrada dos jesuítas no Amazonas (1657) era uma populosa aldeia dessa tribo. Sobre ela, João Barbosa Rodrigues escreveu: “… na terra firme do Amatari fundou o padre [Francisco] Veloso a sua missão” que mais tarde passou à responsabilidade do padre Aluísio Conrado Pfeil. Com os Aroaqui conviveram em Amatari os Periquito e os Sapopé (ou Sapupé) – todos pertencentes ao grupo Tupi, e os últimos procedentes do médio Urariá. O padre José Monteiro de Noronha, então vigário da Capitania de São José do Rio Negro, inclui em 1768 como moradores do Rio Uatumã, além dos Aroaqui e Pariqui, os Terecumã e Sedeuy. Segundo o mesmo, “os Periquito tinham as faces matizadas com sinais pretos que lhe faziam os pais na sua infância com pontas de espinhos e tinta negra aplicada nas picaduras dos mesmos espi-nhos”. Os Sapopé eram estigmatizados por adotar o hábito da antropofagia. Antes do contato, pensavam que todas as almas se reuniam num determinado lugar, onde viviam tranquilamente, durante muitos anos. Como prova de seu desapego a bens materiais, os Sapopé costumavam enterrar os seus mortos queimando antes aquilo que eles possuíam. Tisnavam os rostos esculpindo-os de figuras. Objetivando “esconder as vergonhas”, suas mulheres cobriam-se com folhas de árvores.

Os Aroaqui eram inimigos ferrenhos dos Pariqui e dos Anibá, e com eles estavam sempre guerreando tendo por anfiteatro da luta os rios Jatapu e Anibá. Acossados pelos Pariqui, provavelmente deixaram a região no início do século XVIII e subiram o Rio Negro. Ficariam em seu lugar os Mura, grupos de cultura e língua isoladas, proce-dentes do Madeira, que se espalhariam pelas regiões do Rio Urubu, Amatari e Autazes. Quanto aos Pariqui, foram em 1775 descidos para a então vila de Serpa.

Loureiro (1978) conta que, em 1708, os Pariqui se “revoltaram e destruíram a missão de Taracuera, afluente do Uatumã, e mataram os missionários capuchos Antônio de Vila Viçosa e Pedro de Évora. Em seguida, houve um confronto entre a tropa do capitão-mor Pedro da Costa Rayol e os nativos” amotinados resultando em sofrimento e morte para ambos os lados.

Conforme Jobim (1948), dos Aroaqui só restaram os cerâmeos do cemitério que construíram na Costa de Miracangüera, fronteiro à Ilha Maria Benta e ao Paraná do Arauató, na margem esquerda do Amazonas, pouco acima desta cidade. A necrópole indígena antecedeu ao ‘desco-brimento’ da América e durou até a dispersão dos índios Aroaquis, entre o final do século XVII e princípios do seguinte. “Deverá ter sido fundado pelo povo Aroaqui que se espalhou numa grande onda humana até as Antilhas.” Com quase um quilômetro de extensão, devido aos des-moronamentos provocados pela correnteza do Amazonas, há muito tempo se encontra totalmente descaracterizada. As impetuosas águas do gigante fluvial escavaram o lugar, deixando à mostra um rico tesouro arqueológico que se ocultava debaixo de rochas. Estudado por cientistas nacionais e estrangeiros, teve seu acervo – louças de barro cozido e igaçabas de várias formas e tamanhos – revirado pelas águas. A maior parte desse rico material foi coletada e desviada para museus de Belém, capitais do centro-sul do País e até do exterior (Noronha, 2006; e Jobim, 1948). Muitas peças integram coleções particulares Brasil afora. Outros objetos cerâmicos, ou pedaços deles, colhidos de forma aleatória nas áreas urbana e periférica da cidade, integram o acervo da Galeria Terezinha Peixoto, que os disponibiliza para consulta. Outro contingente de peças se encontra no Museu Amazônico e no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas – ambos na cidade de Manaus.

A principal riqueza arqueológica do Brasil, sem dúvida, é a cerâmica indígena. A pesquisa e a divulgação do assunto na Amazônia – sobretudo em nosso Estado – são quase nulas. Inexistem referências sobre os vasos da necrópole indígena de Miracangüera – que significa “osso de gente que existiu”. Para Jobim (1948), Miracangüera, “na sua mudez álgida, reflete os vestígios da extinta raça dos Aroaqui, e da civilização que ela trouxe, e não a obra de uma civilização estrangeira pré-histórica”. E o zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917) escreve: “Até hoje, uma só voz se levantou, declarando positivamente que os cons-trutores dos aterros sepulcrais de Marajó não são pré-históricos, que foram os Nheengaíbas, um ramo colateral dos Aroaqui. Foi Barbosa Rodrigues que chegou a este resultado pelo estudo comparativo da cerâmica funerária de Miracangüera (Serpa), no vale amazônico”.

Consoante atestado por Noronha (2006), em 1768 “o Rio Urubu era habitado só pela nação Aroaqui”. Antes, foi “terra de muito gentio. Nela esteve, em outro tempo, fundada uma grande e populosa aldeia administrada pelos religiosos mercedários, e se extinguiu, fugindo os índios seus habitantes depois de tirarem a vida ao seu missio-nário frei João das Neves (c.1637-1714), animados de um espírito de rebelião e a impulsos de sua natural inconstância na firmeza da sua fidelidade (Noronha, 2006)”. Igual opinião do ouvidor-geral Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1741-1807) que escreveu em 1774/1775: “Os religiosos mercedários tinham [no Rio Urubu] uma missão que depois se extinguiu pela rebelião dos índios e morte do seu missionário”.

