Fundação de Itacoatiara

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OS ACONTECIMENTOS tratados neste livro têm como pano de fundo o período colonial – aquele em que a Amazônia esteve sob o domínio do Império Ultramarino Português. Começou com a chegada dos colonizadores, nas primeiras décadas do século XVII, e terminou no dia 16 de agosto de 1823, com a anexação da região ao Império do Brasil. Durante esta época, todo o território amazônico foi administrado pela Coroa portuguesa. Todavia, a colonização da chamada Amazônia Ocidental teve início na segunda metade do século. Malgrado o propósito da Coroa portuguesa de dominar plenamente e a qualquer custo o imenso espaço geográfico adequando aos interesses do mercantilismo europeu as atividades laborais da região, os colonos tinham medo da floresta e dos índios. Isso começou a mudar quando os jesuítas passaram a fundar missões no interior. No período imediatamente anterior à fundação do núcleo que originou Itacoatiara, à frente do Reino português estava dom Pedro II. Devido à instabilidade mental de seu irmão, dom Afonso VI, Pedro II vinha exercendo as funções de regente desde 1668. Com a morte do irmão, em 12 de setembro de 1683, assumiu o reinado que o comandou até o dia 09 de dezembro de 1706, quando faleceu. No comando da Igreja Católica estava o pontífice italiano Inocêncio XI (1611-1689) e, à frente da Cúria Generalícia da Ordem dos jesuítas, sediada em Roma – na função de Padre Geral – o sacerdote belga Carlos de Noielle. Berço da cidade de Itacoatiara, o Rio Madeira foi ‘descoberto’ pelo espanhol Francisco de Orellana no dia 10 de junho de 1542. O jesuíta dominicano frei Gaspar de Carvajal (1504-1584), escrivão da célebre viagem, escreve: “Não havíamos ainda andado quatro léguas quando vimos entrar pela mão direita um rio muito grande e poderoso, e por isso lhe pusemos o nome de Rio Grande”. Rio de planície que os índíos apelidaram de Caiari, traça a divisória entre Brasil e Bolívia. Sua extensão é de aproximadamente 3.315 km, dos quais cerca de 1.000 km só de vias navegáveis. Nasce no lado boliviano da Cordilheira dos Andes, desce em direção norte recebendo o Mamoré e o Guaporé tornando-se o Rio Madeira – nome conferido pelos colonizadores no início do século XVIII, em razão de que, no período chuvoso (anualmente de dezembro a maio), seu nível sobe e inunda grandes porções de floresta fazendo descer troncos e restos de madeira. A mais recente pesquisa o intitula de “o rio com mais peixes no planeta terra” com cerca de 800 espécies, 40 delas ainda desconhecidas pela Ciência. O Município de Itacoatiara e, quiçá, o Estado do Amazonas, muito deve ao mais importante afluente do Rio Amazonas – uma via estratégica e de integração nacional. Durante setenta e quatro anos e sete meses, de 1683 a 1758, o Madeira, seu afluente Mataurá e os subafluentes Canumã e Abacaxis banharam a missão itinerante que os jesuítas criaram em cooperação com os índios Iruri; deram sustança à etnicidade e alimentaram ao seu povo; selaram enfim o futuro promissor à futura cidade. Caminhos naturais que escarrancharam a criança Itacoatiara em cima de suas águas milagrosas, poderosas, vitais, maravilhosas.                                     Origem e fundação                               O REGIMENTO de 01 de abril de 1680, estabelecido graças aos esforços do jesuíta Antônio Vieira junto à Coroa portuguesa, proibiu a escravidão do índio mesmo que conquistado por resgate ou por “guerra justa”. E ordenou a criação dos aldeamentos que deveriam ser governados pelos párocos e pelos “principais” (tuxauas) dos silvícolas. À Lei acima mencionada, seguiu-se a de 07 de março de 1681 criando a Junta das Missões, incumbida de zelar pelo cumprimento dessa legislação. Ambas contribuíram para o desenvolvimento do projeto colonial sustentado no plano espiritual – salvação das almas; e no temporal – a expansão e conservação das conquistas portuguesas. No dia 02 de abril 1680 – imediatamente posterior à lei antiescravista de 01 de abril – o padre Antônio Vieira, através de uma carta enviada de Lisboa, lembrava ao então padre superior Pedro Luís Gonçalves sobre a imensa população de índios mansos encontrados no Madeira e especulava sobre a possibilidade de ali ser criado um estabelecimento jesuítico.Possibilidade que, três anos mais tarde, o missionário suíço Jódoco Perez iria três anos depois tornar realidade fundando o núcleo embrionário da cidade de Itacoatiara. Assim, o padre Vieira demonstrava grande apreço pela região. Sua carta, na verdade, alertava sobre o potencial do Madeira e quanto a sediar ali uma missão. Teorizando sobre a fundação do núcleo da então futura Itacoatiara, a missiva do famoso missionário, à certa altura, afirmava: “Acima [da ilha dos] Tupinambarana há um rio mui povoado de gente de língua geral, e [nele] se poderia fazer uma boa missão de residência (Azevedo, 2008)”. Outras ordens régias, complementares às de 01 e 02 de abril de 1680, “foram envidadas para a região, entre elas as que indicavam os jesuítas como preferenciais administradores dos índios já aldeados e exclusivos para as missões a serem criadas nos sertões (Mello, 2009)”. Ano de 1683. O superior Jódoco Perez, depois de uma viagem de mais de 1.500 km subindo o Amazonas, em serviço de catequese, ingressa no Madeira e funda, na foz do Rio Iruri, depois redenominado Mataurá, a missão dos índios Iruri. Antecedeu-o uma canoa de aviso, precursora de sua viagem. Afluente da margem direita do médio Madeira, o Mataurá fica entre os rios Manicoré e Mariepáua. O padre superior partira de Belém provavelmente em 09 de junho e alcançou a boca do Madeira a 28 de agosto; seguramente chegou a Mataurá no dia 07 de setembro – noventa dias, ao todo, confirmando o que escrevera a respeito Bettendorff (1990): “Para fazer nova missão na aldeia [dos índios] Iruri gastaram [-se] três meses de viagem sem perigo”. A comitiva seguiu numa canoa grande com tolda feita de tábuas na popa. Compunha-se do padre superior, do irmão Antônio Ribeiro, dois ou três serviçais e cerca de oito índios remeiros. Antes de alcançar seu objetivo parou em diversas aldeias. Às vezes dormiam nas canoas sobre o rio; outras vezes procuravam lugares para pousar isentos de banzeiros. A maioria das paradas era para consertar a canoa, descansar, dizer missa e se municiar de víveres. Além dos mantimentos de bordo, eles traziam vinho para as missas e necessidade de alguns meses, paramentos, hostiário, imagens, velas, louças e toda a “matalotagem que convém fazer-se a quem vai visitar tantas e tão prolongadas missões, nas quais forçosamente deve gastar um superior com os índios e, sobretudo, com os principais: aguardentes, tabacos, anzóis, agulhas [de fiar rede de pesca], verônicas e coisas desse gênero”. Após o desembarque houve a costumeira troca de presentes intermediada pelo irmão Antônio Ribeiro. Companheiro de Jódoco Perez, durante todo o seu superiorado, o leigo Ribeiro era conhecedor da língua geral e tratava bem com os índios. Supondo-se que já anoitecia, só na manhã do dia seguinte – 08 de setembro de 1683 – foi celebrada missa e, perante toda a gentilidade, fundado o núcleo embrionário da futura Itacoatiara. Antes de ir ter à região, padre Perez analisou mapas, fez consultas e anotações. Bettendorff (1990) preleciona: “O padre Jódoco (…) tinha ouvido coisas grandes do rio da Madeira, foi o primeiro superior da Missão que entrou por ele…”. Leite (1943) complementa: “[A viagem] não exclui entradas anteriores de outros padres, que não fossem superiores da Missão”. Exemplos: em 1669 o padre João Filipe Bettendorff, acompanhado do padre Pedro Luís Gonçalves, esteve no baixo Rio Madeira visitando a missão dos índios Tupinambarana, e comentou naquele momento: “Não fomos mais para riba por que só os padres que iam com as tropas chegavam para mais longe”. Conforme referido em linhas atrás, também transitaram por lá, em 1672, Manuel Pires e João Maria Gorzoni. Reportando ao mito da criação, à organização social e aos padrões de assentamento dos índios Iruri – primeiros habitantes de Itacoatiara, Bettendorff (1990) os define como “nação afamada sobre todas as mais… índios de paz” e de linhagem ‘nobre’; tinham vassalos em seu próprio território. Grupos de língua isolada, dóceis, coletores e ao mesmo tempo agricultores, eram peritos nas artes de torrar farinha e conservar peixes. Dirigidos pelo tuxaua Mamorini, eram os Iruri “repartidos em cinco aldeias, cada uma delas com seu Principal”. Corria lenda que procediam de uma mulher que veio prenhe do céu e pariu cinco filhos: Iruri, Aripuanã, Onicoré, Torori e Paranapixana, que originaram as respectivas tribos. Depois, surpreendida por seus filhos comendo peixe moqueado, essa mulher ficou tão envergonhada que resolveu voltar para o céu. Daí em diante, os índios Iruri não mais comeram peixe assado no moquém.   Honra ao valente tuxaua  MAMORINI: o mais importante morador do núcleo que originou Itacoatiara. O poderoso tuxaua dos Iruri, povo indígena hoje extinto que habitava a região situada nas margens do Rio Mataurá, afluente da margem direita do médio Rio Madeira. Seu nome traduzia respeito, resistência e imortalidade. Lembra a mamorana-grande, árvore bombacácea originária da Amazônia, irmã da sumaumeira, “a mãe de todas as árvores” e a mais alta, de tronco imenso, de raízes tabulares, folhas com cinco a sete folíolos oblongos, e flores alvas, vistosas e fasciculadas – verdadeiro templo da natureza. Suas imensas raízes de sustentação, chamadas sapopemas, ao simples baque de pau, emitem um som grave que ressoa a longas distâncias. Por isso, os Iruri (e outros povos indígenas) tornaram esse fato natural um meio de comunicação rudimentar, uma espécie de “telefone da floresta”. Nas imensas terras de várzea do Madeira avultavam sumaumeiras. De seus troncos eram feitas jangadas para transportar pessoas, animais e víveres da tribo. Mamorini: grande líder e articulador cultural. Autoridade máxima e conselheiro. Organizava a caça e as atividades agrícolas, comandava guerras e resolvia os conflitos internos. Marcava festas e rituais, enfim, zelava pela ordem e harmonia na vida cotidiana da aldeia. Venceu várias guerras iniciadas pelos índios Maué, figadais inimigos de seu povo (Bettendorff, 1990; Leite, 1943; e Berredo, 1989). Os chefes de aldeia eram escolhidos por eleição, “de tal sorte que o mais capaz entre eles é o que sucede pela morte de seu Principal”. Praticavam a poliginia, simbolizando poder e forte prestígio social, hábito que se restringia