Devastação amazônica soma duas Alemanhas

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*Maurício Tuffani

Nos últimos 25 anos, enquanto a atenção do Brasil e do mundo sobre a Amazônia se concentrou no sobe e desce das taxas anuais de devastação, o desmatamento acumulado na floresta dobrou.

Hoje são 759,2 mil quilômetros quadrados, segundo dados do Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais). Essa extensão equivale à metade do Amazonas, ou, em números internacionais, mais que o triplo da área do Reino Unido ou o dobro da Alemanha. São 19% do total de 3,9 milhões de quilômetros quadrados da parte brasileira da floresta.

A devastação, no entanto, é maior. O número se refere apenas à supressão total da floresta, o “corte raso”. Não inclui áreas muito danificadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios do passado, segundo Dalton Morrisson Valeriano, gerente do Programa Amazônia do Inpe.

Em 1988, quando o corte raso acumulado chegou a 376,7 mil quilômetros quadrados, a Constituição estabeleceu a Floresta Amazônica como patrimônio nacional, cujas áreas teriam de ser utilizadas “dentro de condições que assegurem a preservação”.

Nessa época, a atenção internacional sobre a Amazônia alcançou seu auge. Em 1987, as queimadas na região impressionaram os tripulantes da estação espacial soviética Mir e, em seguida, a imprensa internacional.

O governo brasileiro passou a ser criticado até por líderes estrangeiros –como o presidente francês François Mitterrand – pelos incentivos fiscais para pecuária e mineração na região desde os anos 70.

Às vésperas da conferência Eco-92, da ONU, foi anunciada a taxa de desmatamento de 1991, a menor desde o início da medição em 1978. Mas logo atribuíram a redução ao desaquecimento da economia pelas medidas do governo Fernando Collor em 1990.

O corte raso na floresta voltou a crescer. E foi mais intenso em Rondônia, Pará e norte de Mato Grosso, com a expansão de áreas para criação de gado de corte e plantios de grãos, especialmente soja. Na conta da rentabilidade entrava também o baixo custo de terras na região, como ressaltou o relatório do Inpe do período entre 1995 e 1997.

Em 1995, a taxa de desmatamento saltou para o dobro da média dos anos anteriores: 29 mil quilômetros quadrados, o recorde de toda a série histórica, maior que Alagoas.

Era o início do governo de Fernando Henrique Cardoso, no ano seguinte ao fim das altas taxas de inflação. “Com a devastação nesse ano, a oposição entre crescimento econômico e proteção ambiental, já conhecida na teoria, ficou muito evidente na prática”, afirmou o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, professor emérito da USP.

Nos anos seguintes, as gestões de FHC e de seus sucessores petistas Lula e Dilma Rousseff investiram em sistemas de monitoramento e intensificaram a fiscalização.

Desde 2005, a curva de desmatamento se tornou predominantemente descendente, exceto pelo pequeno aumento em 2013.

 

*Colunista da Folha de São Paulo. Caderno Sustentabilidade 5, 5/06/2014.
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