Crônica da avenida 15 de Novembro

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A avenida 15 de Novembro nasceu de um caminho estreito e pouco extenso, aberto em 1890, ligando o porto desta cidade à “estrada da Colônia” – a atual rua Álvaro França. Dois anos depois, com o início das obras do Cemitério Divino Espírito Santo, alargada e ampliada para cerca de 800 metros, ficou conhecida como a “travessa inominada que leva ao novo Cemitério”. Um decreto de 05 de junho de 1897, assinado pelo superintendente municipal Avelino Rodrigues, deu-lhe o título oficial que ostenta até hoje. Por essas razões e outras que adiante serão expostas, devemos comemorar, com ostentação e escancarada alegria, o 120º aniversário da popularíssima e mais freqüentada via pública de ltacoatiara, que transcorre neste histórico dia 15 de novembro de 2010.

Inicialmente desligada do projeto urbano da cidade, suas acanhadas feições só mudariam nas primeiras décadas do século 20. Seu primeiro prédio em alvenaria, o Palacete do Nicandro, construído em 1901/1902, deixou de integrar a paisagem local, pois foi criminosamente demolido em 1989. Para torná-Ia minimamente transitável, os serviços de roçagem e capinação de rua só se tornaram efetivos depois de 1945. Os de posteamento, fiação e instalação de luz elétrica; os de terraplenagem e capeamento asfáltico; e os de água encanada, somente a partir dos anos 1950. Até ali, a lata d’água na cabeça, a lamparina e o candeeiro a querosene marcavam o cotidiano de seus habitantes.

Esse logradouro público, desde muito, ganhou espaços na memória coletiva. Memória que tem o formato do inesquecível; que permite repassar aos mais jovens as histórias de ontem, contadas pelos que se foram.

Templo de exaltação ao amor e à saudade, sentimentos que fortalecem o coração e o espírito, aproximam e reconciliam os seres humanos. Memória, amor e saudade são prática recorrente dos moradores da avenida 15. Tal e qual um portentoso afluente amazônico, ligando horizonte  sul e horizonte norte, ela nasce na beira do Amazonas e desemboca no igapó da Cruz. Através de seu leito, milhares de pessoas de todas as origens, idades, raças e crenças, diariamente e de modo incessante, caminham em direção à orla do rio, à busca dos serviços do porto, das lojas e repartições do centro ou vão à procura de alimentos no Mercado Central e na Feira do Produtor; também se dirigem ao Cemitério para sepultar, velar e chorar os seus mortos – movimentação esta que, no Dia de Finados, ganha o formato de verdadeira procissão.

Do passado desta avenida restaram a lembrança e a saudade. Do seu presente, a honra e o orgulho. Relacionados a partir da orla do rio, estão entre seus antigos e atuais moradores: Mário Breves, Nicolas Lekakls, Newton Guimarães, Manoel Lelé, Fabrício Morais, Antonio da Feira, Antonio Manauense, Gilberto Xavier, Manoel Lamarão, Albano Rodrigues, Lucas Nascimento, Admir Cardoso, Donmarques Mendonça, Sebastião Pereira, Miguel Alves, Raimundo Nogueira, Abdon Mamede, Manoel Lobão, Chica Antonio, Geraldo Braga, Joaquim Marques, Adelino Amaral, Chico Cabeludo, dona Jovina (mãe do popular “Açúcar”). Pastor Raidno, Manoel Bentes, Farid Sêmen, Ruy Benaion, Antonio Serudo, Branca Benaion, Arthur Benaion, Bebé Moreira, dona Jandira, Luiz Pomar, Raimundinho Almeida, Zita Simões, José Gaveta, Roque Rodrigues, Paulo Nogueira, Francisco Acácio, João Costa, Pedro Alexandrino, Chico Chaves, Mário Nunes, César Garcia, Jorge Ramos, Agenor Alves, Milton Corrêa, Jose Gadelha, Abrahão Logayb, Lourival Barros, Nelson Von, Benjamin Barros, Heraclides Monteiro, Pedro Gomes da Silva, João Azevedo, dona Bitoca, Jose Inácio Arruda, Edgard Ferreira, Luiz Cursino, Neuza Cordovil, Pompílio Marques, Nildo Miller, dona Piquixita, Sidinho Ramos, Álvaro Figueiredo, Raimundo Gomes, Humberto Andrade, Chica Marques, dona Maria do Peba, Luiz Moreira, Carlos Corrêa, Paulino Gomes, Raimundo Cardoso, Eliezer Bananeira, Maurício Móca, Beto e Lucimar Alves, Vicência Carvalho, Antonio Lopes, Sales Almeida, Raimundinha Diniz, Valmir Barbosa, Oziley Catique, Geovane Rego, dona Maróca Arruda, José Calixto, Jose Viana, Pedro Calixto, os irmãos Sebastião, Jose Antonio e Pedro Nunes, Maria do Ceguinho, Elissandra e Manoel Oliveira, Júlio Nogueira, Chico Venâncio, Pedro Baturité, Jose Oliveira, Raimundo Viana, Frank Azevedo, Fernando Chaves, Ida Lúcia Silva, Orange Moura, dona Delzuita, Edson França, Suzete Neves, Agenor Oliveira, Margarete Frazão, 05 Irmãos Gedeão, Joel, Josué e Jorge Almeida, Bernardo Batista, Rita Chaves, Almir Barbosa, Jose Duarte, Fausto Carvalho, Zinho do Miloca, Edileuza Leitão, Orivaldo Zacarias e Sérvulo Guimarães. Homens e mulheres de várias profissões, pais e mães de família, filhos legítimos da terra ou adotados.