apenas aos que detivessem posição de mando. Só os parentes “podem ter casa à parte, porque os vassalos moram em roças dos que os governam”. A casa dos festejos ficava em um terreiro amplo, frontal à casa do tuxaua, onde os adultos se reuniam para tomar seu paricá e fazer suas danças e bebedices. Os atos fúnebres seguiam uma simbologia: os corpos de seus líderes eram enterrados dentro de uns paus furados “juntos com sua manceba mais querida e o seu mais mimoso rapaz”. Para o restante da tribo o sepultamento consistia em envolver os corpos em caixões ou troncos ocos e enterrá-los dentro de suas casas – costume que se confrontava com a doutrina católica. Os Iruri abominavam carne de peixe-boi, piraíba e porco-do-mato; de preferência comiam carnes de cotia e paca, tambaqui e pássaros. Suas mulheres viviam recolhidas em casa e lhes era vedado fazer ou receber visitas. “Nem com os [próprios] parentes podem falar sem grande cautela (Leite, 1943)”. Excelentes artesões fabricavam instrumentos musicais de sopro e báculos de guerreiro, tanto para uso próprio como para vender a terceiros. Plantavam mandioca, cheiravam o paricá e do cacau faziam o cacauarí – bebida fermentada ainda hoje de larga aceitação. Não faziam grande caso das armas e ferramentas de origem portuguesa, porque lhes vinham outras melhores do Rio Negro. Porro (1992) explica que em fins do século XVII um circuito de comércio “fazia chegar [ao Madeira], através do Japurá, Negro e Branco, armas e ferramentas que os holandeses da Guiana forneciam em troca de escravos”. A participação de holandeses no tráfico de índios no médio Amazonas preocupava os dirigentes coloniais. Nos séculos XVII e XVIII, a faixa esquerda do Rio Amazonas transformou-se num espaço de captura de índios para serem vendidos dentro e fora das Guianas por traficantes oriundos de Caiena. Segundo Berredo (1989), o Urubu era utilizado como rota para essa ilícita transação – por ele havia perfeita comunicação “com os holandeses do Suriname”. Voltando aos índios Iruri… Nas últimas décadas do século XVII, a região em que essa tribo se movimentava compunha uma comprida faixa de terra com cerca de 330 km de extensão e uns 15 km de largura, margeando o Rio Madeira, desde o entorno do seu afluente Manicoré, ao sul, à ponta inferior da Ilha Tupinambarana, ao norte – perfazendo uma área de aproximadamente 5.000 k2. Como acima mencionado, os contatos da equipe do padre Perez pró-conversão dos Iruri foram feitos em língua geral, com presentes e mensagens de paz. Depois de uns 15 dias missionando entre eles, o superior dos jesuítas baixou levando um filho do tuxaua Mamorini, que no Colégio de Santo Alexandre aprenderia português e nheengatu, e mais tarde retornaria aos seus parentes como um intermediário nas negociações com os missionários. Mas antes de partir, comprometeu-se com os índios em mandar um padre para os assistir na nova povoação. Sobre o assunto Leite (1943) disserta: “Jódoco Perez deixou bem dispostos os Iruri, e baixou com um filho do principal, que no Colégio do Pará, aprendeu além do português a língua tupi”. A cooptação do jovem Iruri, fazendo-o assimilar a cultura e o pensamento do colonizador, e a promessa de que outros padres retornariam à região para dar seguimento ao trabalho ‘civilizador’, seriam fundamentais à sobrevivência da nova missão. Provavam que a ordem para a criação da futura Itacoatiara emanara diretamente da sede da Coroa portuguesa. Glória ao fundador  JÓDOCO PEREZ ou Jodocus Perret nasceu em 20 de fevereiro de 1633 em Friburgo, na Suiça. Filho de Jost Perret e de Elisabeth Lenzburger Perret estudou no colégio dos jesuítas de sua terra natal em 1644-1653. Ingressou na Companhia de Jesus na cidade de Landsberg em 15 de outubro de 1653 onde concluiu o noviciado em 15 de outubro de 1655. Fez o Curso de Filosofia em Ingolstadt no período 1656-1658. Professor do ensino médio entre 1658 e 1661. Ordenado padre em Eichstätt aos 19 de junho de 1666, pelo bispo Ludwig Wilhelm Benz. Docente de Lógica no Colégio de Munique em 1667-1668 e de Filosofia na Universidade de Dillingen de 1669 até 1671. Em seguida, foi enviado para a Galiza e de lá para Lisboa, de onde foi para o Estado do Brasil. De Salvador/BA veio em 1678 para o Maranhão e em seguida para o Pará. Entre 1678 e 1681 pregou e missionou em diversas aldeias da Amazônia. Em 1679 propôs a fundação em Belém de um seminário para meninos indígenas, a fim de criar um noviciado próprio da Missão, independente do Estado do Brasil e de Portugal. De 1682 a 1683 foi reitor do Colégio de Santo Alexandre, em Belém. Expulso da região, em 1684, pelos amotinados de São Luís, o barco em que ele e seus companheiros iam deportados, foi atacado por piratas estrangeiros, e foram duramente torturados. Jódoco Perez exerceu o cargo de padre superior entre 1683 e 1690. Viajou para Lisboa em 17 de janeiro de 1685, a fim de expor a expulsão dos jesuítas, e de lá retornou em maio de 1687. Antes de findar o seu mandato, em 1690, baixou “Diretório (normas) para os padres que hão de ir às tropas de resgate” orientando-os no “acompanhamento de soldados que buscavam os Iruri no interior da região do Madeira”. De 1690 até 1697 foi docente no Colégio de Santo Alexandre. Aposentado por idade em 1697, a partir daí passou a confessor no Colégio. Por haver protestado contra a prisão do bispo do Estado do Maranhão e Grão-Pará, dom frei Timóteo do Sacramento, à ordem do ouvidor-geral Matheus Dias da Costa, em 1698, sofreu ameaça de processo “por inconfidência”. Graças à intervenção do então padre superior José Ferreira, foi poupado desse constrangimento. Jódoco Perez faleceu em 22 de maio de 1707 em Belém (Berredo, 1989; Bettendorff, 1990; Leite, 1943; e Azevedo, 2008). De volta do Madeira, Jódoco Perez alcançou Belém no final de outubro de 1683. Alertado sobre o estado de intranquilidade por que passava o Estado, naquele momento, gerado da insatisfação dos moradores de São Luís em relação à chamada Lei do Escambo, em carta de 27 de dezembro que endereçou ao Padre Geral, em Roma, expôs a situação e sugeriu medidas para resguardar o futuro da Missão. O motim do Escambo, ou a revolta de Beckman, precipitaria a segunda expulsão dos jesuítas da Amazônia. A insurreição estourou no dia 24 de fevereiro de 1684. O padre superior voltava a São Luís, acompanhado do missionário Aluísio Conrado Pfeil (1638-1701), e foi detido com o mesmo no dia 28. Ao todo, 26 padres e irmãos coadjutores foram presos e deportados a 26 de março. Da cidade de São Luís os jesuítas foram removidos em dois navios para Pernambuco. O maior deles levando 16 pessoas, inclusive João Filipe Bettendorff, que chegou sem contratempo ao Recife e partiu logo para Salvador. Após contatar com o governador-geral do Brasil e os dirigentes da Ordem, Bettendorff foi investido no cargo de procurador-geral das missões. De lá, dirigiu-se a Lisboa, aonde chegou em 28 de outubro de 1684 e permaneceu até maio de 1688. O barco menor, que conduziu Jódoco Perez e outros nove jesuítas, ao se aproximar da costa cearense caiu em mãos de piratas estrangeiros, sendo todos eles assaltados e torturados. Abandonados em uma ilha próxima ao litoral, de lá foram transportados à Tapuitapera, atual Alcântara/MA, donde, a 18 de junho de 1684, o padre superior deu ciência do acontecido ao Padre Geral Carlos de Noielle. Padre Perez embarcou para Lisboa, em 17 de janeiro de 1685, com o fim de expor a expulsão dos jesuítas, e lá encontrou o padre João Bettendorff. Na Corte, presenteou dom Pedro II com uma cópia do mapa do Rio Amazonas, desenhado por Aluísio Conrado Pfeil. Chegou a sustentar a ideia de abandonar as missões na região, porém, convencido por Bettendorff, teve que retroceder. Fez sugestão de elevar a Missão regional a Vice-Província, “desde que separada da Província do Brasil”, e encaminhou “planos para melhorar a administração missionária”. Pediu “substituto para si, mas foi confirmado” no posto de padre superior (Meier, 2005). Assim que a Coroa portuguesa foi informada da rebelião, tomou drásticas providências. Em 1685 seus líderes foram presos, levados a julgamento e condenados com a pena máxima do enforcamento ou com a extradição. Ato contínuo, a maioria dos religiosos jesuítas foi restituída aos seus postos na região amazônica. Enquanto Bettendorff ficou na Corte tratando dos assuntos das missões do Maranhão e Grão-Pará, Jódoco Perez foi mandado para Coimbra e Évora, com o objetivo de recrutarmissionários. Em maio de 1687 retornou em companhia do governador Arthur de Sá e Menezes, o qual trazia recomendações de Lisboa no sentido de apoiar o trabalho missionário e, seguindo a diretriz do Regimento das Missões, criado em 21 de dezembro de 1686, “ajudar a nova missão do Madeira (…) e não só conservar, mas aumentar as missões” da calha do Amazonas. Considerada a obra prima das leis do período, propunha a consolidação do poder político dos jesuítas na região. Conquanto a Coroa lusitana incentivasse promover o estabelecimento das missões e a “civilização dos índios”, o Regimento régio de 1686 consignava disciplinar o sistema de recrutamento da força de trabalho indígena, feito de duas formas distintas: o descimento de índios livres e o resgate de índios escravizados. No primeiro caso, os nativos eram persuadidos a descer pacificamente para os locais de domesticação, e de lá eram repartidos entre os moradores e o serviço da Coroa; no segundo, através da compra pelos portugueses dos índios feitos prisioneiros em guerra entre as nações indígenas. A desenfreada atuação dos agentes portugueses, nesse campo, resultou em inúmeros choques entre padres e sertanistas, além de que insuflou o ódio na indiada – como exemplificado em várias partes deste livro. Na prática, as missões iniciaram o confinamento de tribos inteiras em aldeamentos. Nelas, os indígenas não se tornavam escravos, mas eram obrigados a abandonar seu modo de vida tradicional, substituindo suas crenças e rituais pelas cerimônias e ritos católicos. Os índios ‘mansos’ eram os aliados dos portugueses, tidos como vassalos do rei. Os índios ‘bravos’ eram os inimigos, considerados estrangeiros justificando as “guerras justas”. Em março de 1688 foram amiudadas as entradas nos sertões amazonenses. Nesse ano, a instâncias da Junta das Missões e com licença do padre superior Jódoco Perez, o padre mercedário frei Teodósio da Veiga foi confirmado gestor da aldeia de Saracá. Por igual, de Belém veio ordem para que o padre jesuíta Antônio da Fonseca fosse assumir a missão de Tupinambarana; assim