Finitude cocô

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*Antônio Prata

Meu filho de dois anos e meio acaba de descobrir o cocô. Não o cocô de verdade, esse ele sabe nomear desde que começou a falar e conhece intuitivamente, suponho, desde seu primeiro dia na maternidade. O que ele descobriu há mais ou menos uma semana foi o cocô como, digamos, conceito. Ou melhor: como ferramenta humorística. Eu poderia começar esta crônica com “meu filho de dois anos e meio acaba de descobrir o humor”, mas não teria graça nenhuma. Cocô é engraçado, humor, não. Talvez haja aí um paradoxo, mas meu filho não descobriu os paradoxos, descobriu o cocô; voltemos a ele, portanto.

“Filho, o que você quer comer?”. “Arroz com…” –ele me olha e sorri, irônico– “Cocô!”. Depois gargalha. Às vezes para ao meu lado, me faz um carinho, meu coração amolece sem perceber que é só a preparação para a piada. Ele me encara com os olhos mais ternos e diz: “Papai cocô!”. Aí ri até cair no chão, como os personagens da Peppa Pig no final de um episódio. Aliás, quando a Peppa aparece no desenho ele solta um “Peppa cocô!”. E ri. Quando aparece o George: “George cocô!”. E ri mais ainda. A mãe dos dois: “Mamãe cocô!”. E gargalha. O pai, claro: “Papai cocô!”. “Que nem eu?”, pergunto. “Não! Ele é porco cocô e você é adulto cocô!”.

No último sábado, no elevador, ao ouvi-lo responder ao “Oi” da vizinha do 81 com um sorridente “Oi, cocô!”, minha mulher decretou que a sanha coprofílica tinha ido longe demais. Concordo que chamar a vizinha de cocô não é legal, ainda mais a vizinha do 81, uma senhora sempre tão simpática, mas para além disso não consigo censurar meu filho. Afinal, como eu disse antes, o que ele descobriu na última semana é mais do que o cocô, é esse desrespeito radical por tudo o que é sagrado, também conhecido como humor. O que ele sacou foi que não há nada sobre a Terra que não possa ser avacalhado com um pouco de excremento. Não há ícone, não há autoridade, seja a sua ídola Peppa, a vizinha do 81 ou o próprio pai, que resista a um lançamento (mesmo que simbólico) de dejetos. E isso, meus amigos, é a fina flor do Iluminismo.

O que Chaplin disse com “O grande ditador”? “Hitler cocô!”. O que Jacques Tati disse em “Meu tio” e “Playtime”? “Modernidade cocô!”. Rabelais: “Harmonia cocô!”. Monty Python: “Empáfia cocô!”. Seinfeld: “Vida em sociedade cocô!”. Woody Allen: “Eu, cocô” –eis aí um dos cocôs mais importantes. E todos os humoristas, em última instância, como aponta tão elegantemente meu colega Ricardo Araújo Pereira no ensaio “A doença, o sofrimento e a morte entram num bar”, não fazem outra coisa senão nos ajudar, com os risos que produzem, a arreganhar os dentes para a velha dama de preto e afirmar: “Finitude cocô!”.

Eu achava que o difícil de educar uma criança era sobreviver às noites mal dormidas e às festas infantis. Ok, privação de sono e risoles frios são dureza, mas o complicado mesmo é nos vermos tendo que ensinar esses pequenos seres humanos a se adequarem à sociedade quando a gente sabe muito bem que a sociedade é o reino da hipocrisia e da injustiça e que a maior meta da educação deveria ser formar adultos aptos a botar o mundo de pernas pro ar. Sociedade cocô! Mundo cocô! Tudo cocô! (Tudo, menos a vizinha do 81, que é gente boa pra caramba, tá entendido, meu filho?).

*Escritor. Artigo na Folha de São Paulo, de 24/09/2017.
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