São pontos referenciais desta bela avenida, alguns encobertos pela fumaça do tempo, outros ainda vivos e atuantes: o Bar do velho Saraiva, o Posto da Estiva, o velho Mercado Central, o Pavilhão “Gonzaga Pinheiro”, a Saboaria “Santo Antonio”, a Juteira do J. B. Sabbá (atual Feira do Produtor), as boites “Rio” e do Cosme Rego, as barbearias “Dois Irmãos”, do Malagueta e do Jorge Almeida, a sede da Escola de Samba “Império da Colônia”, a Pizzaria “Big Pizza” (antiga residência do Lamarão e ex-Drogaria do Michele), a Praça da Polícia, o Bar Nogueira, o Luso Sporting Clube, o Nacional Futebol Clube, a Borracharia do Birita, a Faculdade “Pedra Pintada”, a Escola da dona Zezé Athayde, o Bar do Moisés, mais tarde Bar “Nó Cego”, o Educandário “Loid Moon”, a Cabana “Cabocla Mariana”, a Marcenaria do Bebé, a Alfaiataria do Antonio Serudo, o Cine Geny, a Mercearia do Agenor Alves, a Praça Orelana ou da Caixa D’Água, as funilarias do César Garcia e do Raimundo Cardoso, o Palacete do Nicandro, o Apertadinho Bar (onde, além da boa “gelada”, assiste-se futebol, via TV), a Seara do Paulete Gomes, a Taberna do senhor Móca, o Tacacá da dona Raimundinha, a residência do velho Pedro Gomes (visitada por Importantes figuras públicas, como os governadores Plínio Coêlho e Arthur Cézar Ferreira Reis), os cemitérios dos Judeus e do Divino Espírito Santo, a Fazenda do Jurandir Pereira, a Pedreira do Pedro Fernandes e o local de trabalho das lavadeiras no igapó da Cruz.

A Caixa D’Água da Praça Orelana deu sombra aos meninos ocupados em jogar futebol, bate-parede, botão e gude na década de 1960. Lá se fizeram presentes: Hugo e Hélio Alves, Fernando Chaves, Dinamérico Peixoto, Alberto Vilaça, Chico Manga, José Peixinho, Pedro e José Fernandes, Bernardo Almeida, Miguel Rebelo, Raimundo Simões, Valdomiro Trovoada, Homero Teixeira, Pedro Lima, Nazário Borges, Osmar Miller, Carlos Verçosa, Aluísio Borges (Pacú), Edson Benchimol, Cleber e Paulo Pereira e tantos outros bravos da geração dos anos 1940. Também ao redor dela houve muitas “batalhas” entre os rapazes do Jauarí e da Colônia, quando da malhação de Judas, aos sábados de Aleluia. Em defesa da 15 de Novembro lá estiveram: Edson Bocage, Bibito e Raimundo Balby, Valdir Trovoada, Daniel Rocha, Alexandre e Raimundo Gomes, Jorge e Zezinho Ramos, Quinzinho Teixeira, Nonato Moreira e João Catianga.  As moças de 1950 (1960, postadas na calçada do prédio do Nicandro, partilhavam de conversas inocentes e expressavam suas emoções. Lá estavam: Piquixita, Alzerina, Bolinha, Vida, Wanilda, Elba, Vilma e várias outras vizinhas. A época, as sessões de bang-bang do Cine Geny atraíam jovens espectadores vindos de todos os quadrantes da cidade.

É salutar a referência às pastorinhas apresentadas, nos idos de 1950, na casa de dona Raimunda Cardoso. E à reza do terço, reunindo as famílias. As festas juninas em louvor de Santo Antonio, São João e São Pedro eram marcadas por imensas fogueiras acesas em frente de todas as casas desta rua. Ao redor delas os comunitários se reuniam para conversar, cantar, soltar fogos de artifício, pular e passar fogueira, com farta mesa de guloseimas. Para animar ainda mais aqueles belos momentos, compareciam com freqüência os bois-bumbás de Ellezer Farias e Zé Barros, estes famosos repentistas e cantadores de belas toadas.

Via de regra, os moradores da avenida 15 sempre se pautaram pela alegria e a descontração. Até recente passado, as serenatas e festas dançantes em nossas casas eram prestigiadas pelos violonistas Luiz Pinga e Luiz Bacurau, os violinistas Luiz Gama e José de Souza Benjamin, os bateristas Jarbas Fona e Tonico Reis e o pandeirista Edson Peixoto, liderados pelos saxofonistas Roldão Alves, Zé do Icó, Doca Rattes e o mestre Agenor Alves, orgulho do nosso bairro, que repassou a seus filhos a tradição e o talento da música.

Atualmente, embora destituídas do entusiasmo de ontem, as festas juninas da avenida 15 têm sido prestigiadas pelo boi-bumbá Garantido (Coração Vermelho a partir de 2005). E as carnavalescas pelos Bloco da ABI, Bloco das Virgens (desde o início dos anos 1980), Bloco Amor e Cana (anos 1990) e a Escola de Samba Império da Colônia (desde os anos 1970).

Esses e outros fatos históricos, sociais e artísticos relacionados à rua onde nascemos ou vivemos, nos dão alegria e tristeza ao mesmo tempo. Ressoam uma trajetória sentida que, embalando a nossa infância e perpassando a nossa adolescência e a nossa maturidade, nos segue por toda a vida, nos trazem saudade, pesar pela ausência dos nossos entes queridos. Neste banquete solene expressemos o nosso amor à nossa terra-mãe, ajoelhemos e rezemos agradecendo a Deus por esse grande bem patrimonial que nos pertence, que é parte de nossas famílias: a gloriosa e tradicional avenida 15 de Novembro!

(Texto de Francisco Gomes especialmente para o dia em que se comemorou os 120 anos desse importante logradouro público de Itacoatiara, em 15/11/2010)

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