que chegou ali, transferiu-a mais para cima, “à beira de um belo e espaçoso lago”, entre os rios Andirá e Maués, onde permaneceria cerca de nove anos. No fim do mesmo ano, o capitão-mor André Pinheiro de Lacerda, à frente de uma tropa de resgate, descobriu ouro no Urubu e prata no Rio Uatumã. Levou consigo o padre João Maria Gorzoni que estacionou na missão de Saracá, donde orientava o descimento de índios dos rios Urubu e Negro para o baixo Amazonas. Decorreriam mais de cinco anos entre a visita do padre Jódoco Perez aos Iruri e a chegada dos dois padres destacados para reativar a missão. A revolta de Beckman e a consequente expulsão dos jesuítas, em 1684, atrasaram o processo desenvolvimentista da região. A falta de religiosos resultou na inatividade e quase extinção da aldeia. À época, a livre circulação de exploradores, militares e negociantes havia crescido no Madeira. De outro lado, os índios Maué, dados ao hábito da antropofagia e acostumados às guerras intertribais ou contra os colonos, tinham aversão aos Iruri e pelo menos duas vezes guerrearam contra eles. Procediam da região dos rios Urupadi, Mariacoã e Andirá, no baixo Rio Madeira, próximo da divisa do Amazonas com o Pará, onde se colhia guaraná, uma novidade agrícola, cujos frutos depois de colhidos, triturados, torrados e compactados na forma de bastões, são transformados em pó para consumo em bebidas ou alimentos. Para reativar a missão, os jesuítas João Ângelo Bonomi e José Barreiros partiram de Belém no final de 1688. Levando de volta o filho do tuxaua Mamorini, já batizado e conhecedor da língua geral, tomaram o rumo de Mataurá, aonde chegaram possivelmente no dia 15 de março de 1689. Espantaram-se ao encontrar colonos de Belém explorando livremente o cacau e outros produtos silvestres. (Durante a administração jesuítica chegou-se a embarcar anualmente para Portugal 80 mil arrobas – 1.200 toneladas – de cacau, fora o que se consumiu em toda a região e o que se perdeu na floresta amazônica). Surpresa maior os aguardava. Logo à entrada do Mataurá, distante dois dias da aldeia, toparam com o chefe Mamorini “que vinha em uma canoa grande remada por quantidade de mulheres, trazendo um só índio criado seu consigo”, que se negou a recebê-los. Desconfiado, o tuxaua dos Iruri ia fugindo dos padres. Intrigados pelos colonos, os silvícolas dissimulavam má intenção nos missionários, os quais – segundo aqueles disseram – “vinham [para] tirar-lhes as mulheres, os filhos e as filhas, e que os haviam de açoitar e maltratar (Bettendorff, 1990)”. Maldade. Pura falácia. Só depois de muita conversa, e dissipados os enganos, padres e índios fizeram as pazes prometendo caminhar juntos. Cumpria-se, ali, a tática dos colonizadores: conquistar a qualquer custo o chefe da aldeia, colocando-o ao serviço das causas da Coroa. Ganhava-se o tuxaua ao Rei por via religiosa. Mamorini enviou mensagens “a todas as aldeias pertencentes aos Iruri para que viessem visitar” João Ângelo Bonomi e José Barreiros. “Vieram eles com seus costumados presentes”, e os padres convidados a uma reunião para explicar suas intenções, vale dizer, os objetivos da catequese, participaram de uma cerimônia solene e cheia de formalidades, sendo de destacar o papel nela desempenhado por Mamorini. “Entraram [os índios] todos em procissão (…). [Mas, antes], Passou toda essa procissão pela porta de residência dos padres e não obstante estarem lá eles e o [líder Iruri]” que lhes explicava “os passos daquela entrada e os nomes dos principais (…) e assim foram à Casa do Paricá (…). À frente da procissão o chefe Paranapixana (…) levava adiante de si grande número de pajens, também o seguia em ordem uma grande multidão de vassalos. Depois, foi servido jantar, e jantaram alegremente todos, porém sem vinhaça alguma (Bettendorff, 1990)”. Tais fatos confirmam “as notícias sobre linhagens com status diferenciado entre os Iruri”, a que se refere Porro (1992). Os Iruri foram os primeiros indígenas do Amazonas a abraçar a fé romana, seguidos dos Onicoré e Arara. Padres Bonomi e Barreiros assistiram os Iruri perto de um ano, “ensinando a todos os mistérios da fé [católica], acudindo aos adultos com o batismo na hora da morte, e batizando os meninos em tempo mais conveniente (Bettendorff, 1990)”. Fundaram casa paroquial e uma igreja. Além da aldeia Iruri, e “dalgumas aldeotas”, havia mais quatro grandes que o padre João Ângelo Bonomi desceu para mais perto do Rio Madeira: a dos Aripuanã, que ficava acima do Mataurá; e as dos Paranapixana, Onicoré e Torori, abaixo. Segundo Leite (1943) eram cinco [aldeias], que “continham mais de vinte, porquanto cada roça daqueles principais era uma boa aldeia de vassalos”. Ao todo, formavam “a grande nação Iruri”. Obviamente, o fim último da vinda dos jesuítas era a conversão dos índios à fé católica. Os nativos não eram um povo sem cultura e, por isso, não aceitavam facilmente sua conversão. Na chegada dos padres os Iruri os trataram como pajé todo poderoso que lhes proporcionaria o bem estar, porém, ao invés disso, os missionários só lhes ofereciam a salvação extraterrena. Tudo seria mais fácil se não existissem colonos. Destarte, os momentos de encontro com os nativos foram marcados por um choque de culturas, que acarretará violência e consequentemente a mudança na situação vigente na floresta. Daí que a conversão dos índios se daria ora pela persuasão, ora pela subjugação física. Os jesuítas buscavam ampará-los e frear os abusos dos colonos; contudo, tinham contra si os limites políticos da Coroa. Em fevereiro de 1690, João Ângelo Bonomi e José Barreiros adoeceram e se obrigaram a descer para Belém. Período que coincidiu com a mudança no superiorado dos jesuítas: o Padre Geral Tirso Gonçalves (c.1643-1705), espanhol, mandou nomear pela segunda vez ao padre João Filipe Bettendorff em lugar do padre Jódoco Perez. Restabelecidos,Barreiros seguiu para missionar em Gurupatiba (Monte Alegre/PA), e João Ângelo Bonomi no início de 1691 retomou suas atividades na missão de Mataurá, onde foi recebido “como um anjo vindo do céu”. Mandou proibir as incursões dos tropeiros pela missão e continuou as construções no interior da aldeia. Na segunda metade de 1691 a tropa de resgate do capitão-mor João de Seixas chegou ao Rio Madeira. Ia por missionário o padre Manoel Borba (c.1657-1691), que tinha por companheiro o padre Francisco Soares. Foram à missão dos Iruri, “onde estava o padre João Ângelo Bonomi, que não queria se fizessem escravos em seu distrito sem ele ser sabedor, e assim se cumpriu”. Adoecendo, o padre Manoel Borba às pressas voltou para Belém, e lá faleceu. O trabalho da referida tropa teve pouco proveito, porque o capitão João de Seixas, em seguida ao padre Borba, também adoeceu e morreu. Enquanto doutrinava e distribuía os sacramentos, João Ângelo Bonomi caiu de novo doente e mais uma vez teve de se retirar para Belém – isso em julho de 1691. Não voltaria mais aos Iruri; depois de recuperado, foi “mandado para a missão da Capitania do Cametá (Bettendorff, 1990)”. Padre Bonomi, a despeito de entregar-se totalmente às ocupações catequéticas, de doar-se ao serviço de Deus, não estava contente. “Na sua ausência – diz Leite (1943) – foram os brancos e cativaram grande número de índios com grande escândalo dos mesmos índios, e protesto dos padres; não poderão pensar os índios que eles os tinham ajuntado para serem mais facilmente cativos? Disto se queixaram efetivamente os índios; e os padres ainda mais que eles. E, assim, os jesuítas, desgostosos, e também por falta de missionários, se escusaram da missão do (…) Rio Madeira…”.    A missão itinerante  A RETIRADA dos jesuítas da missão dos Iruri não agradou ao rei de Portugal nem ao Padre Geral. Da coisa resultaram muitas desculpas e explicações. Reconhecendo-se que o Mataurá não era propício para residência, resolveu-se transferi-la para outro local, ainda que na mesma região. A ameaça de despovoamento e a sensação de insegurança precipitaram o processo de transladação. Como dito antes, os jesuítas haviam registrado uma grande movimentação dos colonos na captura de índios mansos ali aldeados. As canoas que iam ao sertão em busca de cacau, cravo e outros produtos da floresta voltavam conduzindo escravos, além dos frutos para a exportação. Também, os Iruri temiam a repetição dos ataques dos Maué, seus figadais inimigos. Segundo a crônica setecentista, estes eram muito vingativos. Costumavam defumar e mumificar o cadáver de seus pares. Comiam “carne humana e gostam sumamente das inimigas, principalmente da [carne] das mulheres, por isso andam continuamente à caça delas, e achando-as, as trespassam com umas lanças que chamam zagaias”. Depois de quebrarem o espinhaço dos corpos de suas vítimas, repartindo-os em quartos, deixavam “a zagaia com suas penas no lugar da matança, como pagamento de sua presa”. Em casa “comiam uma parte, e a outra [distribuíam] a seu Principal e mais parentes que por aí se acham (Bettendorff, 1990)”. Diminuída a resistência do grupo e os Iruri, intimidados, demonstravam pouco interesse em ficar ali. Desde a investida dos colonizadores pouco restara da populosa aldeia de anos atrás. “Os índios, intimidados pela voracida-de dos brancos, escondiam-se nos altos rios, no centro da floresta (Reis, 1989)”. Os incidentes arriscados e repetitivos motivaram os moradores a deslocar a missão para um sítio da margem direita do Canumã, perto da confluência deste com o Paraná do Urariá, e a uns 280 km do pouso original. Efetivada a mudança, em agosto de 1691, Canumã passou a concentrar a atividade dos missionários jesuítas em estreita ligação com a missão de Tupinambarana. O Canumã integrava uma área de elevada drenagem em terras de floresta e várzea. O rio corre de sul para norte, com ligeira deflexão para oeste, e apresenta um curso de cerca de 600 km. Ladeado pelo Madeira, à esquerda, e o Abacaxis, à direita, em suas margens abundavam madeira, castanha e outras muitas variedades de ‘drogas do sertão’; em suma, toda a região expunha-se favorável à exploração e ao lucro dos portugueses. Três para quatro dias acima da nova sede jesuítica ficava Tupinambarana, encravada numa área cercada por índios das etnias Andirá, Curiató e Maué. As aparentes insegurança e vulnerabilidade do novo espaço geográfico incomodavam aos seus moradores. Paradoxalmente, a mudança desembocara nas proximidades do território dos Maué. Por sorte, nos anos seguintes, os belicosos inimigos dos habitantes de Canumã estariam muito acovardados e consumidos pelas guerras de