Farofa da Vila

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No interior da Amazônia ao contrário das grandes metrópoles regionais, parece que o tempo passa devagar, como a correnteza do Amazonas, em que, da orla da cidade os garotos contemplam ainda uma natureza viva, com a descida de terra caída composta de mureru, canarana e cama de capim, onde as garças, arirambas e jaçanãs pegam carona para um passeio de rio. Essa relação diária com o rio nos faz um povo feliz.

Segundo Leandro Tocantins, aqui o rio comanda a vida… Neste cenário, o ribeirinho em sua grandeza rema para sobreviver em sua minúscula canoa ao vencer o banzeiro, na travessia arriscada diante de um neopanamax que, carregado de emoções desliza suavemente em direção a foz, levando nossas riquezas para o mundo. No passado foram os produtos extrativos regionais e hoje é o agronegócio.

E é em um lar humilde que, às vezes,  nascem caboclos determinados, formados em homens desde as primeiras horas da manhã, revelados em corpos de verdadeiros atletas diferenciados que buscam melhorias, em campos de várzea ou de terra batida, para sonhar um dia – quem sabe ? -, com a profissionalização. Quando ainda nem havia o tão propalado conceito de sustentabilidade, os curumins da década de 60 já levantavam essa bandeira…

Em uma área de dois hectares, parceria comunitária com os braços solidários das redondezas construiu o Campo da Amazônia, gigante verde do Vale do Jauary que atendia o lazer de parte da Zona Leste da cidade, com as dimensões oficiais. A temperatura ambiente era excelente visto que foi descampado somente o núcleo da área verde, preservando as árvores do entorno que amenizavam a temperatura, equilibrando o clima, tendo como charanga o canto dos passarinhos.

Como ali ainda era um fragmento florestal que sobrou da Velha Serpa, o gramado era verdejante e aparado durante a noite por cavalos e bois domesticados,  respectivamente, pertencentes aos carroceiros do bairro e fazendeiros do Lago do Canaçary. Do trabalho de ruminância nas madrugadas só restavam pés de malícia que demarcavam o campo, molhadas pelo orvalho para ficar um tapete para os treinos diários e o campeonato, nas domingueiras. Na torcida, as meninas da Escola Rural.

As senhas de acessos eram disponibilizadas por quatro entradas: um caminho pela atual Rua Antonio Serudo Martins; outro pela Rua Nossa Senhora do Rosário; um pela Rua Eduardo Ribeiro e, o último, pela Rua Aquilino Barros. Mas ainda havia um furo que vinha da direção do Big Bar… Berço natural de inúmeros atletas nauticanos, o Campo da Amazônia era uma arena que cumpria com o caderno de encargos, de acordo com os estatutos da função social do esporte.

Foi em um ambiente desses que nasceu nosso personagem, no Vale de Serpa, para o futebol regional. O batismo futebolístico foi registrado pelo próprio pai quando – chateado -, em uma tarde ensolarada de domingo, precisou dele para os afazeres domésticos e o mesmo estava batendo uma pelada nas proximidades, tascando logo: “Seu cabeça de farofa vá já ajudar sua mãe!”, disse-lhe, chamando a atenção. Os colegas que estavam próximos serviram de testemunhas e sacramentaram o nome artístico da promessa, em virtude de possuir o cabelo no estilo sarará.

Em sua ficha profissional essa estrela cintilante de nosso esporte, em função de muito cedo ser formado nas “escolinhas” da arena, transfere suas atividades para o Campo do Arranca Unha e do Arranca Toco, nas cercanias do aeródromo da cidade, acumulando admirável massa muscular, adquirindo 75 kg distribuídos em uma altura de 1,68m, possuindo envergadura de um verdadeiro atleta greco-romano. Era lá que colocava em prática o condicionamento físico e os fundamentos, sonhando desfilar futebol no clube do coração…

Nasceu da união entre Antônio Mendes e dona Francisca Pereira Mendes.  José Pereira Mendes tem 77 anos e entrou para a galeria do esporte local como Farofa da Vila, uma lenda viva do nosso futebol, em homenagem a sua cidade. De formação elementar, em suas  entrevistas falava com correção e bastante discrição, deixando um legado para os desportistas. Pela imponência e presença de espírito, seriedade na posição e defesa nas jogadas mais difíceis, é reverenciado com respeito e admiração.