Os Aroaqui se notabilizavam pela perfeição com que fabricavam artefatos cerâmicos. Ainda trabalhavam na pesca, na caça e na agricultura. Destemidos guerreiros, sua estatura era um pouco mais baixa que a normal, a pele morena, olhos amendoados e cabelos negros lisos. Samuel Fritz não os cita em seu Diário, fato surpreendente porque no seu Mapa do Rio Amazonas (1691) menciona o Urubu como local de domínio dos índios dessa tribo. Além das baixas resultantes dos males que contraíram e das expe-dições de guerra que se lhe moveram, perseguidos, os Aroaqui aos poucos foram deixando a região e avançaram floresta adentro. Ainda em 1890 havia descendentes deles nas cabeceiras do Uatumã e na Guiana Inglesa, onde eram denominados de Aroaks.

O curso do Amazonas não foi a principal rota de dispersão Aruak. Os índios dessa etnia também migraram pela periferia da bacia, tanto pelo norte como pelo sul, a partir do Peru. Desde o Caribe, região donde procederam, passaram a disputar o mesmo espaço com os Karib.

 A prova da presença humana no trecho norte do Rio Amazonas são os desenhos rupestres descobertos nas rochas ao longo do Urubu e as existentes no sítio Itaquatiara, em plena área urbana de Itacoatiara, no bairro do Jauari, e os fragmentos cerâmicos coletados no sítio Miracanguera, na orla do Amazonas junto ao Paraná do Arauató – sem deixar de citar inúmeros outros achados no bairro da Colônia e no entorno da Exportadora Hermasa, pouco acima do Igarapé de Serpa. Ao todo são cerca de 30 sítios arqueológicos de diferentes datas, com vestígios que vão de 02 mil a 07 mil anos antes do tempo atual. Graças a um convênio celebrado entre o IPHAN, a UFAM e a Prefeitura de Itacoatiara, uma equipe de técnicos dirigida pela arqueóloga Helena Pinto de Lima, da Universidade de São Paulo, vem desenvolvendo, a partir de 2009, atividades de pesquisa e difusão científica no baixo Rio Urubu e nas áreas acima citadas de Itacoatiara.

Os sítios arqueológicos localizados nessa área estão agrupados sob o Horizonte Inciso Ponteado, caracterizado pelas incisões profundas e pela técnica de ponteação, que os arqueólogos associam-na aos antepassados dos povos de língua Karib. Quanto aos restos cerâmicos e às peças a que nos reportamos, estão sob a análise laboratorial da UFAM. Em meados de agosto deste ano, parte do acervo já coletado foi exposta no Centro Cultural Velha Serpa.

Como se sabe, o nome Itacoatiara (termo aportugue-sado do tupi i’tá kwati’ara, que se traduz para pedra pintada ou riscada), provém da existência de pedras que ornam o porto do Jauari. As inscrições nelas existentes só são vistas na época da baixa das águas, em pleno verão, quando ficam à mostra. Jobim (1948) lembra que essas e outras inscrições são de autoria indígena e, para isso, pauta-se em “Barbosa Rodrigues [e Luiz Fróes da Cruz]” que “atribuem a obra aos silvícolas (…) e consideram o fato como comemorativo da invasão dos Aroaqui no Amazonas”. Jobim também cita os etnógrafos Teodoro Sampaio (1855-1937) e Estevão Pinto (1895-1968) – o primeiro “pensa que as inscrições [do sítio Jauari] acodem a sentimentos religiosos, têm caráter cultural ou propiciatório, assinalam cemitérios”. Praticamente repete o segundo, o qual “acredita que [em casos como esses] há inscrições de caráter religioso e propiciatório, como as há de feição puramente artística”.

Ressalte-se que os sítios Miracanguera e Itaquatiara desde o século XIX foram visitados pelos seguintes homens de Ciência: João Barbosa Rodrigues – em 1870 e 1926; o canadense Charles Frederick Hartt (1840-1878) – em 1874; Domingos Soares Ferreira Pena (1818-1888) – em 1877; José Lustosa da Cunha Paranaguá (1855-1945) – em 1882; o conde italiano Ermanno Stradelli (1852-1926) – em 1883; o alemão Kurt Nimuendaju (1883-1945) – em 1925; e Bernardo Azevedo da Silva Ramos (1858-1932) – em 1926.

No baixo Urubu, a equipe da professora paulista Helena Pinto de Lima tem priorizado os sítios Caretas e Pedra Chata, distantes uns 20 km da cidade de Itacoatiara. Lá se encontra o maior número de desenhos rupestres de faces humanas e animais talhados em rochas, à beira do rio, e é muito provável que tais inscrições pertenceram aos Aroaqui. O mesmo padrão de petroglifos encontra-se também em rochas do sítio das Lajes, próximo de Manaus. O sítio Pontão, no Município de Silves, compõe um complexo de pequenos sítios arqueológicos interligados, cujas cerâmicas se assemelham às do sítio Caretas. Tais desenhos podem ter sido a principal forma de comunicação entre as populações pré-históricas de Silves, Itacoatiara e Manaus.

Quanto à margem oposta do Amazonas, no trecho intermediário entre os rios Tapajós e Madeira abarcando os sertões que nos idos coloniais pertenceram a Itacoatiara, ali predominaram povos das etnias Karib e Tupi. Destacam-se como principais fontes, a respeito, os relatos do navegador espanhol Francisco de Orellana, do capitão português Pedro Teixeira, do padre jesuíta alemão Samuel Fritz e de outros viajantes dos séculos 16 a 18.                                

