Chuva e sociedade

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Novamente as calamidades a que são submetidos periodicamente os chamados deserdados da sorte, servem para mostrar que a cidade maravilhosa não é tão maravilhosa quanto nos quer fazer crer a Rede Globo

De repente a intimidade da cidade maravilhosa fica exposta à contemplação e todo mundo vê ao vivo e a cores.

Do ponto de vista da Geografia Física deve-se esclarecer a população de que não devemos atribuir à natureza, no caso, à chuva, uma questão que é de inteira responsabilidade dos homens. A chuva não é responsável pelas calamidades públicas. A chuva atinge de maneira diferente as pessoas dependendo de sua condição social.

Em toda tradição cristã ocidental a chuva sempre foi considerada uma bênção de Javé. As chuvas sempre foram bem-vindas, pois elas trazem vida para os campos, para as fontes, refrigério para as florestas e para os animais e tantos outros benefícios para a natureza e para a sociedade. No Gênesis está escrito que no começo de tudo o espírito de Deus pairava sobra as águas. 

Também na tradição afro-ameríndia a presença de chuva, como também das outras águas doces e salgadas, é da mesma forma manifestações da bondade dos “deuses”, quer se chamem estes entes sobrenaturais Oxum, Iemanjá, Boiaçu e etc.

Na verdade, a chuva não pode ser culpada se uma minoria se apropria dos melhores lugares da terra e deixa à grande maioria os piores lugares para a moradia. A chuva não pode ser culpada pelo fracasso do BNH. São os governos que não têm tido competência e disposição para resolver o problema habitacional dos que ganham salário mínimo os verdadeiros responsáveis por essas tragédias que periodicamente atingem sobretudo os assalariados, e os sem salário, nas diferentes regiões do país.

Uma outra lição importante que podemos tirar é que a questão das desigualdades regionais não pode ser tratada corretamente apenas do ponto de vista das regiões geográficas. Fica claro que o nordestino expulso do sertão pelo latifundiário pelo fato de migrar para o Sul Maravilha não significa que mudou sua condição de explorado.

A questão das desigualdades regionais, das peculiaridades de cada região não podem ser buscadas apenas nos elementos da natureza: clima, vegetação, estrutura geológica e etc. O correto entendimento de uma região começa a partir da identificação da pessoas, instituições e elementos que compõem as classes sociais de uma região. A partir disto o importante é reconhecer o tipo de relações que se estabelecem entre as classes sociais das diversas regiões.

Historicamente as relações da Amazônia com as outras regiões do sistema sempre foram altamente desvantajosas para sua população. Estas relações sempre foram feitas através dos elementos da natureza e que determinaram momentaneamente a sua vocação, todas elas ligadas ao extrativismo: as drogas do sertão, as gomas elásticas, a vocação madeireira, a vocação agropecuária e, na atualidade, a vocação mineral.

Todas essas vocações têm por base a Geografia exposta por Karl Ritter, aquele pastor protestante para o qual cada lugar do mundo teria uma vocação determinada por Deus e que caberia aos geógrafos descobrir esta vocação e segui-la. Na verdade, isso parece aquela pessoa desajustada que ao longo de sua vida vai fazendo as mais diversas experiências e chega a velhice e descobre que a “a vida é uma paixão inútil”.

Na verdade, a Amazônia já está chegando à exaustão. Segundo alguns cientistas, é questão de mais 35 anos. Mas será que temos uma classe dirigente tão impatriótica que continuará incentivando a destruição da floresta, a poluição dos nossos lagos colocando em risco a sobrevivência das gerações futuras?

O povo na sua sabedoria tem se mostrando muito mais inteligente do que as classes dirigentes. Já que a classe dirigente não teve nenhuma proposta de desenvolvimento capaz de superar o extrativismo, o povo através do seu legitimo representante Chico Mendes propõe as reservas extrativistas. Nada mais justo e sábio pois que toda produção geográfica dos amazonólogos foi e é um discurso ideológico que serviu e serve para legitimar o colonialismo através do determinismo geográfico. O Rio comanda a Vida é o exemplo mais típico.

Na verdade, as nossas atividades produtivas têm sido comandadas por interesses econômicos que estão bastante longe da nossa região. Plantamos juta, não é porque temos as várzeas, mas porque foi o que restou para nós na divisão regional do trabalho. Produzimos radinhos de pilha no Distrito Industrial, não é porque temos ouvido para escutar lambada e carimbó. É porque a nossa classe dirigente não incentiva o cultivo do arroz, do feijão, do milho, da mandioca, das hortaliças e etc…

Prefere dar incentivos para os de fora vir aqui nos explorar. Hoje o poder local necessita de um discurso novo para legitimar a intervenção do Estado e do grande capital através dos incentivos fiscais.

Mas o poder central não encontra estes novos porta-vozes, pois que os amazonólogos não reciclaram o discurso do determinismo geográfico e os aparelhos ideológicos novos já nascem envelhecidos, como foi o caso do Isea, que deveria substituir o IGHA na função ideológica de legitimar a era dos incentivos fiscais com a ideologia do desenvolvimento, mas o Isea não foi capaz de exercer essa função ideológica nova.

Consequência disso tudo é a intervenção brutal do poder central na região. Como as instituições criadas pelo poder para lhe dar legitimidade não têm sido capazes de exercer esta função daí a extinção pura e simples de todas elas. SUDAM, SUFRAMA, e OTCA se não mostrarem competência terão o mesmo destino da SPVEA.

“A OTCA” em Brasília não está nem aí para suas bases não se sabe nem quem é o representante brasileiro na OTCA. Mas nos consola que teremos mais 50 anos para prolongar a agonia da Zona Franca. A SUDAM teve alguns ataques cardiovasculares, mas ainda está conseguindo sobreviver. Até quando?

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Roberto Monteiro de Oliveira
Natural de Manaus, AM. Licenciado em História pela FSFCLL/SP. Mestre em Geografia pela UNESP. Doutor em Geografia pela USP. Analista de C&T do INPA.

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