Índios criam milícia uniformizada no Amazonas

0
28
*Lucas Vettorazzo

Em Tabatinga, na fronteira com Peru e Colômbia, ticunas decidiram se armar em razão do vácuo das autoridades. 

Preocupação maior é com a violência entre jovens e a entrada de álcool e drogas em suas terras demarcadas.

De quinta a domingo, quando cai a noite nos bairros de Umariaçu1 e 2, em Tabatinga (AM), eles saem de casa de camisa preta, calça, coturno, cassetetes, rádios e lanternas.

Cerca de 40 homens e mulheres adultos patrulham o bairro para coibir o consumo de drogas e crimes na região. Parecem uma força policial, mas são índios voluntários da etnia ticuna, uma das mais numerosas da Amazônia.

Tabatinga, cidade a 1.100 km de Manaus (AM) e que fica na tríplice fronteira de Brasil, Peru e Colômbia, abriga cerca de 8.500 ticunas em Umariaçu, onde as terras à beira do rio Solimões são demarcadas. Os índios, que vivem da agricultura de subsistência no local, viram aumentar a violência entre os jovens nos últimos anos.

O álcool, proibido por lei de ser vendido em terras indígenas, chegou à aldeia, assim como a maconha e a cocaína, trazidos por pessoas de fora, geralmente pequenos traficantes da FDN (Família do Norte), facção que controla o tráfico da droga que chega da Colômbia.

Há dez anos nasceu uma rixa ainda não explicada entre adolescentes de Umariaçu1 e 2. Os dois bairros são divididos na prática por um igarapé, que corre sob uma pequena ponte, onde os mais novos se encontram à noite para conversar e namorar.

As brigas ganharam contornos dramáticos quando índios de 12 a 14 anos passaram a utilizar terçados (faca longa de ponta curvada semelhante a uma peixeira), garrafas quebradas e pedras.

Segundo o cacique João Cruz, 70, ao menos nove jovens já morreram nas brigas da última década. O consumo de drogas ocorre em uma escola abandonada que fica exatamente ao lado de uma nova, construída há seis anos pelo governo do Amazonas.

A violência levou a aldeia a organizar sua própria força de segurança.

Apesar de estar próximo do centro de Tabatinga, Umariaçu é uma região isolada por conta do acesso precário pela estrada de terra.

A Polícia Militar diz não ter recursos para manter patrulhamento no bairro. Também alega que, por serem terras demarcadas, o trabalho deveria ser feito pela Polícia Federal, que por sua vez diz não ter entre suas atribuições o policiamento ostensivo.

O Ministério Público Federal entrou com ação contra o Estado do Amazonas e a União em 2015, instando-os a resolver a questão. Uma liminar, que não tem sido cumprida, determinou a presença da PM na região.

A ação foi motivada após uma força indígena semelhante em São Paulo de Olivença, cidade a 100 km de Tabatinga, ter sido acusada de matar um homem sob suspeita de feitiçaria em 2009. Ele foi encontrado queimado, com os braços amarrados e o corpo jogado em um rio. A partir de então as milícias indígenas deixaram de atuar.

TROPA

Os voluntários de Umariaçu se reúnem desde abril. As rondas vão de 18h à meia noite. A Folha esteve por duas vezes na comunidade, em setembro. Na primeira, acompanhou o Exército em uma ação social. Na segunda, o cacique recebeu a reportagem para apresentar seu grupo de voluntários. Dois taxistas se negaram a levar a equipe ao local temendo a violência.

Duas fileiras de homens e mulheres uniformizados aguardavam em formação, reagindo aos comandos de “direita volver” do cacique. O turno daquela noite reunia 22 homens, três mulheres e o “delegado”, indígena eleito para o comando da tropa.

A unidade estava postada em frente a um palco, onde ocorrem os festejos da comunidade. É também ali que dois pequenos cubículos foram transformados em celas. Acusados de crimes ou má conduta chegam a passar três noites na prisão.

O “delegado” Carlos Pinto, 62, diz que a cadeia já recebeu 22 índios. A detenção mais recente foi a de uma jovem acusada de consumo de drogas e baderna. Pinto disse que a prisão teve anuência do pai da moça e garantiu não haver excessos da tropa.

Quando não está no comando dos voluntários, ele trabalha em sua roça de abacaxi, banana e mandioca, como a maioria dos locais.

“Já pedimos para mandarem a PM para cá. Se a polícia vier, nós paramos com as rondas”, disse ele, que vestia uma camisa com a inscrição Segum (Segurança Comunitária do Umariaçu).

Enquanto a questão não é solucionada, as fileiras aumentam. Foi o medo da violência que levou Sônia Ramirez, 35, mãe de dois filhos pequenos, e Sara Raimundo Guilherme, 34, duas das três mulheres do grupo, a se juntarem aos voluntários.

INFLUÊNCIA DE FORA

O sentimento entre moradores era de apoio às rondas. Há certa perplexidade quanto aos motivos do aumento da violência, apesar de existirem pistas. Apenas 5% dos cerca de 8.500 moradores locais têm um emprego na cidade.

Os jovens estudam até o ensino médio e trabalham nas roças familiares. O acesso precário e o alto preço da gasolina reduzem o ganho dos agricultores e dificultam a vida de jovens que precisam ir à cidade prestar vestibular.

“Eles completam o ensino médio e não têm mais perspectiva”, disse José Mendes, 50, integrante da igreja evangélica Assembleia de Deus e ticuna nascido no bairro. “A influência de fora piora tudo”.

A influência que Mendes cita são pequenos infratores que vão às terras indígenas vender drogas e álcool. Ticunas são constantemente aliciados por traficantes para servirem de mula para atravessarem a fronteira. Ao menos três casas no bairro tinham muros pichados com a inscrição da Família do Norte.

O repórter LUCAS VETTORAZZO viajou a Tabatinga (AM) a convite do Exército.

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Poder A8, de 30/11/2017.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui