Economia bipolar

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Historicamente, os modelos econômicos usados no Amazonas, nunca tiveram estabilidade, tipificando-se por uma bipolaridade que começou no ciclo das especiarias e drogas do sertão, imposto pelo Marques de Pombal e que durou entre 1755 e 1787. Esse modelo adotava a premissa de que o colonizado devia pagar pela colonização, justificando assim a dominação dos gentios que foram direcionados para produzir coisas para o mercantilismo português na Europa. Por conta de uma bula papal que ameaçava os portugueses com a excomunhão pelo tratamento desumano com os índios, o Marques adotou o trabalho assalariado e a privatização da produção um sistema que colidia com a cultura indígena que entendia o trabalho e a produção como decorrência e benefício de todos.

 

A DIVISÃO DO TRABALHO.

Alguns grupos se rebelaram, mas os que foram subjugados pelo poder das armas e do evangelho foram divididos entre os coletores das drogas na floresta e os encarregados do cultivo de espécies autóctones e exóticas entre as quais anis, cacau, café, algodão, milho, feijão, salsa, tabaco, e outras de valor econômico. Algumas espécies, no entanto, foram incorporadas aos costumes e à dieta nativa, como o café, cana-de-açúcar, milho, arroz, feijão, tabaco, entre outras. O modelo faliu em 1787 e Lobo d’Almada que tinha trazido reses da Ilha de Cabo Verde para suas fazendas na foz do rio Branco, deu inicio a um novo, curto e inexpressivo ciclo assentado nas incipientes pecuária, agricultura e agroindústria (mel, açúcar e cachaça) e produção artesanal de cerâmica, velas de cera e construção de embarcações.

 

UMA LONGA ESTAGNAÇÃO.

A partir de 1787 a Província viveu duros anos de estagnação econômica até que cerca de 50 anos depois (1830) a Grã Bretanha importou os primeiros 211 quilos de borracha bruta que constituíram o primeiro sinal de um período de fausto que durou até 1910.

 

A BORRACHA.

O modelo de exploração da borracha foi desenhado e imposto pelos países recém-industrializados, tendo a frente a Inglaterra, cujo sucesso nessa nova economia mundial dependia de combustíveis fósseis, de aço e de borracha. Eles então usaram suas minas de ferro e carvão mineral (combustível fóssil) para produzir aço, e precisavam da borracha amazônica, cujas notícias de abundância tinham chegado à Europa pelos relatos de centenas de expedições, desde a de Vincent Yanes Pinzón, em 1500. Para quem se interessar todas elas estão descritas no livro “Grandes expedições à Amazônia brasileira: 1500-1930” publicado em 2009 por João Meirelhes Filho com belíssimas gravuras da época.

O Brasil foi obrigado a aceitar o modelo de exploração e exportação do látex, uma determinação que incluía a migração obrigatória de nordestinos como mão de obra para os altos rios onde a Hevea era endêmica. A ameaça real era se repetir aqui, na longínqua e desprotegida Amazônia, o mesmo ocorrido nas três Guianas cujos territórios foram ocupados pela Inglaterra, Holanda e França. Em 1877, a grande seca incentivou a migração de milhares de nordestinos cujo trabalho elevou as exportações de borracha das poucas 3.000 toneladas/ano em 1890, para cerca de 21.000 toneladas como média anual entre 1891 e 1900.

Existem vários textos sobre a vida sofrida dos seringueiros nordestinos (arigós), porém a descrição mais emblemática foi feita por Euclides da Cunha que escreveu: “o nordestino é o homem que trabalha para escravizar-se”. O lucro advindo da borracha favoreceu muitas obras de infraestrutura em Manaus e Belém como água encanada, esgotamento sanitário, eletricidade para residências e iluminação pública, bondes elétricos, portos para navios de longo curso e de cabotagem, além de várias construções monumentais como o Teatro Amazonas em Manaus e o Teatro da Paz em Belém que são ícones da belle époque. Entre 1910 e a 2ª Guerra viveu-se um período de grande depressão com novo alento surgido por conta da barbárie da guerra, um ciclo que se fechou por volta de 1945. Estabelecida a paz, novo período de sofrimento amenizado com a ZFM, que é, tipicamente, um modelo emergencial não aproveitado pelos dirigentes, que passaram a viver o fausto de um polo industrial efêmero e que, além de sofrer ameaças constantes ainda repete a concentração de riqueza e a deterioração da condição humana de nossa gente. As ameaças ao modelo ZFM são graves, perenes e recorrentes, podendo a qualquer momento ocorrer um novo ponto de inflexão da economia amazonense na direção de um novo debacle, sem alternativa real. E daí…

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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