retaliação dos colonizadores, como mostraremos mais à frente. Abrimos aqui um parêntesis para registrar que, em 1689, depois de abandonar sua base missionária no alto Rio Solimões, o padre jesuíta alemão Samuel Fritz (1654-1725), acometido de malária, desceu o Rio Amazonas à procura de tratamento. Navegou pelo furo Arauató, alcançou o Urubu e, no dia 30 de julho, foi recebido na missão de Saracá pelo padre mercedário frei Teodósio da Veiga e pelo jesuíta João Maria Gorzoni. Dias depois, com o estado de saúde agravado, foi encaminhado para Belém, sendo recepcionado pelo padre superior Jódoco Perez. Em 1691, escoltado de volta às suas missões, pleno de saúde, o padre Fritz desembarcou em Tupinambarana no dia 17 de agosto. Descansou alguns dias e retomou a subida pelo Amazonas. No dia 02 de setembro foi recebido pelo padre Teodósio nas cercanias do Paraná de Itapiranga; no dia 04 ultrapassou o Arauató, à direita, e o Rio Madeira, à esquerda; e no dia 06 deixou para trás o Rio Preto da Eva. O “Mapa Geográfico do Rio Amazonas”, elaborado pelo padre alemão, registra que a margem esquerda do Amazonas, no trecho Urubu-Uatumã, fora um local de predominância de índios Aroaqui; e a margem oposta, no baixo Rio Madeira, de Abacaxis, Andirá, Arara, Aripuanã, Curiató, Iruri e Papateruana.Mas, em 1691, segundo o próprio Fritz (1912), a realidade era outra: “… deixamos mais acima o rio Madeira e uma ilha grande antigamente povoada pelos Tupinambaranas [que] agora está povoada de uns gentios chamados Guaiarises” – referência aos Guaiazí descritos em 1639 por Acuña (1994), e em 1768, por Noronha (2006). Da foz do Tapajós à do Urubu, em quase 600 km de viagem, Samuel Fritz pôde constatar os efeitos das tropas de resgate, das epidemias e das fugas sobre as outrora “infinitas nações”: a paisagem era “sem povoado nem gente”.                               À falta de missionário em Canumã, entre agosto de 1691 e julho de 1696, o padre Antônio da Fonseca passou a gerir a missão cumulativamente com a de Tupinambarana. No ínterim, o interflúvio Madeira-Canumã-Abacaxis sofria seguidas investidas militares e comerciais visando à coleta das ‘drogas do sertão’ e ao apresamento da mão-de-obra indígena. Aprisionados e explorados como trabalhadores na agricultura, na coleta de frutos silvestres, no transporte de mercadorias e outros afazeres, por mais que resistissem os índios sempre saíam em desvantagem. No início de 1692, as tropas dos capitães-mores João de Moraes Lobo e Faustino Mendes chegam à região. Depois de fazer escravos mandam suas bandeiras pelos rios e terras circunvizinhos, para o mesmo fim. Em junho lá esteve o padre Antônio da Cunha, por ordem do missionário João Maria Gorzoni, que praticou os índios Abacaxis descendo vários deles para o Grão-Pará. Registra-se uma rápida retração dos Iruri como resultado do intenso contato com os brancos. Pouco tempo depois já não se falaria mais desse grupo como etnia. A carta régia de 29 de novembro de 1694, rerratificando a de 19 de março do ano anterior, espaçou os limites de atuação das ordens religiosas confirmando aos padres mercedários as missões dos rios Urubu e Anibá; aos carmelitas as do Rio Negro e Solimões; e aos jesuítas as da margem direita do Amazonas, no trecho entre o Tapajós e o Madeira, aí incluída a missão de Canumã. Em dezembro de 1692, os jesuítas Aluísio Conrado Pfeil e João Justo Luca haviam assumido as novas missões de Amatari e Rio Negro, criadas pouco antes. (Rio Negro, mais tarde nominado como Lugar da Barra, deu origem à capital do Amazonas). Aluísio Pfeil morou dois meses em Amatari. Adoecendo, primeiro foi atendido no Rio Negro e depois enviado para Belém, aonde chegou na primeira quinzena de abril de 1693. Com a repartição das aldeias promovida pelas leis de 1693 e 1694, Amatari e Rio Negro deixaram de pertencer aos jesuítas, passando a primeira à direção dos padres mercedários e a segunda à dos carmelitas. No início de 1693, para dar combate aos índios Maué, que hostilizavam os brancos residentes no baixo Rio Madeira, de Belém veio uma tropa de guerra sob o comando do capitão-mor Hilário de Souza Azevedo. “Não se lhes fez guerra justa, por que debandados os Maué, ante a notícia, mas foi feita a apreensão de [vários deles] que ficaram no lugar (Bettendorff, 1990)”. Os Maué, que antigamente eram muito belicosos e senhores de quase todo o rio, a partir dali maneiraram a atuação. O Rio Maués, nas primeiras décadas do século XVIII, era um dos locais mais trabalhados pelos jesuítas, não se tendo notícias sobre confrontos nessa área. Tais índios, na segunda metade do século, possuíam intenso comércio de drogas e de guaraná com os colonizadores. Nos últimos anos do século XVII, a atuação missionária foi ampliada com a chegada de novos sacerdotes à mesorregião do Madeira. Conforme referido anteriormente, os padres jesuítas empreenderam um trabalho sistemático de atração e descimento das tribos do interior, ora sozinhos ora em parceria com os agentes da Coroa – e assim colidiram com a política protecionista que o padre Antônio Vieira implantara há quarenta anos. A propósito, escrevi em 1999: “Na realidade, os modos de atuação dos padres no trato com os nativos, diferiam apenas quanto ao método: enquanto os colonos leigos recrutavam-nos à força através do resgate ou das guerras justas, os missionários o faziam pelos descimentos, forma menos traumática de aprisionamento. Grande parte dos padres jesuítas constituía uma categoria de colonos igualmente movida por interesses econômicos; ricos proprietários, disputando espaço com os colonos leigos, convertiam os indígenas ao catolicismo para que aceitassem brandamente trabalhar em suas casas comerciais e fazendas. É compreensível que tal ocorresse. A obra de catequese, orientada pela ‘teologia da dominação’, andava de mãos dadas com o governo colonialista português. Enquanto defensores dos silvícolas e, por causa disso, conflitando amiúde com os colonos leigos, os missionários pertenciam a esse mundo mercantil. Daí que, salvo algumas exceções, a vontade dos missionários, enquanto indivíduos, pendia para a defesa dos indígenas e dos pobres em geral, enquanto a estabilidade das ordens religiosas sugeria a aliança com o sistema dominante (Silva, 1999)”. Em 1695, uma epidemia de varíola que assolou todo o Maranhão e Grão-Pará vitimando milhares de pessoas, atingiu Canumã. Trazida pelos negros da África que chegavam ao Estado, a doença se espalhou rapidamente matando muitos indígenas. A povoação, debilitada pela doença e reduzida pela catequese, começou a sofrer incursões a partir da terra firme, sem poder oferecer resistência. Tais fatos resultaram na ”desativação da missão e no desmantelamento quase total da aldeia, haja vista que a maior parte de seus moradores, [no início de 1696] teve que fugir para o Rio Abacaxis, reduto dos índios dessa tribo (Silva, 2010)”. Era um “Bom sítio, aprazível, boas terras, bons ares, muita caça e peixe (Bettendorff, 1990)”. Tal e qual o Rio Canumã, o Abacaxis forma, com seus afluentes, uma área de elevada drenagem em terras alagáveis e de floresta. Limitado pelos rios Canumã, a oeste, e Apinquiribó, a leste, “corre primeiro para nornordeste, depois dobra para oés-sudoeste, numa distância considerável, passando então para noroeste e segue na mesma direção até desaguar no Paraná do Urariá, também chamado Tupinambarana (Bittencourt, 1985)”. Um só sacerdote não podia satisfazer a todos e em lugares tão distantes. O padre Antônio da Fonseca, há mais de oito anos missionando no largo estirão que abrangia os rios Andirá, Maués e Canumã, a partir de Tupinambarana, cansado e doente, já se preparava para retornar ao Grão-Pará. Enquanto isso, a população de Abacaxis clamava por um padre exclusivo, apelo que foi imediatamente atendido pelo superior José Ferreira: nomeou em maio de 1696 ao padre João da Silva para gerenciar a missão, o qual, tendo por companheiro o leigo Antônio Rodrigues, deixou a vice-reitoria do Colégio de Santo Alexandre, em Belém, e assumiu a missão de Abacaxis em 12 de setembro. Desde então, esse núcleo jesuítico só fez crescer passando a reunir contingentes étnicos os mais variados. Fontes setecentistas mencionam mais de uma dezena de grupos de índios como constituindo sua inicial população. No final do ano já “abrigava cerca de quinhentas pessoas, distribuídas por cinco grandes malocas rodeando uma assobradada casa paroquial e a igreja (Silva, 2010)”. Ao se aproximar o final de 1696 Abacaxis recebeu a visita do padre superior José Ferreira – depois de benzer a missão, passou sete dias batizando e pregando aos índios. Mandou desterrar o ‘principal’ Thomé e um ajudante, por viverem amasiados com suas cunhadas. “Aos indígenas era permitido se casar religiosamente com a mulher que tinham por verdadeira, a que chamavam xerimerico-atê. Se não a tivessem, casariam com a que elegessem a seu gosto. [Mas] era difícil conter os que se metiam pelo caminho das mancebias (Leite, 1943)”. Antes de voltar a Belém, – aonde chegou a 16 de janeiro do ano seguinte – o padre superior pôde testemunhar às desordens que no Rio Madeira faziam os colonos, ávidos por escravos e por colher cacau e cravo. Para a maior eficiência da catequese e da conversão dos índios, o padre José Ferreira recomendou ao missionário João da Silva o fiel cumprimento do regulamento da Ordem, e em especial: disseminação das missas aos domingos e dias santos de guarda; distribuição diária dos sacramentos; continuidade das lições de catecismo às crianças; abertura de uma escola “de ler, escrever e contar”; desenvolver entre os meninos o ensino das artes (música, teatro, pintura, carpintaria, escultura, etc.) e das técnicas agrícolas. O culto aos santos e em especial à Virgem Maria se revelaria forte em Abacaxis. Em toda a região, “As missões introduziram e fixaram para sempre o culto e amor à Eucaristia. Outro costume era o da prática cotidiana do Rosário, cantada a coros (Leite, 1943)”. Nas cerimônias volantes, a água para o batismo era recolhida em cuias. Mas, na aldeia, a pia batismal era feita de barro. As hóstias, de farinha de mandioca, eram feitas no próprio local. No Natal armava-se o Presépio. A imagem de Nossa Senhora, que se destacava no altar da pequena igreja de madeira e palha, foi mandada à restauração em Belém, pelo padre João da Silva, serviço provavelmente encomendado “ao entalhador Manuel João, responsável pela confecção de várias imagens em madeira expostas, à época, no altar-mor da igreja de São Francisco Xavier da capital paraense, e