‘De boas intenções …’

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A professora Ruth Cardoso na palestra “Cultura Brasileira: uma noção ambígua”, proferida em 1981, nos quadros do 11 Seminário da Cultura Brasileira, na Universidade de São Paulo, investiu contra a concepção de que Cultura é um fenômeno homogêneo, que seria capaz de encerrar em si um caráter nacional, caráter esse que teria seus alicerces na criação popular preservadas de fluências cosmopolitas. Esse equívoco perigoso, que carrega a herança do populismo fascista do Estado Novo, vicejou nos últimos anos nos planos do Ministério da Cultura, especialmente na desastrosa gestão do senhor Juca Ferreira. Felizmente, seja por incompetência ou inapetência, esse grotesco populismo foi se esvaindo em congresso e reuniões, elaborações de planos que já nasceram encruados, incapazes de sobreviver fora da incubadora populista. Esse namoro com o primitivo foi o paraíso de espertalhões coletivistas, que além de reconhecer e perseverar que por falta de talento jamais entrariam nos eixos, criaram uma reduzida casta de burocratas que amealhava todas as benesses financeiras. Esse populismo ridículo e intelectualmente indigente causou graves danos à cultura popular, adiantando muitas vezes o serviço que comumente está nas mãos da evolução das forças produtivas. Na Amazônia, o intervencionismo benevolente levou à extinção algumas cooperativas de artesãos, algumas vezes devido à intermediação de ONGs que administravam as verbas de patrocínio de forma suspeita. Isto sem falar na pueril visão de olhar as populações isoladas como desprovidas de dinâmica, o que incapacita esses agentes de separar conhecimento tradicional de superstições, pondo tudo num mesmo cadinho reducionista. Num Seminário de Cultura Amazônica, acontecido em Belém em 2009, um representante do Ministério da Cultura, jovem, falando com sotaque carioca, cabelos desgrenhados, calças jeans desbotada, camisa que parecia ter sido guardada numa caixa de fósforo e sandálias de couro, após falar meia dúzia de platitudes sobre a Amazônia, declarou que era a primeira vez que o Ministério da Cultura apoiava financeiramente um evento promovido por universidades, pois a prioridade era apoiar a cultura do povo, dos quilombolas, enquanto a cultura produzida pela academia era elitista, etc. Na plateia estava a nata da intelectualidade amazônica, que se entreolhava com ironia, enquanto o jovem derramava suas boas intenções ideológicas, E como sabemos, o inferno está pavimentado de boas intenções. No final, lembro que o filósofo Benedito Nunes foi abordado pelo burocrata, mas antes que este o obrigasse a ouvir mais platitudes, fez uma pergunta à queima roupa. Quis saber se o jovem embarcaria num avião fabricado pelo saber quilombola. Estou lembrando essas questões, porque espero que este ciclo de populismo militante esteja esgotado. O mais grave é que aqui no Amazonas, o populismo gerou uma cultura popular que sofreu uma dinâmica social pervertida, que fez as manifestações. folclóricas sofrerem uma mutação letal que as transformou em negócio, e negócio escuso, cujas origens estão lá atrás, nos anos 60, com a criação do Festival Folclórico. É ali que começa a falência das verdadeiras tradições, que estão preservadas na obra de Mário Ypiranga Monteiro, e tem início a máquina predadora de recursos públicos, com interface eleitoreira e sustentação no poder legislativo. Essa situação que vem se reproduzindo nas últimas décadas e estabeleceu a manipulação das manifestações culturais como um mero jogo especulativo, é necessariamente castradora da verdadeira criatividade do povo. Neste quadro, uma política cultural não pode existir e a cultura não se constrói. Por isso, o Amazonas que já foi conhecido como a terra de Djalma Batista, Cláudio Santoro e Thiago de Meio, hoje exporta rebolativas cunhantãs e curumins bons de porrada.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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