Filósofo redefine terapêutica do homem

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LUIZ FELIPE PONDÉ

Colunista da Folha de São Paulo.

Psiquiatra Mauro Maldonato situa homem contemporâneo numa síntese entre natureza, cultura e história. O filósofo italiano, 51, autor do livro “Passagens de Tempo”, é um psiquiatra sui generis.

Partindo da rede de referencias que transita por ciências humanas, teologia e literatura, ele busca situar a terapêutica do homem contemporâneo numa síntese entre natureza, cultura e história, fundando um campo de intuições que vai além da oposição entre matéria e espírito.

Entretanto, sua síntese não é um mar de superficialidades, mas uma trama de conceitos filosóficos que exige do leitor repertorio e atenção.

Folha: Como conviver entre o tempo biológico, o social, o psicológico e o cosmológico sem experimentar tal confluência como mais uma demanda a nossa consciência moderna já saturada?

Maldonato: Não acredito ser apocalíptico quando digo que o mal estar descrito por Freud se transformou na civilização do mal-estar. A tecnociência esta cancelando o equilíbrio entre o tempo natural e o tempo humano, anulou a distancia entre meios e fins.

Estamos em plena realização do projeto biopolítico da tirania sobre o tempo e sobre o corpo humano.

Desde a origem da civilização ocidental, o corpo tem sido considerado pela ciência como organismo a ser cuidado; da economia, como forca de trabalho a ser empregada; da religião, como carne a ser redimida.

Hoje, não se trata de emancipar o corpo das restrições impostas, mas de restitui-lo a sua inocência original.

Um dos tempos em que vivemos é o da morte, o nada do humano. O senhor afirma que há uma potencia do nada. Qual seria esta potencia?

O niilismo, mais inquietante e impotente entre todos os hospedes, foi imposto a nossa época nas suas diferentes declinações: da metáfora perfeita do encontro com o nada que clinicamente chamamos de ataque de pânico as potentes tendências da tecnociência. Temos necessidade de compreender as razoes disso e de encontrar soluções. Um pensamento forte atravessa até o fundo da noite do niilismo e encontra um caminho para supera-lo.

O senhor parece crer num dialogo rico entre religiões. Não há conflitos insuperáveis entre algumas crenças historicamente constituídas?

O dialogo entre as religiões não pode ser uma simples comparação de hierarquias de valores. Um dialogo é autentico quando acolhemos o outro, sem anular as diferenças. Creio que seja este, hoje, o desafio para todas as grandes religiões.

O senhor crê numa espiritualidade do ateísmo, como filósofos como Luc Ferry?

Ferry identifica o pensar com sua pesquisa de uma salvação sem Deus. É uma instancia presente em todas as grandes filosofias.

Estamos ainda com esta ideia fixa. O ateísmo diz que, além da nossa vida mundana, não precisamos nos importar com nada. É necessário nos opormos a tudo isso.

O nosso dever é lutar duramente, sem nos rendermos ao nada. Talvez tentando mudar os valores, com a coragem de quem constrói dia após dia a sua existência terrena.

Uma das riquezas de sua obra é o dialogo entre a psiquiatria e humanidades. O senhor vê esse dialogo como um diferencial  na formação de um “terapeuta da alma humana”?

A psiquiatria é uma ciência que estuda não apenas os sintomas psíquicos do homem neuronal, mas o homem na sua capacidade (e também na sua incapacidade) de viver na reciprocidade.

Por isso se faz necessário rever em novas perspectivas argumentos ate o presente muito frequentemente omissos ou apenas esboçados: a inquietação, a solidão, a coragem da espera, a esperança, a nostalgia, a tendência transcendente.

Os espaços de pesquisa que se abrem nos indicam um percurso sensível a ética do tornar-se humano.


CARREIRA: Psiquiatra e filósofo, Maldonato leciona psicopatologia na universidade de Nápoles e ciência do comportamento na Universidade da Basilicata, ambas na Itália. Ensaísta, publica em diversas revistas e jornais do pais. Lançou “A subversão do Ser: Identidade, Mundo, Tempo e Espaço” (ed. Fundação Peirópolis, 2001) e “Raízes Errantes” (Sesc/Editora 34, 2004), entre outros.

(Publicado no Jornal Folha de São Paulo, de 9 de Junho de 2012,

caderno: Ilustrada, pág. E3).
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