adjunta ao Colégio de Santo Alexandre (Leite, 1943)”. Coincidentemente, Jódoco Perez, ex-superior e já aposentado, ali atuava como confessor. No final do século XVII, a arte imaginária em Belém, a cargo dos jesuítas, funcionava timidamente num “cubículo situado no corredor desse Colégio” que servia “ao Irmão escultor e rapazes que aprendem (Leite, 1943)”. Na capital São Luís, a indústria de estátuas ou imagens de santos prosperava. Era sediada no Colégio de Nossa Senhora da Luz e atendia ao maior número de paróquias em todo o Estado do Maranhão e Grão-Pará. A bela, imponente imagem de Nossa Senhora do Rosário – que, a partir da instalação em 1759 da vila de Serpa, seria consagrada como padroeira do povo católico de Itacoatiara -, uma escultura em estilo barroco, datada do início da segunda metade do século XVIII, provavelmente é obra de santeiros maranhenses. No final de janeiro de 1697, o governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, à frente de uma armada de 60 navios, aportou em Abacaxis. Após alguns dias de descanso, seguiu para o Rio Negro onde visitou a fortaleza da Barra, recém-construída por Manoel da Mota Siqueira. Em junho o padre João da Silva caiu doente e foi convalescer em Tupinambarana, onde, em substituição ao missionário Antônio da Fonseca, desde dezembro do ano anterior já missionava o padre João Justo Luca. Seis meses depois, João da Silva voltou são e salvo, praticou os Arara e os desceu para Abacaxis. Cioso de suas responsabilida-des atritou algumas vezes com o tapanhuno José Lopes, que o capitão-mor paraense Hilário de Souza Azevedo mantinha na região como feitor de seus negócios traficando cacau, cravo e índios; e com outro escravo do capitão-mor Manoel Guedes Aranha, que ‘trabalhava’ no mesmo ramo. Em março de 1698 João da Silva foi removido para a aldeia de Araparipucú, no Grão-Pará, sendo substituído em Abacaxis pelo padre Antônio de Macedo. Abacaxis, no final do século XVII para começo do seguinte, já era considerada como “das melhores residências de todas as mais que têm os padres da Companhia de Jesus em todo o Estado”; uma aldeia grande, “em sítio farto e alegre”. A proximidade da boca do Madeira facilitando sua ligação com o mundo exterior, seu elevadíssimo contingente populacional e outras variáveis fizeram-na obnubilar à sua coirmã Tupinambarana. Os Abacaxis, como os Iruri, “não obstante terem sofrido o brutal avanço da sociedade colonial e suas demandas, não se furtavam do convívio estreito com os europeus. Ao invés de escolherem alternativas de fuga ou luta em armas, permaneceram no aldeamento jesuítico, cumprindo tarefas que lhes eram impostas pelos colonizadores (Porro, 2011)”. Atitude de quem se conformara com todas as situações. Talvez, pensaram: “Contra a força não há resistência. Por que resistir? Para que resistir?” Destarte, deixam-se cooptar. De vítimas, tornam-se cúmplices, e mantem um contínuo processo de atualização, como é evidente nos registros missionários que, junto a eles, estiveram. Na longa lista de etnônimos dos grupos habitantes do Madeira, feita em 1714 pelo jesuíta Bartolomeu Rodrigues (1674-1744), a tribo dos Abacaxis desponta como portadora dos maiores índices populacionais. Por outra parte, segundo apurado na primeira década e meia do século XVIII, na outra margem do Amazonas, isto é, nas imediações da atual Itacoatiara, ocorreram dois fatos que merecem ser memorados: (1) Em 1708, o capitão Pedro da Costa Rayol guerreou contra os índios do Uatumã e vingou a morte dos padres franciscanos da Piedade, Pedro de Évora e Antônio de Vila Viçosa. Nos idos 1705/1706 haviam fundado a missão de Santa Ana, mediante o ajuntamento dos índios Pareci, primos dos Aroaqui – ambos do grupo linguístico Arwak. Superada essa tragédia do Rio Uatumã, os padres da Ordem das Mercês assumiram o aldeamento. E os piedosos fundaram mais acima a missão dos índios Anibá, no rio do mesmo nome. Anos depois, ambas as missões foram incorporadas a Silves (Berredo, 1989; Leite, 1940, 1943 e 1989; e Ramos, 1952). (2) Em 1714, índios Aroaqui (também do grupo Arwak) habitantes de uma aldeia do Rio Urubu, “animados de um espírito de rebelião e a impulsos da sua natural inconstância na firmeza da sua fidelidade”, tiraram a vida ao missionário frei João das Neves (c.1637-1714), da Ordem das Mercês. Isso pode ter acontecido na aldeia de São Pedro Nolasco ou na de São Raimundo. Devido à dispersão dos silvícolas, ambas não prosperaram desaparecendo ao cabo de algum tempo (Sampaio, 1856; Loureiro, 1978; e Noronha, 2006). Voltemos ao Rio Madeira… O padre João da Silva pensou em mudar Abacaxis para outro sítio, e não disse as razões. O padre Domingos de Macedo, que o sucedeu em março de 1698, projetara “desdobrá-la em duas” – talvez devido ao desordenado crescimento que tivera. Ao tratar do assunto, Leite (1943) o faz de forma equivocada: “Realizou a mudança ou fez outra aldeia nova, o padre Francisco Xavier Molovetz, pois dele se diz que fundara a aldeia de São Francisco, e quando faleceu a 16 de janeiro de 1709, na aldeia de Canumã, se diz igualmente que a tenha fundado”. Na verdade, o padre Domingos de Macedo deixou Abacaxis em 1704 e foi substituído pelo padre alemão Molovetz que chegou à Amazônia em 1703 e faleceu prematuramente aos 37 anos, em 1709 – como já referido. Era titular de Tupinambarana e passou a acumular Abacaxis. À sua morte, o então padre superior João Carlos Orlandini, “pede missionário para substitui-lo e envia para suprir as despesas 100 arrobas de cravo [01,5 tonelada] e 400 de cacau [06 toneladas] (Bettendorff, 1990)”. Em 1712, com a entrada no Madeira do jesuíta frei João de Sampaio (1680-1743), a missão prosperou muito. Leite (1943) disserta: “Dotado de zelo construtivo, tornou-se tão notável o seu apostolado que de Roma o Padre Geral, Miguel Ângelo Tamburini (1648-1730), a 13 de julho de 1715, o louva em termos fora do comum”. Em Abacaxis gastou o melhor de sua vida: ergueu casa de sobrado e uma igreja em cujo redor havia grandes malocas morando em cada uma delas 100 pessoas. “Recolheu cacau para diversas obras do culto, ali e na igreja de Santo Alexandre do Pará, desceu índios, catequizou-os e foi o maior apóstolo do Rio Madeira”. No início, frei João de Sampaio militou entre o Canumã e Abacaxis. Por volta de 1715, subiu o Madeira e, entre sua primeira cachoeira e o Rio Jamari, fundou a aldeia de Santo Antônio. Por estar em um local muito distante e exposta aos ataques dos índios, Sampaio deixou-a, desceu o Rio Madeira e fundou a missão de Trocano (atual Borba), distante da de Abacaxis “só dois dias através da selva”. A carta do jesuíta Bartolomeu Rodrigues, remetida em 1714 ao seu colega Jacinto de Carvalho (1677-1744), onde consta a lista que acima mencionamos, a um só tempo, relata a situação demográfica da mesorregião do Madeira e faz a primeira menção aos índios Mura – então acantonados no Rio Ipitiá. Além destes, no trecho mais próximo de Abacaxis eram 27 nações. Somadas a outras 48 localizadas na área intermediária do Madeira-Tapajós, totalizavam 85 tribos indígenas. Das denominações relacionadas por Rodrigues na margem esquerda do Madeira, uma corresponde aos valentes Torá. Eram tantos os dessa etnia que lhes chamavam “o Formigueiro”. Procediam do Rio Maici – desde a foz do Machado até às cabeceiras do Marmelos – e do baixo Rio Jamari. Revoltados, tentaram impedir a invasão de seus domínios. Dilataram suas correrias até o curso do Rio Amazonas, onde iam assaltar canoas que andavam no tráfico do cacau. Em 1716 foram duramente reprimidos, chegando quase à extinção. Primeiramente foram perseguidos pelo capitão-mor João de Barros Guerra. Com a morte deste, sob um pau que caiu sobre a embarcação que o levava, em junho daquele ano, as diligências de guerra passaram ao comando do capitão de infantaria Diogo Pinto da Gaia, auxiliado pelo sargento-mor Francisco Fernandes. Berredo (1989): conta que, reduzidos, os “Torá pediram paz que lhes foi concedida com a condição de se descerem e agregarem à aldeia dos Abacaxis”, junto com contingentes de outros grupos linguísticos. Outra parte da tribo foi levada para um aldeamento na foz do Xingu, no Pará. Simultaneamente, grupos de Mundurucu procedentes do Tapajós se insurgem contra os colonos. Estes, reunidos em flotilha, sob o comando do tirânico Diogo Pinto da Gaia, enfrentam os silvícolas e os expulsam do Madeira. Todavia, nem bem se refizera dos ataques dos Torá e Mundurucu, a população ribeirinha do Madeira passou a ser incomodada pelos Mura. Provavelmente descendentes do Peru, vieram do Solimões e se introduziram na região através dos Autazes ocupando a enorme extensão medida do Rio Aripuanã ao Ji-paraná. Conhecidos na etnografia portuguesa como os “corsários do caminho fluvial”, eram experientes remadores e rápidos no manejo do arco e da flecha. Em 1715 iniciam os combates contra a frente de expansão portuguesa; depredam aldeias, apropriam-se de canoas, atacam viajantes e tomam-lhes os bens. Os moradores de Abacaxis, além de ocupados em suas roças de mandioca e milho, exerciam atividades de caça e pesca. Parte da farinha e dos beijus que produziam atendia às encomendas das tropas que iam ao sertão. Muitos deles trabalhavam na colheita e no beneficiamento de cacau, na salga e secagem de peixes, e como mateiros e remeiros de feitores e milícias armadas. Em 1720 recrudescem os ataques dos Mura. Frei João de Sampaio, que se revezava assistindo às missões de Santo Antônio das Cachoeiras e Abacaxis, consegue aproximação com uma maloca dessa tribo. Convencidos a abandonar a luta armada e vir morar na missão, pelo que seriam premiados com ferramentas, roupas e alimentos, os índios começaram a se preparar para a mudança. Então, apareceu um colono que, se dizendo emissário do padre Sampaio, embarcou vários deles num bergantim e os remeteu para Belém onde foram vendidos como escravos. Ao tomarem conhecimento da trama, os Mura retomaram sua luta contra os agentes portugueses redobrando suas correrias pelo interior. Descendo ao Abacaxis, saquearam casas e roçados no entorno da missão matando e/ou aprisionando vários de seus habitantes. A atividade extrativista portuguesa no Madeira, até 1723, era realizada sem estabelecimentos fixos. A viagem do sargento-mor do Grão-Pará Francisco de Melo Palheta às cabeceiras do rio, naquele ano, é a primeira tentativa oficial para um reconhecimento da área. A meta, além da exploração, era brecar as incursões espanholas na região próxima às minas de ouro de Mato Grosso. Os portugueses “cientes da existência dessa comunicação e dos perigos que poderia acarretar à soberania [de seu País], pelo alvará de 27 de outubro de 1733 [mandaram fechar] a navegação do Madeira (Reis, 1989)”. A expedição de Melo Palheta centralizou seus trabalhos em Santo Antônio das Cachoeiras, e contou com a colaboração do missionário João de Sampaio, à qual “acudiu com o necessário de canoas, ferramentas, aprestos e comestíveis”. O padre João de Sampaio e dois seculares “administravam a missão de Santo Antônio em uma casa entrincheirada de estacas, aterrorizados com os frequentes ataques dos Mura (Leite, 1943)”. Um decreto baixado em Roma pelo Padre Geral Miguel Ângelo Tamburini, em 15 de fevereiro de 1727, concedeu à Missão dos jesuítas da Amazônia o status de Vice-Província subordinada a Lisboa, sendo nomeado vice-provincial o padre Manuel de Brito; com sua morte súbita, assumiu o padre José de Mendonça. Desde 1686, inconformados com a submissão da Missão à Província do Brasil tornando difícil e demorada a trajetória do trabalho missionário, os jesuítas lutavam pela mudança, agora vitoriosa.  