Feliz Luzitânia, feliz Amazônia

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Derrotados os franceses e seus aliados tupinambás, na região de São Luiz, os territórios até a foz do Amazonas foram incorporados e divididos em duas capitanias: a do Maranhão e a do Pará, estendida do rio Quatipuru até o Tocantins e subindo por ele até o primeiro salto.

No Natal do ano de 1615, formou-se uma expedição destinada ao estabelecimento de uma colônia, na foz de um gigantesco rio, que se estendia por mais 100 léguas mar adentro, o rio de Santa Maria de la Mar Dulce, como fora denominado por Vicente Pinzon, em 1500, o futuro rio Amazonas, na Tierra de Nuestra Señora de la Consolación y del Ruestro Hermoso, o nome espanhol, para a Amazônia, e com a finalidade de implantar o domínio da dupla coroa ibérica, naquela região.

Comandada por Francisco Caldeira Castelo Branco, recebera essa aventura o pomposo nome de Expedição da Conquista do Pará, tendo por finalidade mais remota a de barrar possíveis incursões a Cuzco e Potosi, por parte dos inimigos da Espanha.

Compunha-se de uma flotilha de três barcos: o patacho Santa Maria da Candelária, do capitão Pedro Freitas, o caravelão Santa Maria da Graça, do capitão Álvaro Neto, e o lanchão Assunção, do capitão Antonio da Fonseca, auxiliados pelos alferes Gaspar de Macedo, Pedro Teixeira e Pedro da Costa Favela, além do capelão da frota padre Manoel Figueira de Mendonça, dos capuchos Cristóvão de São José e Antonio de Marciana, para missionar os índios, todos embarcados nessa primeira flotilha de guerra a singrar as águas da Amazônia, tendo a bordo três companhias totalizando 150 soldados e 50 marinheiros, dez peças de artilharia e oito quintais de pólvora. O prático, aquele que de fato conhecia a região, era o francês Charles de Vaux, que fora importante membro da colonização da França Equinocial, ensinando o caminho aos pilotos Antonio Vicente Cochado e Antonio Pereira Temudo, sendo que este último escreveria um notável diário, um dos primeiros documentos sobre a nova terra.

Depois de atravessarem a perigosa costa maranhense, de gigantescas marés, os navios aportaram à barra do Seperará e Antonio de Deus foi o primeiro a desembarcar, na Feliz Lusitânia, nome dado à terra. A 12 de janeiro de 1616, fundou-se a povoação de Nossa Senhora de Belém do e o forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém, hoje, conhecido como Forte do Presépio, construído de faxina e taipa à margem esquerda do igarapé do Piri, hoje Doca do Ver-o-Peso, obra do engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita. Esses sucessos foram comunicados ao Maranhão através de Pedro Teixeira, que durante a viagem pacificou os índios do Caeté, retornando com artilharia, munições e o soldo da tropa.

Instalava-se a gente luso-brasileira, pela primeira vez, nos chãos daquilo que viria a ser a Amazônia, a sua maior conquista de todos os tempos, tão bem guardada, que somente no século XIX, ano de 1866, é que o Brasil liberou o seu rio principal à navegação internacional. Uma tão grande região, 40 a 50 vezes maior do que a Metrópole, deveria ficar oculta e em segredo do resto do cobiçoso mundo até Portugal ter condições de mantê-la e protegê-la, por ser pequena a sua população, dispersa por outros espaços economicamente mais interessantes, como a Índia, o Nordeste açucareiro e as Minas Gerais, e pela falta de recursos, para tão imensa empresa, além de ali existir uma grande população nativa e aguerrida de mais de 4.000.000 de índios, três vezes maior que a população portuguesa, um clima diferente, alimentos desconhecidos, distancias gigantescas a serem vencidas contra correntezas e sem ventos fortes, e terras impróprias para o vinho, o trigo e o azeite, três peças básicas da cultura mediterrânica.

Apesar de tudo, hoje a Amazônia é a maior extensão territorial de fala portuguesa do mundo, onde mais de vinte milhões pessoas expressam-se em um sonoro e vocálico português, graças à pertinácia de milhares de homens, que se atreveram a enfrentar e a atravessar os mares nunca dantes navegados. Alguns deles dignos de serem destacados, como Pedro Teixeira, que levou os domínios da Coroa Portuguesa até o Napo, Antonio Vieira, com os seus sermões chamando a sociedade à Regeneração e pelas suas prédicas a favor da liberdade dos índios, Pedro da Costa Favela, Pedro Baião de Abreu e Feliciano Coelho de Carvalho, nas lutas contra holandeses e ingleses, pela posse da foz do Amazonas, Francisco Xavier de Mendonça Furtado e seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, por terem primeiro vislumbrado a grandiosidade da região amazônica, traçando-lhe planos de desenvolvimento e de incentivos econômicos, estabelecendo leis raciais igualitárias e lutando pela expansão e proteção de suas fronteiras e João Pereira de Caldas e Manuel da Gama Lobo D`Almada, os grandes demarcadores, que conseguiram delineá-la, apesar da oposição dos espanhóis e dos holandeses. Hoje podemos continuar a chamá-la de Feliz Amazônia por que tem água potável em abundância, bilhões em minérios, terras para agricultura, florestas gigantescas a explorar e uma população ordeira e trabalhadora, um dos últimos locais da Terra onde ainda se pode ter Esperança.

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Antonio Loureiro
Historiador amazonense. Membro das academias Amazonense de Medicina e Amazonense de Letras. Ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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