Ecovila de São João do Araçá

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Oração de Nossa Senhora do Rosário
Oh  Mãe!
És  a estrela mais bela do Universo
Iluminada pela aura do Cruzeiro…
Protegei-nos contra o governo dos tiranos
Assim na Pedra, como no céu. Amém.

É assim na floresta todo dia… Ela não pára visto que a dinâmica da existência no interior da Mãe-Natureza é cósmica, portanto, contínua. E, deste modo, os povos indígenas e remanescentes, quilombolas, ribeirinhos e caboclos colocam as inteligências múltiplas a serviço do planeta através do empirismo, contrapondo-se a retórica atual daqueles que só sabem a Teoria da Sustentabilidade, desde os tempos imemoriais até os dias atuais.
Para implantar um projeto-piloto o conhecimento científico joga papel fundamental, isto é, para o desenvolvimento de uma pesquisa estuda-se desde os detalhes das diversas vocações da terra, analisando pormenores das atividades de baixo impacto, adequando-os aos anseios das comunidades tradicionais para, embasando as ações a serem concretizadas, evitar passivos ambientais. Todavia é dever do Estado disponibilizar os recursos e a infraestrutura necessária para viabilizar a construção de uma comunidade rural que sirva de modelo para outras aldeias, localidades e vilarejos pelos mecanismos da organização coletiva, reivindicada por quem deseja superar os séculos de esquecimento das esferas governamentais.

Na Ecovila de São João do Araçá – Distrito do Arari – Itacoatiara, situada na margem direita do Rio Amazonas, o discurso e a prática caminham na mesma direção, apontando a luta dos “protagonistas da história” nas ações da educação sem distância naquela região, transmitidas por videoconferência, em tempo real, de uma central televisiva por IP.TV, a partir do Centro de Mídias do Amazonas. E com os saberes herdados de seus ancestrais aliados ao conhecimento técnico adquirido com o bom manejo, os comunitários podem receber o fair trade e, também, usufruir do pagamento dos serviços oferecidos pelo ecossistema, ancorados pelos marcos regulatórios de duas conferências internacionais, ocorridas no país, ou seja, a Rio-92 com a proposição da Agenda 21, somadas aos documentos relacionados ao desenvolvimento sustentável na Rio + 20, na proteção dos biomas, nos moldes de alguns aspectos da Comunidade Findhorn, no norte da Escócia.

Área de transição entre a vegetação pantaneira e a amazônica, a bacia do Arari e o complexo da região dos lagos, com suas paisagens cênicas, é o lugar ideal para a exploração do turismo de aventura e do ecoturismo, com a criação dos clubes de observadores da natureza para comprovar a preservação das espécies, orientados por guias mirins bilíngues, na modalidade Safari na Amazônia, em 2014. O fato de algumas aves da América do Norte, seguirem rotas migratórias para cá, inclusive inúmeros bandos de patos do mato anilhados no Canadá, é uma curiosidade a ser investigada pela ciência. Seria para procriar?

Nossos povos constroem em parceria os empreendimentos comuns, consolidando a caminhada da própria autonomia, sem esquecer os traços sociológicos da tradição, formando-se em sentinelas desde a infância, engajados como protetores da vida e, após longo período de experiência, galgam o posto de Guardiões da Floresta, promovidos pela hierarquia de patentes sob o alto comando local. Isolados politicamente, mas articulados, conscientes e pragmáticos, buscam na cidadania o exercício da alteridade, na pluralidade de ideias, unindo todas as forças para superar as dificuldades, com o objetivo de enfrentar a pressão, opressão e a repressão do poder, emanadas pela camuflagem oficial das autoridades obscurantistas.

Chora povo querido, suas mágoas… Mas não se esqueça de sorrir e, quando cantar, cante com emoção um canto de alegria com a certeza no sol das manhãs vindouras, porque segundo o poeta Jorge Tufic só triunfa a esperança que luta e que, mesmo reprimido, mas com coragem, deixa um recado para os governantes da nação, o de que “… o Brasil tem que ser, hoje, um dos exportadores de inteligência”.

E ainda que cansado, o povo reserva forças para esquecer as perseguições sofridas, contemplando a noite de sua pátria e, assim, refletir sobre Nossa Senhora do Rosário, a rainha da constelação das estrelas mais belas dessa galáxia, iluminada pela aura do Cruzeiro… Assim na Pedra como no céu, emolduradas pelo Hino do Principado de Serpa que consagra a cidade mística, espiritual e ecológica “vestida bem de verde como a esperança” ou, em uma prece do popular e clássico compositor Raimundo Diniz dos Santos que mais parece uma valsa, a clamar em oração, uma sinfonia, no estilo da música das esferas, como reconhecia Sócrates nos púlpitos gregos, que curam, enternecem e eternizam o amor em nossos corações nas alegres festas do interior.

Na década de 70, quando a juventude foi condenada por ser utópica, mas que contribuiu com sua indignação para transformar o cenário histórico mundial, eram comuns, nas assembleias locais do povo, os debates, proposições e encaminhamentos sobre as liberdades democráticas, o uso do solo urbano, a reforma agrária, do ar e dos lagos; o aproveitamento das várzeas, educação, saúde e garantia de preços mínimos ao produtor rural, por exemplo, comandadas pelas lideranças preocupadas com a qualidade de vida do homem no campo e até o sonho de uma Universidade da Paz, baseada na Declaração de Veneza (Unesco, 1986) para mediar os conflitos, encaminhar o processo e materializar as ações, já que a centenária Universidade do Amazonas era apenas de Manaus, conforme o amazontólogo, Francisco Gomes da Silva.

Até o mundo empresarial moderno partilha a responsabilidade social investindo em seu entorno e é admirável que o Uninorte, agora, Laureate International Universities, uma instituição de ensino superior privada, tenha construído uma base científica em Lindóia, na Rodovia Torquato Tapajós (AM-010), para atender as comunidades da calha do Rio Urubu. E as IFES?

Muitos daqueles sonhadores estão em diversas profissões científicas ou, então, em cargos estratégicos no Estado brasileiro. Porém, ainda não observei, em nenhum deles, a capacidade de indignar-se como faziam na época das décadas perdidas. Instituições como a UEA, INPA, IFAM, EMBRAPA, IPAAM, IDAM etc. deveriam se sensibilizar com os relatos simples, mas emocionantes, desses caboclos e assumir a responsabilidade de auxiliá-los nesse empreendimento, tendo em vista que quem faz a gestão de governança são, sem dúvidas, seres humanos.

Reverencio vocês, batendo continência, sempre.
Deus salve os guerreiros da Amazônia.
Guardiões da Floresta!!!
– SEEEEEELVA!!!

webgrafia
PRINCIPADO de Serpa. Produção de Thyrso Muñoz. Itacoatiara, Prefeitura Municipal de Itacoatiara, 2011. (23 min 52 s).
Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=Lt8WlBaylVc>. Acesso em: 04 dez. 2012.

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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