Em 1727, estavam em exercício na região amazônica 99 religiosos; as residências eram 27; e, inclusa a de Abacaxis, eram 12 as missões espalhadas pelo interior. Dois anos antes ela recebera a visita do missionário frei Diogo da Trindade, comendador da Ordem das Mercês no Pará, o qual discorreu sobre haver encontrado uma igreja bem organizada, “um templo dotado de quatro imagens grandes, douradas e estopadas, e com tal perfeição que as avaliaram lá em quatrocentos mil réis (Leite, 1943)”. Seguramente, uma delas retratava fielmente Nossa Senhora do Rosário. Em 1730 a povoação contava com 932 habitantes, figurando como “uma das mais populosas de todo o Estado, e se podia chamar uma cidade de gente: tinha muita casaria, feitas as suas moradias ao modo do mato, muito grandes, e casa destas tinha para cima de cem cabeças (Daniel, 1976)”. Lá estava frei João de Sampaio, que, premido pelos Mura, havia pouco se retirara de Santo Antônio das Cachoeiras. No ano seguinte auxiliou na construção da capela de Santo Cristo, lateral à Igreja de São Francisco Xavier do Grão-Pará, anexa ao Colégio de Santo Alexandre. Leite (1943) se manifesta sobre o assunto: “As aldeias e missões do interior, assim como contribuem para os respectivos seminários, também concorriam para o embelezamento da sua igreja central no Pará. Os donativos não podiam vir em dinheiro, o que não havia. Recolhiam-se gêneros que eram mandados para o Colégio e depois expedidos para o Reino. No Pará, junto ao Colégio, no pátio inferior dele, construíram-se casas e armazéns para recolher aqueles gêneros, vindos das diversas missões do interior. Em troca vinham [do Reino] ornatos ou meios de se fazerem [dinheiro]. Um missionário oferecia um cálice, outro um retábulo ou uma imagem, aqueloutro, um frontal e, ainda outro, um altar”. O padre frei João de Sampaio contribuiu com cacau e cravo colhidos no Madeira. Como se vê, o colonialismo europeu fazia e acontecia com os recursos da floresta, ajudando inclusive a enriquecer o centro histórico de Belém e, quiçá, o de algumas capitais portuguesas. Em 1730, dentre os produtos florestais exportados, decorrentes da economia colonial missionária amazônica, o cacau firmava-se como o de maior demanda no mercado português. As 28.216 arrobas (423,2 toneladas) remetidas neste ano para Lisboa subiram para 58.910 arrobas (883,6 toneladas) em 1740. Pelo menos um quarto dessa produção era originário dos sertões madeirenses, onde a espécie vegetal abundava. O plantio racional do cacau, mandado fazer pela Carta régia de 01 de novembro de 1677, começou em terras do Maranhão quatro anos depois. O governo português incentivou a exportação com isenção dos impostos alfandegários e cobrança pela metade das demais taxas, a contar de 1681. Na mesma ocasião, autorizou as ordens religiosas a remeterem a Lisboa o produto do cacau colhido no sertão ou cultivado nas fazendas. Em pouco tempo, espalhadas as plantações por quase toda a Amazônia, foi estimulado seu aproveitamento industrial. As barricas portando o produto levavam uma cruz (o emblema da Companhia dos jesuítas). Um dia, o jesuíta JoãoDaniel assim se expressou: “Paiol do cacau ou remédio dos pobres (…) o cacau era buscado ordinariamente nas matas do grande Rio Madeira (Daniel, 1976)”. Na década de 1740/50, muitos colonos abandonaram suas idas ao Rio Madeira para colher cacau por temerem os Mura. Acusados de matar índios remeiros das equipes de catadores da floresta e de dificultar o trabalho dos jesuítas comprometendo o crescimento da atividade missionária, os valentes nativos também sofreram baixas. Estima-se que, em mais de meio século de luta, 30 mil deles foram mortos, contra cerca de 10 mil de colonos e membros das tropas invasoras. “Lutando destemidamente em legítima defesa própria, resguardavam suas vidas, sua forma de organização social e econômica, seus mitos, sua cultura. Batalhavam em prol de suas terras, de suas famílias e de seus companheiros. Estereotipados como vilões e decantados como insolentes, preguiçosos e bárbaros, na verdade respaldavam suas correrias em gestos nobres, patrióticos (Silva, 1997)”. Além da repressão oficial e das doenças como a bexiga, o sarampo e a varíola, enfrentaram seus inimigos Mundurucu – tudo isso os deixou bastante vulneráveis. “Mas, só se renderiam em 1784, deixando de existir como a feroz nação para as autoridades portuguesas (Amoroso, 1992)”. No território de Itacoatiara pouco ficou deles. Atualmente, entre adultos e crianças, os Mura do Rio Urubu são cerca de 300. À época, inobstante continuasse interditada a navegação do Madeira – aparentemente para evitar o êxodo da sua população para as minas de Mato Grosso – a frente mineradora promove o povoamento daquela área e em consequência aumenta o interesse por uma ligação fluvial com a Capitania do Grão-Pará, e o Madeira passou a ser utilizado maciçamente pelos comerciantes matogrossenses, a exemplo das entradas de Manoel Félix de Lima e Joaquim Ferreira Chaves, em 1742, de José Leme do Prado e João de Souza Azevedo, em 1749, e várias outras: todas desrespeitando as ordens reais. Segundo a afirmativa do padre Anselmo Eckart (1721-1809), o avanço dos mineiros só não foi maior devido aos ataques dos Mura. Rio estratégico, pois interligava economicamente o centro ao norte da colônia portuguesa, há anos o Madeira vinha sendo utilizado pelos bandeirantes para traficar o minério coletado em suas cabeceiras, e esse escoadouro se apoiava em Abacaxis que mantinha estreita ligação com as minas de Mato Grosso. Essa corrida ao ouro intensificou o movimento de barcos pelo Rio Madeira e colocou os Mura frente a frente com os portugueses. Anos depois, o capitão-general e governador do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1769), numa carta que enviou a Lisboa, em 18 de julho de 1754, testemunharia: “numa viagem da missão de Abacaxis à Vila Bela, capital de Mato Grosso, gastava-se somente vinte dias”. Em 1740, um pouco distante de Abacaxis, ainda na margem direita do Madeira, ficava a morada de um rico mineiro que tinha nessa região as suas propriedades, além de muitos escravos africanos. Os mineiros que iam a Mato Grosso costumavam se reunir e viajavam juntos para se protegerem dos Mura que por ali vagavam. O exame científico do Madeira, mediante o registro da posição de seus sítios mais importantes e a anotação de toda a sua fisiografia, competiu à expedição chefiada pelo sargento-mor Luiz Fagundes Machado e secretariada pelo mestre-de-campo José Gonçalves da Fonseca. Largando de Belém a 14 de julho de 1749, os expedicionários chegaram a Cuiabá a 16 de abril do ano seguinte. Antes, estiveram em Abacaxis, onde passaram alguns dias. Após detido exame do rio, em cumprimento às determinações da metrópole, “Os resultados da verificação, reunidos aos reclamos, às provas de que o Madeira era via ideal para as operações comerciais de Mato Grosso e mais à necessidade imperiosa de socorrer essa Capitania, criada principalmente para cortar os intuitos imperialistas dos espanhóis; motivos econômicos e políticos, portanto, levaram o governo, em Lisboa, a compreender que a medida proibindo a navegação não podia continuar em vigor (Reis, 1989)”. Resultado: em 14 de novembro de 1752 foi decretada a reabertura do rio. Em 1749, o vice-provincial dos jesuítas, em Belém, padre Carlos Pereira, revelava-se preocupado com o quadro depopulacional das aldeias jesuíticas no sertão amazonense, “generalizável para toda a população indígena do Grão-Pará, duramente atingida pela varíola”. Uma notícia não auspiciosa, pois, segundo afirmara o então missionário de Abacaxis, padre Teotônio Barbosa, “A antigamente populosa aldeia dos Abacaxis, cujos habitantes foram dizimados, abrigara mais de 23 outras nações, que por sua vez também tinham desaparecido (Amoroso, 1992)”. Na missão e seus arredores naquele ano morreram cerca de 700 pessoas, e no seguinte quase o dobro. Além da varíola, a bexiga e o sarampo – segundo a expressão do jesuíta alemão Anselmo Eckart, “os mil homens adultos da missão [de Abacaxis] já estavam reduzidos à metade; o sarampo levara, só de crianças, mas de duzentas”. Em 1750, a Capitania tinha confirmado a morte de mais de 18.000 habitantes. Os descimentos se apresentavam como a forma mais rápida para a reposição da população atingida pelas doenças. “Ao contágio brutal a que se submetia o índio aldeado, somavam-se ainda outros fatores igualmente perversos para os planos das missões (…). As índias aldeadas evitavam a concepção, por meio da ingestão de drogas. Da mesma forma, tornava-se praticamente impossível manter a população aldeada nos limites da missão diante do quadro da morte cotidiana, com pelo menos oitenta mortes por ano (Amoroso, 1992)”. Com a subida de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde marquês de Pombal (1699-1782), ao cargo de primeiro ministro de dom José I (1714-1777), é decretado em Lisboa o fim da escravidão dos índios e a retirada do poder temporal dos missionários sobre os aldeamentos, desmanchando parte da estrutura de controle da mão-de-obra indígena na Amazônia. Reaparecem mais fortes os conflitos entre o Estado português e os jesuítas por esse controle. O sistema de missões é extinto e o processo de secularização das aldeias avança. Ao mesmo tempo o tráfico de escravos africanos é incrementado. O projeto pombalino traz um impacto para a região, produzindo efeitos sobre a população indígena. Sob a perspectiva de criar as