Em Itacoatiara jogou  pelo Náutico Esporte Clube,  sua primeira agremiação, sagrando-se campeão;  Transitou rapidamente por outros clubes da Green City como Atlético Brasil Clube, Atlético Rio Negro Clube, Luso Brasileiro  e Penarol Atlético Clube,  retornando a  sua paixão eterna,  por que o Cobra Coral, é o clube de coração e que o revelou para o mundo futebolístico. Sem dúvida, seria alçado a condição de titular em qualquer clube em vista de cumprir todas as determinações táticas e técnicas.

Esteve em Manaus na década de 60…  Sua principal característica é a de ser um  zagueiro vigoroso e de poucos gols, jogando mais como um fixo. Estreou no  Atlético Rio Negro Clube da Pça da Saudade, consagrando-se  campeão em 64, em uma decisão contra o Auto Esporte  que por sinal,  naquele momento  era o favorito,  por dispor de uma equipe bem estruturada e com bons atletas. Ainda em 64 pelo Galo Carijó, conquistou também um torneio muito importante em Manaus denominado “João Havelange”.  Mas a saudade da Vila  e da família, o fizeram voltar a sua terra natal e a vestir novamente o manto  rubro-negro da Pça de Nazaré, na categoria amadora.

Destaque interessante:  jogando pela Seleção da Vila de Serpa  jamais perdeu uma partida para as equipes manauaras como  Nacional, Fast, Rio Negro, Olímpico, América, Sul-América e Rodoviária e,  inclusive,  para a seleção de Manaus, no lendário Estádio Eurico Gaspar Dutra. Teve atuação brilhante em todas as praças por onde se apresentou, ganhando a confiança dos técnicos, dos atletas e das torcidas,  pela simplicidade  com que sempre enfrentou os desafios da existência humana.

Na década de 70, pela seleção da Cidade Luz – a Pedra Pintada  foi fundada em 8 de setembro de 1683, dia de Nossa Senhora da Luz -,  venceu ao Nacional  no Estádio Floro de Mendonça, que trouxe naquela época em seu esquadrão Toninho Cerezzo, Paulo Isidoro, Ângelo, Olavo, Antenor, Renato e outros bambambãs.  Lembrando que  Cerezzo e Isidoro, estiveram na seleção de 82 sob o comando técnico de Telê Santana que encantou o mundo com o futebol  mágico, embora, para decepção planetária, desclassificada pela Itália.

Nessa mesma década, já pelo Penarol,  foi campeão formando dupla de zaga com Malvino Salvador(pai) que chegava a Cidade da Canção  para desempenhar atividade laboral  como engenheiro agrônomo na Emater/AM. Este, mais tarde casaria com a itacoatiarense  Maria Amélia de Figueiredo Ramos, pais do ator global de mesmo nome. Ela é irmã do Tadeu e do Afonso Ramos, filhos de José Manoel  e Manoela Ramos, de tradicional família serpense, descendente de portugueses radicados no município.

Farofa da Vila  casou em 1962, com a  Profª  Maria Eulinda, irmã do também professor Tião(que defendeu as cores  nauticanas).  Com a ‘passagem’  da nossa colega de magistério, em 2008, ficou viúvo.  Exerceu a atividade de Estivador na qual foi aposentado  por tempo de serviço, há cerca de 15 anos.  Farofa de Vila é um ser humano  formidável, tendo um vasto e rico curriculum. Desportista  que contribuiu para enriquecer a constelação esportiva do Amazonas.

Sua trajetória gloriosa deve ser  exposta no Museu do Futebol, contando os caminhos da árdua jornada por um lugar ao sol, pois é o exemplo, um  legado para nossas gerações. A história de vida merece o registro na calçada  Memorial do Atleta, emoldurada por uma estrela de primeira grandeza, por tudo que fez pelas cores de sua gente.

* É professor e Jornalista. Nasceu em Itacoatiara. Texto em parceria com Raimundo Saraiva de Araújo, professor, cronista e ambientalista, também natural de  Itacoatiara.
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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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