Etnocídio na Amazônia Brasileira

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Os filhos da terra carregam no sangue a
honra de ter suas raízes fincadas no
passado glorioso de seus ancestrais.
                                Mateus Fergatti

Há cinco séculos, no Brasil, havia mais de 1.000 línguas ou dialetos falados por uma quantidade considerável de povos, formando uma riqueza social, antropológica e arqueológica extraordinária. Inúmeros grupos ao serem perseguidos e caçados para servir como  mão de obra escrava, na grande lavoura de cana de açúcar do Nordeste, Centro Oeste e Sudeste fugiam para a região por não se adaptarem ao trabalho capitalista. Mas uma vez fixados aqui não tinham paz, visto que os jesuítas os capturavam para atuar em suas extensas fazendas de ate 10 mil cabeças de gado; para auxiliar nos descimentos e na imposição dos sacros mandamentos da liturgia cristã, dividindo com os portugueses, a disputa desses seres desprovidos de alma para a expropriação na extração das drogas do sertão, exportadas do Eldorado para satisfazer o paladar europeu.

Toda a margem do Rio Amazonas era densamente povoada. Segundo alguns cronistas da época, em suas viagens pelo vale, era comum a existência de  aldeias de 10 mil a 50 mil indivíduos habitando aqueles territórios e elas ficavam tão próximas umas das outras que, quando os viajantes desciam o rio e chegavam na próxima, ainda ouviam-se o lavrar das madeiras  naquelas que ficavam para trás. A ciência estuda tais fatos à luz da demografia indígena e, constantemente, atualiza em congressos,  os avanços no conhecimento étnico a respeito da diáspora ocorrida no país contra estes povos que migraram para a Amazônia.

Mas realmente o que houve: povoamento ou etnocídio na Amazônia (?), já que nesta região viviam mais de cinco milhões  de indígenas em harmonia com o meio ambiente, porque a outra metade, a civilização destruiu há muito tempo. No entanto as lutas contra os europeus, as guerras intertribais estimuladas pelos inimigos, a escravidão e as ações de terror impostas pelo branco invasor,  as mortes causadas por doenças desconhecidas – eles não têm defesas -, aliadas ao amansamento e domesticação no contato com o cara pálida, foram dizimando tais populações, servindo a estratégica de poder, na política de branqueamento da população.

Naquele período as etnias já eram hostis aos estrangeiros, pois que lutavam contra a lusitanização da Amazônia. Só para citar um exemplo: os povos que habitavam de Silves a Itacoatiara formavam um arco de alianças em uma confederação para por fim as constantes  invasões de seus territórios, utilizando-se das tocaias ao inimigo, para mandar um aviso claro aos seus governos. Mas em contrapartida, expedições enviadas de Belém ao Amazonas – fortemente armadas -, para combater aquela unidade indígena, especificamente as lideradas pelo bandeirante Pedro da Costa Favela, dizimaram uma quantidade muito grande de aldeias no Rio Urubu. O saguinário representante português cometeu, sem sombra de dúvidas, um crime de guerra até hoje não julgado pelo Tribunal dos Povos da Amazônia.

O descimento foi outra forma usada pelos espanhóis para aldeiar em um só lugar, os diversos grupos étnicos, inclusive, inúmeras tribos rivais. O alvo estava na desconstrução da história e no esquecimento da memória e, agora, o foco era o trabalho  de construção da nova fé através das missões; as fazendas jesuíticas, brutalizavam a pureza da alma contra suas práticas comunitárias, onde trabalhavam no manuseio do gado e plantação de pomares ou auxiliando no dia a dia daquele ajuntamento humano, depois chamado de forte. Em primeiro lugar, os alienígenas aprenderam nossas línguas, através do teatro, para nos explorar, criando uma língua geral chamada nheengatu, onde impunham um deus branco e vingativo. O final da História já é conhecido: os jesuítas domesticavam os indígenas para os portugueses escraviza-los.

Hoje, no Estado do Amazonas eles representam 120 mil,  dos quais 30 mil, sobrevivem, fazendo de Manaus a capital com o maior índice de  indígenas destribalizados do planeta. Mas mesmo considerados  derrotados,  sem o alcance das políticas públicas, eles venceram e continua resistindo, organizando-se e buscando, através  da educação, a qualificação necessária para  exercer a cidadania, reivindicando respeito e inserindo-se na Sociedade como verdadeiras lideranças que demarcaram o território transfronteiriços da Amazônia brasileira.

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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