chamadas “muralhas do sertão”, os índios são transformados em colonos e/ou ‘súditos’. Em 13 de janeiro de 1750, Portugal e Espanha haviam celebrado o Tratado de Madri que, ao regulamentar os limites entre as duas coroas, firmava o princípio do uti possidetisalvaguardando o direito dos portugueses sobre a Amazônia, cuja fronteira “entrava pelo Madeira até o ponto situado a igual distância do rio Amazonas e da boca do Mamoré, dado como o formador, com o Guaporé, do rio Madeira. Daí por uma reta de leste-oeste, à margem austral do Javari, baixando pelas águas deste até a sua foz no Solimões, pelo qual continuava ao encontro da boca mais ocidental do Japurá (Reis, 1989)”. A missão de Abacaxis deu guarida a vários técnicos envolvidos no processo de delimitação de fronteiras. Além de montar um governo forte e centralizador, Pombal mandou fomentar o comércio e a agricultura e criou o Estado do Grão-Pará e Maranhão deslocando o governo de São Luís para Belém. Para governador nomeou seu irmão, o capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que tomou posse em 24 de setembro de 1751. Em fins de 1753, Mendonça Furtado, “na posse do título que lhe dava a direção dos trabalhos das demarcações do norte”, preparou-se para ir ao encontro do chefe da comissão de limites espanhola, José Iturriaga. “A reunião dos dois comissários devia realizar-se no rio Negro (…). Foi escolhida a aldeia de Mariuá para sede da conferência (Reis, 1989)”. Escrevi em 2010: “Mendonça Furtado (…) deslocou-se ao alto Rio Negro para tratar com o encarregado da comissão espanhola sobre as delimitações territoriais da região. Deixou Belém em 12 de outubro de 1754, mas não fez viagem direta; foi visitando as povoações situadas ao longo do Amazonas. A expedição, embarcada em 25 canoas grandes movidas à vela e remo, compunha-se de quase 800 pessoas incluídos 205 soldados. Ao anoitecer de 29 de dezembro aportou no sítio Itaquatiara. No outro dia, antes da retomada da viagem, foi rezada missa. Uma das pedras do Jauari, transformada em altar forrado de branco, testemunhou o solene momento religioso. A vazante do rio permitia que os circunstantes divisassem livremente as volumosas pedras da parte mais baixa da enseada do Jauari, a maioria contendo grafismos rupestres em forma de ‘caretas’ pintadas pelos Aroaqui, séculos atrás. Uma delas, por conter o registro da passagem de Mendonça Furtado pelo lugar, mais tarde ganharia feições de monumento histórico e de símbolo-mor do Município de Itacoatiara (Silva, 2010)”. O sítio Itaquatiara – do tupi i’tá kwati’ara – que o padre José Monteiro de Noronha (1723-1794) apelidou de “a paragem das Pedras Pintadas”, fica entre o Igarapé do Jauari (hoje infelizmente soterrado), à direita de quem está de frente para o rio, e o Igarapé do Ingàipáua (à época um viveiro natural de peixes), à esquerda. Lugar-símbolo da arte rupestre amazônica, onde, nas épocas de vazante, [ainda] podem ser vistos desenhos e pinturas sobre as milenares pedras que ornam a margem do Jauari, reproduzindo figuras humanas e de animais, feitos pelos indígenas no período pré-colombiano. Sítio arqueológico que deu nome à cidade e identificado pela ponta de pedras que avança sobre o Rio Amazonas formando as enseadas do Stone e do Jauari, nos séculos XVII e XVIII fora um lugar de referência, calmo, nostálgico, cercado por umas poucas tribos de índios mansos. Parada obrigatória ou “estação de repouso” de autoridades, missionários, sertanistas, militares e cientistas que, ocupados em explorar e/ou estudar o território amazonense, subiam e desciam o grande rio. A pedra, a que nos reportamos acima, que até 1970 ornava o seu porto, foi transferida para o centro da cidade e encontra-se exposta defronte à Catedral. Sua face principal leva desenhos, símbolos religiosos e inscrições em português. Contém a palavra TROPA, além de uma cruz sobre uma escada e as datas 1744 e 1754. A segunda destas, como já afirmado, foi gravada em ferro e fogo e marca a passagem de Mendonça Furtado pelo local; e a de 1744 se refere ao sargento-mor Francisco Xavier de Moraes (1700-1788) que, chefiando uma bandeira, por ali passou e deixou o seu registro. Dando seguimento à sua viagem até alcançar o Rio Negro, Xavier de Moraes entrou pelo canal do Cassiquiare e confirmou a comunicação do Rio Negro com o Orenoco, junto às fronteiras de Brasil e Venezuela. Essa ligação fluvial até ali era ignorada pelos espanhóis, mas desde o ano anterior já a conhecia o geógrafo francês Charles Marie de La Condamine (1701-1774) que, voltando ao seu País, em 1743, provavelmente descansou no sítio Itaquatiara. Francisco Xavier de Moraes – que era irmão de Belchior Mendes de Moraes, responsável pela prisão em 1727 do tuxaua Ajuricaba – foi diretor de índios no alto Rio Negro, vereador da primeira Câmara de Barcelos (1758) e membro do oitavo governo interino da Capitania de São José do Rio Negro (1786). No dia 28 de dezembro de 1754 Mendonça Furtado alcançou Mariuá, onde ficou quase dois anos esperando o representante espanhol que lá não apareceu. Aproveitou para mandar guarnecer a região do Solimões e melhorar as condições urbanas do povoado. Encomendou tais serviços ao engenheiro alemão Filipe Sturm – o mesmo que cinco anos depois iria confeccionar a planta topográfica da vila de Serpa. Naquele ano Abacaxis estava sob a administração do missionário Anselmo Eckart. O jesuíta húngaro e astrônomo real Inácio Samartone (1718-1793) passou alguns dias na missão medindo a altitude do polo norte. Padre Samartone integrava a comissão técnica incumbida dos levantamentos hidrográficos e topográficos para a definição das fronteiras luso-espanholas no alto Amazonas. Pouco depois, visitou-a o célebre João Daniel (1722-1776). Misto de religioso e naturalista descreveu com propriedade o contato dos povos nativos do Madeira com os agentes da Coroa, fornecendo detalhes importantes do cotidiano das missões. Também esteve nos rios Negro, Urubu, Anibá e outros adjacentes à Itacoatiara. Autor de uma famosa obra etnográfico-histórica começou a missionar com menos de vinte anos.  Desterrado da Amazônia em 28 de dezembro de 1757, pelo marquês de Pombal, 18 anos depois morreria encarcerado em Lisboa. Em 20 de dezembro de 1755, Mendonça Furtado ingressa no Madeira, pela primeira vez. No início do ano, o padre alemão Anselmo Eckart havia assumido a missão de Trocano, e seu lugar em Abacaxis foi ocupado pelo compatrício Antônio Maisterboug. O governador paraense já escaramuçava contra os jesuítas. Havia denúncias de que conjuravam contra a soberania portuguesa; que instigavam os índios contra a Coroa; e que recusavam obediência às ordens do marquês de Pombal. Injustas acusações, segundo Leite (1943); violências praticadas friamente contra os padres da Companhia de Jesus, segundo Reis (1989). “As primeiras providências para acabar com aquele estado de coisas vieram antes do ano findar”. O governo mandou pôr fora do território da Amazônia “quatro jesuítas tidos como perigosos à ordem, taxados de contrabandistas, entre [eles] os padres Antônio José e Roque Runderpfund, que missionavam no Madeira (Reis, 1989)”. Em 01 de janeiro de 1756 Mendonça Furtado elevou Trocano à categoria de vila, com o nome de Borba, a Nova. Com a passagem do governo da vila às mãos de um oficial, o padre Anselmo Eckart perdeu a função pastoral e foi se encontrar com seu colega Maisterbourg em Abacaxis. Em junho, ambos se retiram do Madeira e se transferem para Belém. Com a expulsão dos jesuítas, em novembro de 1757, seriam deportados num navio de guerra para Lisboa. Antes de voltar ao Rio Negro, em fevereiro de 1756, Mendonça Furtado, vindo de Borba, parou em Abacaxis e ouviu os moradores com sensível interesse. Permaneceu em Mariuá até 23 de novembro. Já em Belém, em fevereiro do ano seguinte, fez publicar as leis régias de dom José I, baixadas através de seu poderoso ministro marquês de Pombal, de 03 de março de 1755, de 04 de abril e de 06 e 07 de junho: criando a Capitania de São José do Rio Negro; concedendo privilégios aos portugueses que casassem com índias; incentivando a produção e o comércio; e criando nova política indigenista na região. A última delas, Lei do Diretório, revogava o Regimento das Missões de 1686, retirava a administração das aldeias das mãos dos jesuítas, concedia liberdade aos indígenas, que passavam a dispor livremente de suas pessoas e de seus bens, e autorizava o governador paraense a erigir em vila os aldeamentos substituindo-lhes os títulos indígenas por nomes portugueses. “As aldeias seriam vilas e povoados. O índio exerceria as funções públicas – juiz ordinário, vereador das câmaras, etc.. A tutela passava do missionário ao diretor do povoado: tanto podia ser um militar distinto, sabendo compreender o papel que representava, como um soldado de maus bofes inclinado a traficâncias, explorador do suor do povo, cujos destinos lhe confiavam. A liberdade era, evidentemente, duvidosa, aparente. A reforma não trazia os esperados benefícios, mesmo porque os naturais, analfabetos, não estavam em condições bastantes para os cargos que se lhes deu (Reis, 1989)”. Em 1757, os moradores de Abacaxis, cansados da perseguição dos Mura, e procurando um lugar mais propício à sua saúde e tranquilidade, abandonaram as imediações da Ilha de Tupinambarana e foram se estabelecer na margem esquerda do Rio Madeira, oposta ao sítio onde se localiza a atual cidade de Nova Olinda do Norte, defronte à ponta inferior da Ilha das Guaribas. Além das circunstâncias, agiram assim por que estimulados pelo capitão-general paraense quando de sua passagem pela região, no ano anterior. Ficaram esperando que Mendonça Furtado voltasse como lhes prometera. A viagem seguinte de Mendonça Furtado ao Rio Negro, além de selar o destino do Município de Itacoatiara, iria firmar o ato histórico de implantação da célula político-administrativa que deu origem ao Estado do Amazonas. Em 15 de janeiro de 1758, o capitão-general deixou Belém. No caminho, ia criando as vilas e lugares e instalando as câmaras municipais. No território amazonense, tomando direção pelo Paraná de Tupinambarana, rumou direto para o Rio Madeira. Deixando Borba, em 17 de abril, foi se encontrar com os habitantes da missão de Abacaxis. Era seu plano elevá-la à categoria de vila e já lhe escolhera até o nome: Serpa. Com eles, entabulou um diálogo construtivo e não menos esclarecedor, que resultou em adiar aquilo que se propunha. Nas palavras do estadista colonial: “… a 14 [de abril] cheguei à vila de Borba. Aí demorei-me