Egito

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*Fernanda Torres

O interesse pelos incas sustenta bom naco do PIB, atraindo turistas ao vale do Urubamba, o Nilo peruano.

Sentada num nicho de pedra, o guia passou minhas mãos por dois buracos na parede e explicou que os incas costumavam torturar prisioneiros ali, decepando seus membros aos poucos e jogando-os na cova sob meus pés.

Eu tinha sete anos.

Não à toa, essa é a lembrança mais viva que tenho da visita que fiz a Machu Picchu, em 1972. Essa e a das “cholas”, que mendigavam moedas na parada do trem, numa miséria desesperada, chocante até para uma menina nascida no Brasil.

Eu demoraria 45 anos para retornar ao santuário e pedir para rever a prisão. Irônico, o guia sorriu e me levou até o Templo do Condor.

Uma cabeça de pássaro, esculpida no chão, está disposta diante de duas rochas naturais que se assemelham a asas. O bico do animal aponta para uma janela voltada para o solstício do inverno. Na parte superior, seis nichos, num dos quais eu havia me sentado em criança, jamais se prestaram ao suplício de cativos. Ali, eram depositadas as múmias, para que a ave levasse o espírito dos mortos até o sol.

A diferença entre a barbárie descrita em 1972 e a versão de agora é exemplo do resgate da cultura pré- colombiana que o Peru promoveu a partir de 2010.

Os herdeiros dos povos nativos exibem, hoje, um olhar de orgulho e vingança. O interesse pela civilização inca sustenta um naco substancial do PIB peruano, atraindo turistas para a região que vai de Cusco a Machu Picchu, passando pela extensa várzea cultivável do vale Sagrado do rio Urubamba, o Nilo local.

Até a década de 50, demoliam-se sítios arqueológicos para construir casas e igrejas. O estádio de Cusco foi erguido com blocos da extraordinária fortaleza de Sacsayhuaman.

A guerrilha implementada pelo Sendero Luminoso e Tupac Amaru afugentou visitantes durante os anos 1980 e 1990. Hoje, a pobreza é menor do que em 70, mas uma greve de professores paralisou o país durante toda a minha estada. Nota-se a remição do império de Pachacuti, o Alexandre, o Grande dos incas, que estendeu seus domínios da Colômbia à Argentina, numa fúria arquitetônica digna de Ramsés 2º.

Guias formados em antropologia, história e religião já não descrevem a cultura passada como primitiva ou selvagem, e o quéchua, língua adotada pelos incas e ainda viva, foi incluída no currículo obrigatório do ensino básico.

Por um século, os incas dominaram povos e culturas, absorvendo e impondo conhecimento. Uma visita aos “morays”, terraças circulares de 80 metros de profundidade e centenas de diâmetro, usadas como laboratório para desenvolver sementes resistentes às diversas altitudes da região, é prova do requinte de uma civilização dizimada por adoradores de uma Deus mórbido, sofrido e apartado da natureza.

A excelente culinária peruana é fruto da diversidade agrícola dos ameríndios, e a Europa deve à batata a salvação da fome causada pela resfriamento climático, ocorrido entre os séculos 17 e 19.

Os incas se assemelham aos maias. Um povo de estética apurada, dotado de senso comunal, que dominou uma natureza que ia do litoral do Pacífico à selva amazônica.

O Acre fica a 50 quilômetros de Ollantaytambo e Pisaq. O comércio que ligava o antigo império aos povos da floresta faz parecer absurdo que o Estado pertença ao Brasil.

A colonização europeia primou pela distribuição democrática de favelas nas periferias urbanas das capitais sul-americanas. É difícil deixar o Peru sem odiar os espanhóis, ou pensar no que seria a região, caso Pizarro não tivesse aparecido com seus soldados bexiguentos, crentes e malcheirosos.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C5, de 04/08/2017
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