Ano de 1639. Na viagem de volta de Pedro Teixeira, a geografia humana do médio Amazonas ainda se encontra-va livre do etnocídio que avançava na Amazônia Oriental. À época, conforme o relato de Acuña (1994), “Das nações [do Rio Madeira], que são muitas, destacam-se as dos Zurinas, seguidas das Cayanas, Ururihaus, Anamaris, Guarinumas, Curanaris, Erepunacas e Abacatis (Abacaxis). E a partir da foz deste rio, seguindo pelo Amazonas, vivem os Zapucayas e os Urubutingas (…) peritos em lavrar objetos de madeira. Depois, os Guaranaguacas, Maráguas, Quimaus, Burais, Punouys, Oreguatus e Aperas”.

Acuña (1994) prossegue: “A vinte e oito léguas da boca do [Madeira], há uma formosa ilha (…) toda povoada pelos valentes Tupinambás, gentio que, após a conquista do Brasil, em terras de Pernambuco, há muitos anos, saiu derrotado, fugindo do rigor com que os portugueses o sujeitavam (…). Têm coração nobre e afidalgado, embora quase todos os que atualmente [1639] vivem neste rio sejam filhos e netos dos primeiros povoadores…”. Eram peritos na arte de “fazer machado de pedra de que precisam para a derrubada das árvores quando querem cultivar a terra”.

Realmente, a migração dos Tupinambá do litoral do Brasil para a Ilha de Tupinambarana, no baixo Rio Madeira, aconteceu no final do século XVI – trajetória que durou cerca de meio século. Atravessaram o Continente até o sopé dos Andes na Bolívia, desceram o Rio Madeira, fixaram-se na citada ilha e depois se dispersaram por toda a Amazônia. Em meados do século XVII, um grupo desceu o Amazonas e passou a morar no Tocantins; e por isso eram chamados os Tupinambás de baixo, ou Tupinambás novos.

As nações mais conhecidas do Madeira, no final do século XVII, eram os Iruri, os Paranapixana, os Torori, os Aripuanã, os Onicoré, os Arara e os Abacaxis, todos perten-centes ao grupo Tupi, à exceção dos Arara, do tronco Karib.

Os Iruri foram contatados no final de 1683 e os Paranapixana, Torori, Aripuanã e Onicoré, no início de 1689. Pertenciam a um único grupo tribal designado por Bettendorff (1990) como “nação dos Iruris”. Antes de serem cristianizados, adotavam uma estranha cerimônia fúnebre: levavam seus mortos “para uma espelunca, onde também guardavam carnes e peixes numa rede, arco, flechas e todas as outras coisas a viver confortavelmente, e se o cadáver era de alguém de maior nobreza ou da ordem dos guerreiros, dois servos e duas servas os acompanhavam, sendo com eles sepultados (Bartolomeu Rodrigues)”. Ultrapassada essa fase, os Iruri passaram a ser vistos como “sóbrios no vinho e industriosos em trabalhar”. Teciam panos de algodão e de linho e faziam canoas; permutavam materiais de seu uso comum e viviam entre si “com paz e concórdia indizíveis e com grande veneração pelos padres, nisto superando todas as outras nações. Uma única coisa perturbava a tranqui-lidade desses povos: os Maué, gente cruel e brava.”                                                                                          

Os Arara eram numerosíssimos e ocupavam a foz do Rio Ipitiá ou a Ilha dos Arara, acima do Rio Aripuanã.  Provavelmente antropófagos, distinguiam-se por riscos atravessados das laterais da cabeça aos cantos da boca, imitando a ararauna, ou arara-canindé, ave amazônica de grande porte, cor azulada e bico muito forte. Depois de contatarem com os brancos partiram em direção sul onde ocuparam várias posições na região encachoeirada do Rio Madeira. Segundo Bettendorff (1990) os Arara “Eram tão numerosos que se igualavam às folhas do mato em que habitavam”. Tinham por vizinhos os Anhangatinga, que costumavam cremar os cadáveres de seus companheiros e parentes e beber suas cinzas misturadas ao vinho.

Os Abacaxis, cujo nome antigo, segundo referência do jesuíta Bartolomeu Rodrigues, teria sido Chichirinim, foram pela primeira vez citados no relatório de Acuña (1994), em 1639. Essa tribo deu nome à aldeia para onde foi transferida em 1696 a missão itinerante da qual resultou a vila de Nossa Senhora do Rosário de Serpa e atual cidade de Itacoatiara. Eram numerosíssimos, antes do contato, e acreditavam que “gozará de vida feliz e eternas alegrias” aquele que, na guerra, fez maior chacina de seus inimigos e que maior quantidade de seus ossos juntou em suas malocas.

Os Torá ou Toratoraris, grupo xapacura procedente da área do Maici, desde a foz do Machado até as cabeceiras do Rio Marmelos, no século XVIII guerreavam contra os colonizadores naquela região. Para Bartolomeu Rodrigues, eram “em tanta multidão que as [demais] nações lhes chamavam o Formigueiro”. Derrotados, depois de várias guerras, quase nada restou deles. Os que sobreviveram, em 1716, tiveram que se aldear com os Abacaxis.

Na metade do século XVIII, a região banhada pelo Paraná do Urariá, na região intermédia do Madeira-Tapajós, ainda era habitada pelos Sapupé, Comaní, CuritiáUrupá, Aitouariá, Acaraiuará, Brauará, Maturucu e Abacaxis. Também por ali circulavam os Torá e os Mura.

