*Bruno Molinero

“É só realismo. A realidade é que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação”, costumava dizer Gabriel García Márquez (1927 – 2014) quando ouvia que “Cem Anos de Solidão” ou algum outro de seus livros eram classificados como realismo fantástico. Jornalista, ele gostava de mostrar que toda a imaginação de suas histórias tinham como pano de fundo os rumos políticos, sociais ou culturais da América Latina.

Corta para o Brasil.

“Já fui mais de cem vezes para a Amazônia, principalmente para o rio Negro. Nessas viagens, sempre sento para conversar com os ribeirinhos e escutar suas histórias, nas quais realidade e fantasia caminham juntas. Escrever sobre elas é parecer um realismo fantástico amazônico, mas aquilo é o próprio dia a dia da região”, fala Drauzio Varella.

Na mata, curupiras se misturam a madeireiros. Botos dançam nas festas das cidades. Onças e mulas-sem-cabeça assustam seringueiros. Como um rio que deságua em outro, lendas da Amazônia se diluem em notícias de jornal, formando um curso d’água em que todos estão inseridos. Como em uma Macondo real –a famosa cidade de “Cem Anos de Solidão”.

Um pouco dessa mistura está reunida em “Nas Águas do Rio Negro”, terceira obra infantojuvenil publicada por Varella, que será lançada neste sábado (29). Embora o médico e colunista da Folha seja mais conhecido pelo sistema prisional retratado em “Estação Carandiru” (1999) e “Carcereiros” (2012), suas publicações para crianças e adolescentes mostram um lado mais livre e imaginativo do autor.

Movimento que começou de forma ainda tímida com “Nas Ruas do Brás” (2000), em que relembra a infância no bairro paulistano –o livro faz parte da coleção “Memórias e Histórias”, da Companhia das Letrinhas, que convida sempre alguém para relembrar seus tempos de criança, como Bernardo Kucinski, Arthur Nestrovski eTatiana Belinky. Depois, foi a vez de “De Braços para o Alto” (2002), em que o narrador relembra férias de menino.

Já em “Nas Águas do Rio Negro”, acompanhamos o médico perdido na floresta por culpa do Curupira. Surgem passeios com uma mula-sem-cabeça, festa com botos no fundo do rio, uma cobra gigante e macacos que roubam seu boné. Tudo ilustrado por Odilon Moraes, que ajuda a contar a história sem usar nenhum tom de verde. E, mesmo assim, transporta o leitor para dentro da floresta e das lendas.

 

“A diferença entre escrever um livro para crianças e um para adultos é a liberdade. É entrar na água com um boto sem sentir falta de ar, por exemplo”, diz Varella, referindo-se a uma passagem do novo livro em que mergulha no rio Negro e conhece o reino desses animais. Cena que lembra a visita de Narizinho ao Reino das Águas Claras, em “Reinações de Narizinho”. “Verdade? Ainda não li esse livro do Lobato”, afirma.

Outra diferença é o tempo para finalizar a obra. Enquanto livros para adultos podem levar anos para serem escritos, Varella diz que terminou o infantil em uma semana. “Contava tanto as histórias para meus netos que elas estavam todas na cabeça. Continuo atendendo, visitando presídios, fazendo quadros na televisão, escrevendo a coluna da Folha. Então costumo escrever muito durante viagens. No aeroporto ou no avião.”

Foi assim também que finalizou “Prisioneiras”, livro que será lançado em maio e completa uma trilogia sobre o sistema prisional do Brasil ao lado de “Estação Carandiru” e “Carcereiros”. Desde 2006, o médico visita semanalmente uma penitenciária feminina em São Paulo, onde atende de 30 a 40 presas doentes. Da convivência, nasceu o novo título –escrito em uma viagem a Lisboa e entregue para a Companhia das Letras no final de fevereiro.

“Ele fecha a trilogia, é o último. Não tenho vontade de voltar ao tema das prisões. Talvez agora eu use o tempo livre nos aviões para ler. Principalmente os clássicos que ainda faltam.” Se sobrar tempo, uma das dicas é o próprio “Reinações de Narizinho”. Quem sabe daí não surjam mais ideias para novas histórias infantis?

O mateiro Luis corta palmeira da espécie Marajá ao lado do médico Drauzio Varella, em expedição à floresta amazônica para coleta de animais e plantas com fins farmacológicos

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 29/04/2017.
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