Esse tal Aurélio…

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“Era homem de boa índole (…) Fez amigos e se apresentou, desde logo, como exímio escritor, especialmente com as qualidades de cronista e romancista”.

Um dos nordestinos que se transferiu para Manaus com a família, advindo do Rio Grande do Norte em busca de melhores condições de vida, ainda bem jovem, que aqui sepultou a mãe, vagou pelo interior, trabalhou na cidade de Parintins, casou com uma cabocla, atendeu doentes no Rio Branco e em Boa Vista, enfrentou a crise

da “influenza”, foi festejado como orador, tentou se envolver na política partidária e eleitoral, e, depois de tudo; com jeito bem amazônico, terminou seus dias em Niterói, no Rio de Janeiro, após ser muito bem considerado como escritor e colaborador de diversos jornais e revistas em Manaus e principalmente na então capital da República.

Era homem de boa índole, antigo aluno do Ginásio – o atual e quase sesquicentenário Ginásio Amazonense Pedro 11 -, no qual prestou os exames preparatórios para o curso superior, fez amigos e se apresentou, desde logo, como exímio escritor, especialmente com as qualidades de cronista e romancista.

Por isso mesmo foi um dos convocados a integrar o grupo de fundação da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, em 1918, dois anos depois transformada em Academia Amazonense de Letras, e, pelo seu empenho e identidade com os líderes da iniciativa centenária, esteve entre os cinco acadêmicos que compuseram a primeira diretoria e participou dá redação do Estatuto da entidade.

Médico de formação; aqui chegado de volta logo após a formatura e pouco depois da morte de sua mãe, aquele que algumas vezes assinou como “Estanislau Pamplona” ou “Áureo Pinho”, pseudônimos que usou em poucas ocasiões em artigos pela imprensa e ao participar de concursos literários, nos fins dos anos 1920 se deslocou para o Rio de Janeiro onde ganhou fama, prestígio e honrarias ainda maiores, afastando-se da Poltrona azul da nossa Academia.

Dedicando-se ao exercício profissional não descurou das letras e das artes. Escreveu com intensidade e variedade de temas.

Com uma vista d’ olhos passada no “Jornal do Brasil”, “O Paiz”, “O Jornal”, “A Noite”, “O Fluminense”, “Diário Carioca”, “Gazeta de Notícias” “Correio da Manhã”, “Diário da Noite”, “Carioca”:

“O Radical”, “O Imparcial” e nas revistas “O Malho”, “Fon-Fon”, “Aspectos”, “Eu sei tudo” e “Revista da Semana”, qualquer leitor encontrará dezenas e dezenas de artigos sempre bem compostos e com linguagem escorreita, seja sobre temas amazônicos, devaneios literários como diziam naqueles anos, problemas da atualidade, ou a apreciação médica da personalidade de grandes vultos da literatura, das artes e da política.

Como se não fosse pouco, trabalhou ativamente na tradução de clássicos da literatura estrangeira que foram seguidamente publicados por editoras de renome naqueles anos.

Ao que sabemos, desde os primórdios da Academia Brasileira aos nossos dias, nenhum outro escritor com vínculos no Amazonas, havia conseguido a proeza de sair vencedor de dois concursos realizados pela entidade-mater das nossas academias, somente Aurélio.

O primeiro deles, com o romance “O desterro de Humberto Saraiva”, em 1927, submetido ao crivo de comissão integrada por Gustavo Barroso, Austregésilo Athayde e Fernando Magalhães a qual concluiu tratar-se de “romancista destinado a ter lugar de destaque no romance brasileiro”, e pouco depois, em 31, com o seu “Anel Simbólico”, apreciado de forma detida por João Ribeiro, Afonso, Celso e Roquete Pinto, também elogiado e premiado pela comissão, de cujos relatórios possuo cópia na modesta biblioteca de minha residência.

Mesmo assim, com toda essa bagagem literária, poucos anos passados estando em uma roda de conversa amena, e falando de forma entusiasmada de seus livros e artigos, um dos circundantes não se conteve e lascou essa pergunta indigesta para quem se dizia e se diz muito bem entendido nas coisas do Amazonas: “quem é esse tal de Aurélio de que tanto falas?”. Calei, quase saí da roda de conversa e acho que ruborizei de vergonha.

Pois bem, esse tal de Aurélio chamava-se Aurélio Waldomiro Pinheiro.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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