Os Mura, citados pela primeira vez em 1714 numa carta que Bartolomeu Rodrigues enviou ao padre Jacinto de Carvalho, migraram do Peru, desceram o Rio Solimões e passaram às regiões do Madeira e Autazes. Nesta última, a comunicação era facilitada graças à infinidade de igarapés, lagos e igapós. Segundo Bates, os Mura se aproximariam dos Tupi pelo costume de usar o alucinógeno paricá, como os índios Maué.  Gentio de corso e extremamente agressi-vos, dominaram o Madeira e seus tributários durante mais de meio século. Daniel (1976) define como causa para o início das hostilidades os desmandos de um português que, aproveitando-se do trabalho feito entre eles por um padre, escravizara um grupo de índios, enviando-os presos para Belém. Em várias ocasiões os governadores do Grão-Pará e os capitães-gerais do alto Rio Negro mandaram tropas para combatê-los. Os intentos civilizatórios do governo, as cruzadas apostólicas dos jesuítas, as perseguições de outras tribos e a varíola incidiram com o tempo sobre eles. Só em 1784 os Mura encerrariam as hostilidades contra os brancos. Nessa época, segundo Porro (1992), “a vila de Serpa (depois Itacoatiara) já aparece como povoação ‘moderna’, de brancos, mestiços e índios cristianizados”.

Na segunda metade do século XVIII, as etnias que formavam a população da antiga Serpa eram as seguintes: AbacaxisBaré,AponariáCuruaxiáIruriJumaJuquiOnicoréPariquiSará e Urupá – todas oriundas da região do Madeira, exceto a dos Pariqui, mais tarde descidos do Uatumã. Noronha (2006) lembra que os nossos “primeiros povoadores” foram os índios Iruri, “aos quais se agregaram os Abacaxis e outras muitas tribos”. Num relato de 1768, esse autor enumera as tribos que habitaram Amatari e o seu entorno: Aroaqui, Sapupé, Periquito e Mura.

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Estes povos estão extintos ou destribalizados há mais de duzentos anos. “No século XVIII boa parte havia sido dizimada e incorporada como mão-de-obra servil nas vilas e fazendas portuguesas e seus remanescentes haviam-se refugiado pela terra firme, longe dos rios frequentados pelos colonos (Porro, 1992)”. Pouquíssima coisa sobrou do modelo demográfico característico do período pré-colonial, de forte concentração indígena, encontrado em Itacoatiara. Em 2007 apenas 350 descendentes de índios Mura foram registrados ocupando quatro aldeias no entorno da cidade. Três anos antes eram 477 espalhados pelo Urubu e Paraná do Arauató (FUNAI e DOU de 28.10.2004).

O registro da presença, ou da atividade pretérita dos nossos primitivos habitantes ressoa nostálgico e triste, nos seguirá por toda a vida. Mas, há outros instrumentos, sinais alusivos a essa antiga trajetória. São as “pedras pintadas” – nome dado às rochas ribeirinhas com inscrições rupestres – os cacos cerâmicos e outros materiais arqueológicos que reportam as idas e vindas de inúmeras nações, o sistema de comunicação e a relação entre tribos; e o acervo de nomes inter-relacionados com aqueles recuados tempos identifi-cadores de lugares urbanos e rurais, hábitos alimentares, elementos da flora e da fauna e acidentes geográficos.

Destacam-se as denominações: Açacu, Açaí, Aibú, Arapapá, Arari, Arauató, Arumã, Beiju, Biribá, Cacauari, Cacauarana, Cainamã, Canaçari, Canoa, Carão, Caxinauá, Chibé, Crueira, Cumaru, Guaraná, Iaçá, Igarapé, Ingàipaua, Iraci, Jauarí, Lindóia, Macaxeira, Mandioca, Mangaratiba, Maquira, Mixira, Moquém, Mutirão, Nheengatu, Panema, Piquiá, Piracema, Pirarucu, Poranga, Remanso, Siripá, Tacacá, Tapioca, Tambaqui, Tipiti, Tucupi, Uxituba, etc..

Esses termos e os referentes às etnias responsáveis pela formação do povo de Itacoatiara, além do ideário que propõem e da paisagem que oferecem, estão absolutamente à mercê dos cronistas, poetas, compositores e amantes das artes cênicas e pictóricas. A comunidade espera que – inspirados neles – produzam trabalhos fartos em número e em qualidade, de endeusamento da cidade da pedra pintada, cuja história, costumes e tradições contemplam a natureza e flutuam em direção aos horizontes da criação, da música, da poesia, e da beleza.

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Conforme alguns dados etnogeográficos alusivos ao século XVIII, os indígenas do Madeira viviam de forma muito organizada e harmônica. Existiam dois tipos de casa: a mais simples, ocupada por uma única família, chamada de oca, e outra coletiva, denominada de maloca, construções de pau-a-pique, cercadas e cobertas de palha trançada ou folhas de grandes árvores. Tais povoações continham uma praça central em cujo entorno se erguiam as casas, geralmente distribuídas em círculo.

Noronha (2006) informa que “Nas cerimônias, ritos, bailes, adornos de penas, rusticidade e costume, não diferem muito os índios do Amazonas”.

No final da primeira metade do século XVIII, os je-suítas Anselmo Eckart, alemão, e João Daniel, português, que transitaram pela região do Madeira, noticiam o modo de vida nos aldeamentos missionários, seu equipamento material, o tipo de moradia, a pesca, o plantio e o preparo dos alimentos, as crenças, os ritos funerários e as bebedeiras dos índios. Nas missões de Abacaxis e Trocano (Borba), as casas dos indígenas eram feitas de madeira e pindova, espécie de palmeira muito comum na região. Com esse material não apenas se faziam os telhados, mas também as paredes, portas e janelas. Eram casas enormes, com vários cômodos grandes e pequenos. Os esteios serviam para armar as redes de dormir. Em geral, as casas possuíam duas portas. Assim, quando chegava alguém que não fosse do agrado dos índios, estes escapavam furtivamente pela porta dos fundos.

Segundo Eckart, citado por Porro (2011): “Na minha época, nas missões dos jesuítas, a maioria das igrejas e casas dos padres é coberta de folhas de pindova, [que] são estreitas e muito compridas e crescem para cima em linha reta, recobrindo a cana (o caule da planta). É preciso colocar muitas canas uma em cima da outra para que as folhas cubram a casa; elas são inicialmente verdes, tomando de-pois a cor clara. Quando estive na missão de Abacaxis, a casa da missão foi coberta em um dia, nela trabalhando de 50 a 60 índios (…). Havia em certas localidades casas muito grandes em que as pessoas solteiras moravam sozinhas, os homens separados das mulheres (Porro, 2011)”.

Daniel (1976) comenta: As casas dos indígenas eram “cobertas com folha de palmeira”. Não necessitam de pregos “para segurarem os esteios, nem para segurança dos caibros, travessas, paredes, e telhado, porque tudo vai atado com cipós, excelentes cordas da América” (…). Costumam fazer “estas casas tão grandes e espaçosas que há povoações que não tem mais que uma, onde vivem para cima de cem, e duzentas pessoas; e posto que haja mais casas, todas são de bom tamanho, capazes de hospedar muita gente” (…), onde “vivem pais, mães, filhos, filhas e parentes, todos juntos”. “Nas suas povoações, além destas suas casas particulares, [há] outra muito maior, que chamam casa do paricá, comum a todos e ordinariamente descoberta pelos lados. Neste casarão (…) se ajuntam como em câmara para os seus conselhos de guerra; nesta mesma fazem as suas festas e beberronias, os seus saraus, danças e mais funções”.

Daniel (1976) prossegue: “Os índios, embora criados à lei da natureza, obedecem aos tuxauas. Os filhos obede-cem com muita sujeição aos pais, e os mais moços aos mais velhos. Nutrem grande veneração pelos idosos, especial-mente às velhas”. Por orientação dos jesuítas já andavam vestidos… De “ordinário [os homens se vestiam] com uma camisa grossa de algodão e uns calções, e as mulheres uma camisa degolada (…) que lhes chegam até a cintura, e uma saia até o artelho, ou meio da perna, ou até os joelhos”.

Informação, aliás, pouco divergente da esposada por Eckart: “Andam inteiramente nus (…), embora muitas vezes [cobrem] com folhas, penas ou outra coisa o que é neces-sário cobrir. Nas missões, já abençoados, consagrados e promovidos na crença cristã (…) andam vestidos (…). Os homens e [as] mulheres vestem camisas de pano nos dias de festa; usam também panos listrados. As índias de mais posse vestem saiotes de meia seda; enfeitam a cabeça à moda portuguesa com lindas fitas, além de brincos, colares e pequenos braceletes”. Para distribuição entre as tribos, “de Lisboa chegavam varas de algodão, tecidos lisos e listrados, chapéus, agulhas de costura, barretes, facas, sal, pratos e espelhos (Porro, 2011)”.

Os índios se dirigiam ao padre missionário na língua geral, mas em suas casas falavam cada um a sua língua. “Os chefes de aldeia vendiam seus súditos [aos colonos] por uma garrafa de aguardente. Os índios pescavam com flechas e quando acertavam o peixe nadavam atrás dele e tiravam da água a flecha com o peixe”. Especializados em preparar diferentes tipos de vinho de frutas e raízes, da mandioca espremiam uma boa aguardente, que denominavam de capi acanga ou cabi tatá. Sobressaíam os vinhos de açaí, de maracujá, o aluá (feito da casca do abacaxi), a mangaratiba (do sumo da mangarataia), etc.. As cuias onde se serviam de água, vinhos, etc., tinham sua parte externa pintada de tinta preta misturada com goma, de modo que ficavam como que envernizadas. Certas tribos faziam constar nesses recipien-tes pinturas de figuras de árvores, pássaros, peixes e outros animais, tornando-os ainda mais belos.

Os índios do Madeira, por serem as noites muito frias, mantinham o tempo todo um fogo perto de suas redes. Em viagem costumavam apoiar seus remos sobre os ombros e pendurar neles as suas redes – chamadas na língua da terra de kuçaba. As redes de pesca eram o puçá (pyçá). As redes em que as mulheres carregavam seus filhos eram chamadas de typoia. Pintavam suas panelas de barro com uma goma ou resina chamada háycica. No calafeto de seus barcos e de suas gamelas era usado breu – cycáta ou iraitúna.

Os indígenas, quando morria algum amigo, costu-mavam cortar os cabelos em sinal de pesar. Pintavam o corpo “principalmente com tinta extraída do jenipapo (de coloração negra) e do urucu (vermelha)”. Quando de suas “festas com danças, usavam pequenos aventais de penas coloridas. Nas festas, dançam e cantam ao som do tambor; isso dura toda a noite e eles esquecem o sono (Porro, 2011)”. Além do tambor, usavam os seguintes instrumentos de sopro: trombetas, apitos e berimbaus de boca.

