Todas as vezes que me punha em posição solene para cantar o Hino de Manaus, cheio de emoção, desde os tempos de grupo escolar e mais tarde no Instituto de Educação quando a sempre querida Cleomar Feitosa corrigia a postura, a dicção, a letra e a afinação, com seu habitual carinho e elegância no tratar e na voz, eu me perguntava, no silêncio de mim, como teria sido a primeira apresentação do hino.

Corri mundo procurando saber, e já havia até desistido dessa procura quando, em uma das muitas noites de incansável pesquisa, me deparei com notícia de jornal esclarecedora do fato. E fiquei ainda mais impressionado ao constatar, novamente, a importância que os antigos davam às coisas do espírito mesmo para pequenas festas e eventos sociais e políticos. De forma simples, diante de algumas poucas autoridades, inaugurando indispensável equipamento de serviço público para aquela época, na beira do rio, no bairro de São Raimundo Nonato, é que ele foi apresentado de maneira inaugural.

Era o ano de 1906 e pela primeira vez o violinista, maestro e importante compositor brasileiro, Nicolino Milano, viajava pelo Norte do país, chegando a Manaus. Integrava a Companhia “Silva Pinto” que tinha agenda marcada para o Teatro Amazonas com apresentação de “A Capital Federal” e “A ilha do Paraíso.” Demorando-se um pouco na capital amazonense acabou musicando alguns poemas de Thaumaturgo Vaz, entre eles a letra do hino manauense, realizando concerto no salão especial do Club Internacional, sendo notícia na imprensa, aplaudido e com méritos reconhecidos por uma elite que sabia o que queria.

Antes de ser apresentado solenemente no Teatro Amazonas o hino foi executado por três bandas de música do Regimento do Estado, em conjunto, no dia 13 de maio de 1906, na manhã daquele domingo, sob a regência do próprio Nicolino Milano, quando o coronel Adolpho Lisboa na qualidade de Superintendente Municipal (atual prefeito), resolveu inaugurar o prédio do matadouro.

Os preparativos foram grandes. Tratava-se de melhoramento urbano que serviria à higiene e saúde publica, e precisava ser festejado condignamente. Para tanto foram muitos os convidados, os quais tiveram de se deslocar para o cais do porto no qual três lanchas os aguardavam: “Valéria”, “Aranha” e “Acre”, para transportá-los ao outro lado da cidade, ainda recortada por igarapé salubre e com paisagem de impressionar. Tudo correu como planejado, diria mais tarde o organizador da festa, o próprio Th. Vaz.

O letrista, poeta de muitos versos (Th. Vaz), era dos mais conhecidos do povo de Manaus, fosse pelos seus poemas, pela função pública na Prefeitura, como pelas “peraltices” que costumava fazer com humor nem sempre dos mais elegantes, algumas delas usando pseudônimos como Ri-Panaço, J. Clementino, Patureba, Júlio Clemente, Bertoldinho, Cassildo Ribeiro e, Nicolau de Vareuska.

Depois daquele dia em todos os eventos oficiais e sociais o hino passou a ser executado sendo sempre bem acolhido por estudantes, autoridades, intelectuais, professores, músicos e artistas em geral.

A apresentação no Teatro Amazonas, em noite de gala, de forma sofisticada, mas bastante adequada para os programas da época, deu-se com o canto da artista Medina, peça seguida de aplausos da plateia, ocasião em que os autores foram homenageados no palco do Teatro. O maestro recebeu uma batuta de muirapinima incrustada a ouro, o poeta um anel de rubi com brilhantes e a cantora que apresentou o Hino, com brincos de pérolas e brilhantes. Era o luxo da época.

E hoje, quem sabe cantar o Hino de Manaus?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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