Formação de engenheiros

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Além da visão local sobre a árdua questão de formar engenheiros no Amazonas, intencionei conferir ao assunto roupagem internacional comparativa. Nesse sentido enviei consulta ao meu neto Luis Felipe Barros e Silva, 25, engenheiro mecatrônico formado no Politécnico/Usp e Torino, Itália, onde, por opção, vive e trabalha numa empresa italiana multinacional produtora dos sistemas avançados gerenciais SAP. Colocada a questão Faculdade de Tecnologia (FT), da UFAM, vis-à-vis a realidade brasileira e mundial, seu relato, por e-mail, é no mínimo desafiante. Dada à precariedade do ensino brasileiro, afirma ser a favor de “uma grande revolução na educação partindo das creches e ensino fundamental. É claro que os benefícios disso em termos de tecnologia e produtividade seriam sentidos somente em um longuíssimo prazo para a visão dos nossos políticos. Imagino que seriam necessários ao menos 20 anos para que os resultados fossem realmente palpáveis, o tempo transcorrido entre a entrada no ensino fundamental do aluno e a sua formação na Universidade”.

Prosseguindo, Luis Felipe afirma: “hoje vivemos uma situação paradoxal  no Ensino Superior. Na Usp, por exemplo, onde estudei, a esmagadora maioria dos alunos provêm de escolas particulares renomadas com mensalidades que superam os 2000 reais (Bandeirantes, Dante Alighieri, Santa Cruz…). E quem no Brasil pode pagar esse preço? Somente uma classe altíssima que representa menos de  1% da população. Resultado? Temos uma Universidade completamente elitista e alienada da realidade de 90% do país”.

Segundo Barros e Silva, “claro que algumas ações afirmativas como o bônus a alunos da escola pública ajudam um pouco, trazendo para universidades de ponta alunos brilhantes que não conseguiriam sozinhos superar o “gap” educacional do sistema público. Em consequência, temos 500 engenheiros top de linha formados ao ano pela USP e outros poucos oriundos de Universidades renomadas. Esses engenheiros não perdem para ninguém no mundo. Estão realmente entre os melhores, posso garantir. E isso se reflete em amigos meus em ótimos cargos com apenas dois anos de formados. O problema é: quantos engenheiros desses temos? Os demais não tiveram uma educação de base nem mesmo aceitável, e por isso não têm outra escolha que não participar de programas como o ProUni e entrar em Universidades com um baixo nível docente e discente. Ou seja, além de formar poucos profissionais, muitos desses não são realmente qualificados”.

Enfim, prossegue, na Europa, ou ao menos na Itália, o conceito é diferente. Praticamente 100% da população termina o Ensino Fundamental. O Ensino Médio pode ser profissionalizante ou então ser o preparativo para faculdades de Humanas, Exatas ou Biológicas. As Universidades aqui são muito grandes. O Politécnico de Torino tem aproximadamente 50 mil alunos somente de exatas. Não existe vestibular, todos têm direito de acesso. As Universidades são subsidiadas, mas pagas (de 500 a 3000 euros por ano dependendo da renda familiar). Existe ainda um grande respeito ao professor (ao menos no Ensino Superior). O papel do professor e do pesquisador é separado. Existem professores que praticamente só dão aulas e existem pesquisadores que só pesquisam. Não são todos que fazem os dois.

O engenheiro Vladimir Paixão e Silva, professor da FT/Ufam, também por e-mail diz que “o país forma 40 mil engenheiros por ano, sendo 20 mil em engenharia civil, que demanda menos tecnologia; por isso ficam prejudicadas áreas estratégicas tais como energia, petróleo, gás e biocombustíveis”. É bom lembrar que “esse número é muito tímido se considerarmos que a Rússia forma 190 mil, a Índia 220 mil, a China 650 mil e por aí vai”. Portanto, acrescentou, “difícil responder como superar essa dificuldade de formar mais engenheiros tendo em vista a falta de professores  ou o desafio de como motivar os jovens ( que se assustam com Física e Matemática) a se graduarem em engenharia com um curso básico (os antigos ginasial e científico) tão precário”.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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