Padre Eckart discorre sobre alguns animais comes-tíveis e os pratos preferidos dos indígenas. Eles comiam os peixes mais frescos e a melhor carne. “Nas aldeias costuma-se comer peixe à noite (…). Quando eles se animam a pescar ou caçar, “preparam tudo com a maior agilidade; carregam sempre consigo farinha, temperos que consistem em sal e pimenta, e acendedores de fogo, pela fricção de dois peque-nos paus de madeira dura (…)”. No Madeira, a espécie mais frequente de tartaruga é o tracajá. As tartarugas são tão grandes que muitas pessoas podem fartar-se com uma única apenas. Nas vizinhanças do Madeira realiza-se anualmente uma grande caça às tartarugas no mês de outubro, quando também é feita a manteiga de tartaruga (…). Por vezes, uma tartaruga põe cerca de 100 ovos, os quais são mexidos na caldeira sobre o fogo até que se desfaçam e se fluidifiquem como óleo”. Muitas vezes, “os pescadores traziam do Lago do Sampaio tartarugas de um tamanho muito grande que, de uma só, poder-se-ia preparar uma refeição farta para dez pessoas”. Esses quelônios propiciavam o preparo de vários tipos de refeição. “Sua carne é cozida, assada e frita. O assado feito no próprio casco é retalhado ao meio e uma das metades é cortada em pedaços pequenos como para pica-dinho; e a outra cozida (…)”. O jabuti, “que é uma tartaruga terrestre, não é tão grande quanto às anteriores [porém] possui um fígado muito grande, que preenche todo um prato grande e tem um sabor muito bom, comparável ao do fígado do porco (…). Da carne do camaleão, que é branca como a de vitela ou de um frango, se prepara um bom almoço (Porro, 2011)”.

O padre alemão prossegue: “A caça [principal] são os veados e porcos do mato (…). A espécie menor de porco do mato, chamada de caititu, fazia grande estrago nas roças onde se planta mandioca”. A carne de paca “tem um sabor muito bom”, igualmente à da cutia. Em Abacaxis “tínhamos uma, jovem [cutia], do mesmo tamanho de um cachorro, correndo dentro de casa”. Também há o jacu, “uma bela ave do tamanho de um galo, cuja carne é muito saborosa”. A carne do mutum, “uma ave que persegue peixes, frita, é muito boa”. O peixe-boi é um dos peixes mais preferidos, “tanto pelo tamanho quanto pela quantidade de carne (…). Do boi ele nada mais tem do que a semelhança da boca (…). A carne pode ser preparada como a do porco: assada, frita, defumada (…). Grelhado ou frito, cortado em pedaços, regado à manteiga, é guardado por muito tempo em grandes recipientes [podendo] ser transportado para a Europa”. O pi-rarucu, outro “peixe muito grande, (…) um alimento rústico, como o nosso bacalhau”. A piraíba é “também um peixe grande e de muito bom sabor (Porro, 2011)”.

Daniel (1976), mais explícito que Eckart, informa: “Todas as riquezas [dos índios] consistem em ter um pouco de farinha de pau, que é o seu pão ordinário (…). Um arco com as suas flechas, uma canoinha, que fazem de casca de alguma árvore, e um remo; ainda que esta não tem todos, contentando-se com uma pequena jangada feita de canas, com que atravessam os rios, e passam de uma para outras ilhas (…). Todos os seus móveis, trastes e instrumentos de casa se cifram em uma panela, uma cuia (…), uma maquira (…) tecida de palmas, ou cipó. Alguns tem seu machado de pedra (…), a sua faca de pau ou casco de tartaruga. Além destes (…) tem o seu cachimbo, para se regalarem com o paricá, em lugar do tabaco (…). Nas mulheres é a proporção o seu dote, e alfaias (…) uma cuia (…) de jequitaia, ou malagueta, que lhe serve de tempero em todos os seus guisados; uma pequena panela, um ralador (…) de mandioca (…) e um guturá, certo gênero de cestos (…) em que metem todo este enxoval, quando vão de casa mudada”.

Os índios “só exercitam a pescaria, o caçar, em que são insignes com as suas armas de arco e flecha; como também insignes nadadores”. Praticavam a agricultura de coivara que geralmente consistia em roçados de mandioca. Torravam farinha e faziam beijus. Sua mesa farta e variada se constituía de caças de carne, peixes e tartarugas. Ordi-nariamente comiam tudo assado. Cozinhavam seus mingaus em panelas de barro (igaçabas) e serviam as refeições ora em cuias, ora em folhas de árvores. Temperavam os seus alimentos com limão, tucupi, mangarataia e pimentas (de preferência da espécie malagueta).

Os indígenas não conseguiram disfarçar; foram real-mente competentes. A maior parte das normas gastronômi-cas ou dietéticas que vigoram até hoje, foram inventadas por eles. Além da salga, nos inventaram dois tipos de conservar peixe e carne: o moquém e a mixira. Da sua arte culinária herdamos, além dos tipos de farinha de mandioca d’água, seca e de tapioca, um número elevadíssimo de nutritivos e saborosos pratos, tais como: moqueca de peixe e carne (o assado na grelha); caldeirada de carne e de peixe; cozidão de miúdos de pirarucu; panelada (de vísceras ou miúdos de carne), maniçoba (dos grelos de mandioca misturados com carne ou peixe); farofa, guisado, picadinho e sarapatel de tartaruga; vinhos (refrescos) de abacaxi, açaí, bacaba, cacau, taperebá, limão, mangarataia, etc.. – destacando-se os rituais da feitura do aluá, do chocolate ‘caseiro’ e da mangaratiba, como sejam: 01 – o aluá era (ainda é!) a bebida feita de cascas do abacaxi, fermentada com açúcar, em potes de barro; 02 – o chocolate, produzido de amêndoas do cacau, que eram secadas ao sol, torradas em fogo brando e em seguida socadas em um pilão; a pasta daí proveniente era cozida e peneirada, e, pronto, estava feito o chocolate; e 03 – a mangaratiba, tipo de vinho rascante que resulta da fermentação do sumo da mangarataia.

Também foram criados pelos índios os mingaus de jurumum, cará, macaxeira, castanha, milho e os dos subprodutos de mandioca: crueira, chibé ou jacuba (pirão) e tacacá (o mais famoso); os bolos tipos beijus (beijuaçu, beijucica, membeca, tapioquinha), carimã e pés-de-moleque; os doces de fruta; e finalmente os temperos e molhos de peixe: arubé (resultante da mistura da massa de mandioca ao sal e à pimenta) e tucupi (mistura de manipueira com pimenta).

No início da colonização os índios foram flagrados adorando ídolos. Tais hábitos foram lentamente substituídos pelos ritos católicos. Aludindo ao fato, Daniel (1976) afirma que “ao que parece uns adoravam o sol, outros a lua e outros criaturas, ou seja, corpos mirrados dos seus progenitores, ou pedras de tal e tal figura”. Mas, “não têm sacerdotes dedicados a este culto (…) nem também templos consagrados às suas venerações, e oferecimento de sacrifícios (…). Têm, porém, alguns índios, aos quais muito respeitam, não porque os venerem por sacerdotes, e muito menos por deuses, mas porque cuidam que eles tem algum superior poder para os castigar e os maleciar”.

Aqui, o padre-cronista menciona os pajés. [Eles] se “Fingem de poderosos que podem alcançar coisas grandes e, quanto do sol, lua, dos astros e elementos; e que falam com o diabo (…). Há diversas castas de pajé: uns a que chamam pajé catu, pajé bom; outros pajé aiba, isto é, mal. O pajé catu não é tão ruim nem tão embusteiro, como o aiba; é o mesmo que um alveitar, médico das dúzias (…) curam estes as doenças, ou as empioram e agravam com seus remédios naturais ou fingidos (Daniel, 1976)”. Portadores de poderes ocultos ou orientadores espirituais, assim como os xamãs, os pajés poderiam assumir o papel de médicos, sacerdotes ou faziam o uso de plantas para fins medicinais ou invocações de entidades.

Portanto, conhecendo os meios de entrar em contato com os espíritos, os pajés se julgavam aptos a afastar ‘mal olhado’ e a mudar o destino das pessoas. Portadores do bem, se amigos dos deuses; portadores do mal, se adeptos do demônio. A propósito de ‘capeta’, na Costa da Conceição, acima da cidade de Itacoatiara, há um igarapé de nome Cainamã. É uma alusão a Cainamé, uma entidade fantástica ou espírito sobrenatural que, em tempos idos aparecia de noite para amedrontar os moradores do local. Essa estória remonta a séculos. Ainda hoje, quem passa por ali, à noite, sente medo. Parece um lugar de atuação de um pajé aiba, amigo do espírito das trevas.

Escrevi em 1999: “O sentimento religioso entre os índios amazônicos diferia muito da religião pregada pelos colonizadores europeus. Os jesuítas, primeiros professores na nova terra incorporada a Portugal, ao mesmo tempo que faziam o apostolado da fé cristã varrendo as crenças originais do espírito dos nativos, e, assim também, as suas formas de vida e de costumes, ensinavam-lhes as primeiras letras impondo-lhes a apropriação da língua portuguesa. Destarte, tornaram acessíveis aos índios os principais dogmas do Catolicismo, sem se preocupar com os rigores teológicos. O Deus dos cristãos tornou-se para os indígenas o Tupã; o satanás, o Satã. E deram-lhes uma trindade calcada na Trindade católica, composta pelo Sol (Uarici), pela Lua (Yaci) e por um deus de amor (Rudá ou Perulá).

A religião dos silvícolas evitava toda manifestação exterior e dispensava o culto externo. Era uma religião sem culto, desprovida de sacerdotes, privada de templos e de cerimônias. Era uma simples maneira de conceber as leis do universo. Esses homens de cultura superior, criados à sombra das matas virgens, sentiam-se principalmente maravilhados por dois fatos: o nascimento do homem e a produção da luz. Para eles, o nascimento dos filhos e o aparecimento da luz tinham uma causa: a mãe Natureza (Silva, 1999)”.

Como definido pelo barão Frederico José de Santa-Anna Nery (1848-1901) “A necessidade de conhecer o germe que engendra a Ciência do Bem e do Mal foi travada nos índios por um vago sentimento de terror. Abandonados a si mesmos no seio de imensas solidões, cercados de forças misteriosas que agem brutalmente por todos os lados, não compreendem o que há de escondido por trás desses fenômenos que têm a aparência de energia vital e voluntária.

Essas árvores que flutuam ao sabor dos ventos que bramam na tempestade, que se agitam com demência, espalham sobre a terra sombras gigantescas, terríveis co-mo a do Caapora, ou então pequenas e disformes como a do Curupira. Suas noites são atormentadas por visões. Suas fadigas e seus medos perpétuos, suas digestões pesadas, ressoam durante o sono. O pesadelo os enlaça e se transforma em gênio malfazejo que lhe apertam a garganta. É o Jurupari. Ao acordar, durante essas longas noites, um pássaro canta e lança na sua solidão um grito dilacerante e monótono. É o anão manco, Mati-Taperé, que, ainda hoje, amedronta as crianças da Amazônia.

Quando o índio põe fogo na floresta para estabelecer sua maloca, as aspirais de chama correm à sua frente; as cobras deitadas no mato áspero se torcem queimadas e procuram fugir. O índio vê nelas o Mboitatá, a cobra de fogo, que protege a floresta. Se ele se aproxima dos rios, durante as noites claras como o dia, ouve o murmúrio das águas desgastando as margens; são as Iaras enfeitiçadoras, que o atraem para matá-lo.

