Face oculta

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*Fernanda Torres 

Ilustração de Marta Mello para a coluna de Fernanda Torres – Marta Mello

O Facebook é o próprio navio pirata. Seu butim se baseia no livre mercado de dados dos usuários.

Eu seria um homem feio, muito feio. Foi a conclusão a que cheguei, logo após me engajar num aplicativo, aparentemente inofensivo, que chegou a mim via Facebook.

Concordei com os termos de contrato sem lê-los, admito, e disponibilizei uma foto para, em seguida, admirar a hedionda versão masculina de mim mesma. Não postei. Primeiro, porque não costumo dividir com os outros o meu tempo mal gasto em futilidades; segundo, pelo horror do resultado.

Graças ao passatempo imbecil, meu nome, hoje, deve constar do catálogo mafioso da Cambridge Analytica, arregimentado por meio de informações pirateadas do Facebook. Caso a sujeira não tivesse vindo à tona, meu perfil corria o risco de contribuir, e talvez ainda corra, para a manipulação das eleições de outubro no Brasil.

O vídeo do Channel 4 em que o CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix, oferece seus serviços a um suposto interessado em ingressar na vida política do Sri Lanka é de vomitar de tão nojento. Nixsugere contratar prostitutas para obter imagens difamatórias de possíveis concorrentes e se vangloria das fake news. Não importa que sejam falsas, diz ele, contanto que as pessoas acreditem nelas.

Pressionado, o margarido Zuckerberg apareceu, com seu jeito de colegial do ensino médio que não possui bilhões na conta bancária, e pediu desculpas pelo maquiavélico uso de sua invenção.

A questão é que Aleksandr Kogan, o pesquisador que desenhou o modelo de prospecção de dados e o ofereceu para a Cambridge Analytica, não roubou as informações.

Kogan esqueceu a ética, mas se valeu do Facebook Graph API, que o próprio Face utiliza e disponibiliza para o uso comercial de informações dos usuários.

O Face é o próprio navio pirata. E não só ele. O Google, o YouTube, o Instagram e o Twitter também são corsários não regulados. Seu butim se baseia no livre mercado de dados. A pirataria está na gênese da internet.

Ano passado, quando os haters ameaçaram de morte minha mãe, contatamos o escritório da empresa no Brasil. Na época, pediram que aguardássemos até janeiro, quando um novo algoritmo entraria em funcionamento, visando barrar a difamação e a cultura do ódio impregnadas na rede.

Para minha surpresa, uma das principais mudanças anunciadas foi a de banir a influência da imprensa do Face.

A decisão se fundamentava no desejo de que a rede de relacionamento retornasse à pureza de sua origem, um lugar onde vovós saudosas compartilham os puns dos netinhos à distância.

Em vez de fortalecer a notícia apurada e regulamentada, da qual se conhece a fonte e a linha editorial do veículo que a publica, o Facebook privilegiava a fofoca e as fake news.

A decisão fez a Folha abandonar a sua página.

Em 2003, quando ainda estudava em Harvard, Zuckerberg lançou o Facemash, protoversão do Facebook, publicando fotos de estudantes para eleger os mais “quentes”.

A brincadeira atraiu milhares de participantes em poucas horas, até ser interditada pela direção da universidade. Zuckerberg enfrentou, entre outras acusações, a de violação de privacidade, a mesma que encara agora, pela associação com a Cambridge Analytica.

Há algo de estranho numa empresa que permite a proliferação de perfis falsos, aconselhando o indivíduo lesado a criar uma página oficial a fim de combatê-los. Foi o que aconteceu comigo.

O Facebook sempre lavou as mãos, alegando ser apenas o veículo, e não o autor das injúrias, falsidades e difamações. Isso muda agora. Pela primeira vez, o próprio Zuckerberg fala em regulação.

Já não era sem tempo.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C4, de 30/03/2018.
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