dois dias, vim buscar a aldeia dos Abacaxis que era da Administração dos padres da Companhia [de Jesus], com a resolução de a erigir em vila com o nome de Serpa; porém os seus moradores me requereram instantemente que se queriam tirar daquele sítio, porque nele não logravam uma hora de saúde, e que se conservavam ali violentados pelos padres que os administram (…). E lhes nomeei uns poucos de sítios para eles escolherem o que lhes parecesse melhor a bem da sua saúde e da sua conveniência. Em observância desta ordem foram ver os sobreditos sítios e escolheram entre eles um chamado Itaquatiara, sobre o Amazonas, a dois dias de viagem da primitiva habitação. Daí, saí a 19 de abril e vim buscar este rio [Negro] onde entrei no dia 23…” – trechos da Carta de Mendonça Furtado, de 04 de julho de 1758, ao ministro português Tomé Joaquim da Costa Corte Real, in Belém (1912). No dia 06 de maio de 1758, já no alto Rio Negro, Mendonça Furtado instalou a vila de Barcelos – título de origem portuguesa dado à aldeia de Mariuá – que passou a sediar a Capitania de São José, inaugurada no dia seguinte com a consequente posse do governador, seu sobrinho afim, coronel de infantaria Joaquim de Mello e Póvoas (c.1723-c.1783). A nova unidade político-administrativa, desmembrada do Estado do Grão-Pará e Maranhão, porém a ele subordinado, foi criada com o objetivo de descentralizar a administração regional, melhorar a situação socioeconômica e garantir a soberania de Portugal na parte mais ocidental da Amazônia. Mendonça Furtado retornou a Belém no dia 26 de dezembro, transferiu as rédeas do governo ao seu substituto legal e, em seguida, viajou para Lisboa, aonde chegou em 28 de maio de 1759 – foi assumir o cargo de ministro adjunto ao marquês de Pombal. Mas, antes de partir, no final de 1758, deixou instruções ao governador da nova Capitania acerca de suas obrigações políticas e militares. Não considerava lícito que vilas e povoados de um distrito do Império Português fossem crismados com termos indígenas. Que o índio fosse bem tratado, mas que se lhe ensinassem imediatamente a língua portuguesa. Em cumprimento ao programa que se traçara, de renomear todas as povoações amazônicas pautando-se nos nomes de localidades lusitanas, e reiterando os termos da carta que enviou à Corte em 13 de junho de 1757, deu ordem expressa: quando da elevação da missão à vila, Joaquim de Mello e Póvoas deveria substituir-lhe o nome gentílico pelo topônimo português Serpa. Reportava-se à antiquíssima freguesia da Província portuguesa do baixo Rio Alentejo. Um gesto sem dúvida extravagante, feito num rasgo de entusiasmo. Mendonça Furtado nasceu em Lisboa, mas seus ascendentes, fidalgos, se originaram de Serpa que ficava não muito distante da freguesia de Vila Viçosa, onde passou a infância, faleceu e foi sepultado. Esse político e militar português é a figura mais interessante desse período da história de Itacoatiara (aliás, da Amazônia): devemos-lhe todas as homenagens. Homem resolvido enfrentou as ‘paradas’ de transferência da povoação para o platô atual e encaminhamento do processo de elevação do primitivo burgo itacoatiarense à categoria de vila.   A travessia A TRANSFERÊNCIA da povoação para a margem esquerda do Amazonas, orientada por Mendonça Furtado e realizada por grupos de índios Abacaxis, Arara, Iruri, Mundurucu e Torá, teve início em 18 de abril de 1758. O pouso escolhido ficava há cerca de 400 metros a montante do Igarapé do Jauari, junto ao sítio Itaquatiara, onde desembarcaram. Os primeiros dias foram gastos em levantar “rabos-de-jacu” (tendas de palha) para alojar suas famílias na beira do rio. Em seguida – sempre reunidos em mutirão – deram início ao trabalho de derruba, limpeza e encoivaramento da área de terra alta dominada por uma imensa, quase impenetrável floresta, que sediaria suas casas de residência, a igreja e as repartições da futura vila. É o quadrilátero onde é hoje a Praça da Catedral. As ferramentas usadas na cansativa faina consistiam de machados de pedra e, de permeio, alguns ‘modernos’ de ferro, trazidos pelos agentes portugueses. Nos idos de 1750 os índios do Maranhão já manuseavam machados, facas, porretes e outros objetos de metal (Daniel, 1976; e Meier, 2005). O caso vertente indica que em 1758 essa tecnologia já integrava a mão-de-obra indígena da Amazônia Ocidental. Recentes estudos de Antropologia têm contestado a antiguidade do cultivo de roças. Ampliam-se os debates sobre o uso e a durabilidade dos machados de pedra indígenas e “a imagem da derrubada e queima da floresta como uma prática antiga”. Há autores que dizem ser praticamente impossível fazer a derrubada de cerca de dois hectares utilizando machados de pedra. “O abate de árvores com pedras amarradas a cabos de madeira era simplesmente demasiado trabalhosa (Hemming, 2011)”. Em nove meses de trabalho descontínuo, aquele pedaço de floresta se transformou numa imensa clareira onde se colocavam dispersamente dezenas de construções simples em madeira e palha; dali a pouco, o povoado alcançaria os foros de vila, ajustando-se à forma municipalista primária. Paulatinamente, àqueles pioneiros vieram se juntar diversos remanescentes dos povos Aaná, Anicoré, Aponariá, Baniba, Bary, Cumaxiá, Curuaxiá, Juma, Juqui, Juri, Maué, Mura, Pariqui, Passé, Sará, Tururi e Urupá. Arrebanhados na nova povoação, logo, logo passariam a trabalhar mais diretamente envolvidos com a economia extrativa e agrícola de subsistência. A localização estratégica do novo núcleo, levantado junto à confluência do Madeira com o Amazonas, atendia aos interesses da Coroa portuguesa possibilitando um maior controle sobre as aldeias das vizinhanças. Segundo afirmou Mendonça Furtado na carta de 1758, supracitada: “…o rio naquele sitio é abundantíssimo e sobretudo está na estrada real destes sertões, e com esta vila acharão os passageiros socorro, e os índios (…) civilizar-se-ão”. Entre as providências do coronel Joaquim de Mello e Póvoas, após a tomada de posse do governo, destacam-se: a criação de vilas no interior, a alfabetização das crianças indígenas, o incremento da agricultura e o dos casamentos dos brancos com índias. Neste caso, fiel à política que seu tio iniciara dois anos antes na vila de Borba e embasado na Provisão régia de 04 de abril de 1755, dava curso à democratização dos cruzamentos interétnicos acelerando o processo de caboquização no território da Capitania. Para promover a secularização da futura Itacoatiara e outras aldeias inseridas no plano deixado por Mendonça Furtado, dando-lhes o estatuto de vilas e povoados, antes de findar o ano, Joaquim de Mello e Póvoas empreendeu viagem ao médio e alto Amazonas, que estendeu aos rios Madeira e Urubu. Fez-se acompanhar do vigário-geral José Monteiro de Noronha, o qual fora nomeado em dezembro de 1755 e havia pouco entrara no exercício de suas funções. Mello e Póvoas, na carta-relatório de 16 de janeiro de 1760 dirigida ao ministro adjunto dos Negócios do Reino, Mendonça Furtado – cujo teor, quatro dias depois, levou ao conhecimento do ministro da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real – fala das providências que tomou naquela oportunidade. Dela extraímos o seguinte trecho: “Nesta mesma viagem, fui à antiga aldeia dos Abacaxis a qual está mudada para Itacutiara [assim mesmo no original], situação sem dúvida a melhor desta Capitania e a erigi em nova vila de Serpa, segundo as ordens de Sua Majestade que Vossa Excelência me deixou para assim o fazer. O capitão engenheiro Filipe Sturm fez a planta da dita vila e nela fez as demarcações precisas para se levantarem todos os edifícios que naquela vila deve haver (…). Na criação desta vila usei toda a mesma formalidade que vi praticar em todas as que Vossa Excelência criou, e que eu tive a honra de assistir. Remeto as plantas de Borba, Serpa e Silves para que Vossa Excelência veja a forma que devem ter”. (in “Cartas do primeiro governador da Capitania de São José do Rio Negro Joaquim de Mello e Póvoas”, CEDEAM-UFAM, Manaus, 1983).  O projeto de vila que o governador encomendara ao engenheiro militar alemão previa um traçado com forma de hexágono e jamais foi executado. O original manuscrito da respectiva planta encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa – foto dela consta na parte iconográfica deste livro. Mello e Póvoas, à frente de enorme comitiva, deixou Barcelos e primeiramente visitou Borba, onde passou alguns dias tratando com seus dirigentes e encaminhou-se a ajudar os munícipes. De lá rumou para o povoado à ilharga do sítio Itaquatiara, aonde chegou às vésperas do final de 1758. E, como havia marcado para o dia seguinte a inauguração da vila, encontrou um ambiente nervoso, agitado. O grosso da população, estimada em mais de 400 pessoas, era de índios aculturados; havia uns 55 residentes brancos e dois ou três escravos. Estavam ali, além do governador, o vigário-geral, o ouvidor e intendente-geral, o escrivão judicial e de notas, alguns oficiais e diversos soldados da força militar, feitores, comerciantes e, obviamente, os comunitários previamente escolhidos para tomar posse como agentes públicos. Na manhã do dia seguinte, 1º de janeiro de 1759, obedecidos os termos do Código Filipino e da legislação acessória que regulavam o regime municipal português, dar-se-ia o ato solene da instalação da vila – acontecimento auspicioso, que augurava a vitória. Assim sugeria a data simbólica. No rol do calendário juliano reformado pelo papa Gregório XIII (1502-1585), 1º de janeiro é dia santo de guarda e efeméride do mais alto significado por que dedicado à paz e à fraternidade universal. O povoado, que iria receber o foral de vila, com o título de Nossa Senhoria do Rosário de Serpa e suceder à antiga missão itinerante do Madeira, antecipava a cidade da Pedra Pintada. Prometia. Dava esperanças de bom futuro.

* Texto alusivo ao 2º Capitulo do Livro “Fundação de Itacoatiara”, que abre a trilogia ITACOATIARA 330 ANOS, lançado pelo autor, em Itacoatiara, no dia 18/09/2013.
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1 COMENTÁRIO

  1. Sr. Francisco Gomes,

    Boa tarde! Me chamo Bruno S Sant’Anna, sou professor de Biologia da UFAM de Itacoatiara. Gostaria de adquirir uma cópia do seu livro sobre a fundação da Itacoatiara. Como posso adquirir uma cópia. Pretendo ler seu livro para ter base para escrever um pouco sobre a nossa cidade em um livro que estou escrevendo.
    Agradeço a atenção,

    Prof. Bruno Sampaio Sant’Anna .’.

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