Essa grande criança, filho da Natureza, se amedronta por tudo. E, entretanto, é bravo contra seu semelhante. A morte, que inflige com tanta coragem, ele não a teme. Mas existe algo que o aterroriza mais que a morte: é o desconhecido, o espírito das coisas não visto, a conjuração misteriosa dos fantasmas com os quais a imaginação povoa os lugares solitários; é esse não-sei-quê de indefinido que se tem na alma, e que nos atormenta desde o berço. Foi talvez assim que o sentimento religioso se desenvolveu entre os indígenas. Ele flutuava ainda no vago de uma teodiceia inconsciente. O período da expressão piedosa ainda não tinha chegado para esses espíritos independentes e retardados. Aliás, a vida nômade [dos nativos] não favorece muito o estabelecimento de templos e altares (Nery, 1979)”.

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Seguindo a tendência de outros recantos do País, a formação do gentílico itacoatiarense resultou da mistura de indígenas, africanos e europeus. Povos do passado e do presente, migrados de várias partes do mundo e da maioria dos estados brasileiros, têm contribuído para reinventar a identidade da nossa gente. A posição estratégica da cidade é a causa-mor da afluência de ‘gente importada’, pessoas que vêm de todos os cantos, para passear, estudar, trabalhar, viver a vida; que mesclam o seu sangue com o de outras raças, pelo casamento ou pela união ocasional, produzindo uma nova cor, novas faces, outros biotipos – consequências que atribuem aos moradores de Itacoatiara a condição de povo misturado. Em todos os segmentos representativos da sociedade local – estudantil, docente, empresarial, político, etc., há descendentes de português, judeu, espanhol, sírio-libanês, italiano, etc., misturados com nacionais do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul.

O mais surpreendente é que a contribuição do índio nesse processo não decorreu de uma ou duas etnias, porém de cerca de duas dezenas delas. Um demonstrativo de que o caráter multiétnico da população de Itacoatiara vem desde os primeiros tempos, quando nem se falava em imigração. Segundo afirmou o missionário jesuíta Teotônio Barbosa, há mais de dois séculos: a antiga missão que deu origem a Itacoatiara era povoada de índios de várias etnias: “… a antigamente populosa aldeia de Abacaxis, cujos habitantes foram dizimados, abrigara mais de 23 outras nações”.

A catequese provocou grande movimentação nas populações indígenas, não só pelos descimentos concentrando num mesmo aldeamento indivíduos oriundos de grupos diversos, mas também porque muitos indígenas, abandonadas as missões, se reagruparam em locais diferentes das aldeias de origem. Com o aumento da imigração portuguesa, no iniciar do século XVIII, a população foi se amestiçando cada vez mais e daí se originou o caboclo.

O processo de ‘caboquização’ da Amazônia foi oficializado no governo do primeiro-ministro marquês de Pombal (1750-1777), através do Alvará régio de 04 de abril de 1755, o qual incentivava que os vassalos do rei de Portugal se casassem com mulheres indígenas.  Os primeiros exemplos dessa política ocorreram na região do Madeira. Reis (1989) escreve a respeito: “O problema do povoamento carecia ser enfrentado seriamente. As ordens da metrópole e do governador do Grão-Pará mostravam o interesse porque o encarava Portugal. [O governador da Capitania de São José do Rio Negro] Joaquim de Melo e Póvoas, procurando atacá-lo, de acordo com a legislação em vigor, que favorecia, cumulava de privilégios os brancos que casassem com índias, concitou os portugueses a realizarem essa união (…). Os primeiros casamentos do gênero realizaram-se na missão de Trocano, que deu origem à atual cidade de Borba, ainda ao tempo de Mendonça Furtado”. Nunca é demais lembrar que Trocano ficava um pouco abaixo de Abacaxis, atualmente Itacoatiara. 

‘Caboclo’ é um termo originário do tupi kari’boca (o procedente do branco). Para os dicionaristas, expressão utilizada para denotar uma relação amigável, de afeição para com a pessoa próxima de nós – meu caboclominha cabocla. O pejorativo “caboco” (de kaá-boc: aquele que vem do mato) é uma referência ao mestiço de índio, tipo de homem valente e bem disposto – “Caboco trabalhador e corajoso não se afasta do roçado”. No sentido figurado, os dois termos atinam para qualidade, modo de ser ou estado do mestiço de branco com índio. Atualmente, ainda que se refiram ao habitante da zona rural, ambos resultam em compreender todos os que constituem populações tradicionais, não indígenas.

Os mais apaixonados pelas coisas da terra consideram ‘caboclo da gema’ aquele que pesca o peixe, colhe a mandioca e faz a farinha e o tucupi. Na literatura do poeta e ensaísta itacoatiarense Élson Farias são empregados os dois termos e, amiúde, o feminino – “Como bocas das cabocas estendidas nos varais”. O poeta de Barreirinha Tiago de Melo gosta mais da forma caboclo. O ensaísta e dramaturgo manauense Márcio Souza adota caboco.

O caboclo de Itacoatiara é contraditoriamente bairrista e hospitaleiro. Possui hábitos simples e gestos altivos. Tende a ser pávulo, mas não gosta de aplaudir.

* Texto alusivo ao 3º Capitulo do Livro “Fundação de Itacoatiara”, que abre a trilogia ITACOATIARA 330 ANOS, lançado pelo autor, em Itacoatiara, no dia 18/09/2013.
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