Governo de ferro

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“Foi de ferro e brasa, digno do apelido com o qual ficou consagrado, o curto e forte governo do marechal Floriano Peixoto, aquele mesmo que quando major serviu em Manaus depois da Guerra do Paraguai, comandando o batalhão local.

Foi um período duro, de lutas internas espalhadas por vários estados brasileiros, em que o Governo Federal se impunha pela força ditatorial do vice-presidente no exercício da presidência da República, pelas armas e-pelo fogo cerrado, por prisões, deportações, confinamentos, estado de sítio, enfim, tudo que fosse preciso para fazer valer a ordem, ou seja, a vontade presidencial cujo rigor, ao fim, serviu para consolidar o regime republicano.

No Amazonas não foi diferente. Havia luta intestina de grupos políticos que se dividiam entre Eduardo Ribeiro, Fileto Pires, Thaumaturgo de Azevedo, “Silvério Nery, Guerreiro Antony, Borges Machado, Jonathas Pedrosa, Sá Peixoto, Almino Afonso, Lima Bacury, Raymundo de Carvalho e outros. Também aqui, portanto, foi sentido o peso da mão de ferro de Floriano, em algumas ocasiões, especialmente no episódio de deposição de Thaumaturgo de Azevedo, em 1892.

A síntese bem apropriada que define esse período está na palavra de Leônidas e Sá em manuscrito que me caiu as mãos há muitos anos, em um daqueles acasos de buscas em sebos, quando ele afirmou que “o despotismo e o terror havia se espalhado por todos os ângulos do Brasil. Por toda a parte o marechal Floriano Peixoto

mandava enviados a fim de depor a força armada os governadores”. Somente no Ceará e no Amazonas o presidente autoritário encontrou resistência a suas ordens. As reações amazonenses foram em armas, em estratégia política e pela imprensa, dando voz aos correligionários do governador Thaumaturgo, e nem mesmo a ameaça de bombardeio de Manaus afastava os lega listas de sua posição intransigente contra os federais.

A discussão era sobre a autonomia dos Estados na escolha de seus governantes e a interferência do Governo Federal em destituí-los e fazer nomear quem fosse de seu interesse, ou estivesse ligado a grupos políticos e econômicos que sustentavam a República ou servissem aos interesses federais.

Se naqueles anos a questão era tomada pela via política, com eleições e nomeações de governadores, esse mesmo governo de ferro ainda se apresenta nos dias correntes – mesmo sem a força dos tempos florianistas -, mas atuando por via econômica, e, no caso amazonense, quando em vez, podando e repodando os direitos constitucionais de área de exceção da zona franca de Manaus que representa mais do que um instrumento de desenvolvimento – mas a própria salvação da lavoura -, como diziam os antigos, ou a nossa sobrevivência.

A mão de ferro de Floriano Peixoto que se estendeu sobre muitas regiões brasileiras durante algum tempo, mandou prender, defenestrar e isolar nos rincões da floresta, era a força do poder e o poder da força, posição que tem atravessado os anos em várias demonstrações, e agora mesmo nos impõe inseguranças e incertezas, sem o receio de deposição política franca e aberta como era antes, mas por caminhos obscuros que não se revelam de pronto, trilhados pelo poder do governo central mutilando os direitos constitucionais da zona franca e ferindo de morte a todos nós.

É o governo de ferro e brasa que ainda persiste nesse presidencialismo remendado.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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