Capitalismo: desfigurando e desqualificando os Povos

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Retomando uma prática dos conquistadores na antiguidade clássica que impuseram o grego e o latim para dominar as populações dos territórios conquistados, os portugueses proibiram o uso das línguas faladas pelas diversas nações indígenas obrigando os jesuítas a substituir o ensino do nheengatu pelo ensino da língua portuguesa, inclusive, o Marquês de Pombal ordenou a substituição dos nomes indígenas das localidades aqui existentes por nomes portugueses. Assim temos que a capital da província já substitui o antigo nome Mariuá por Barcelos.

Dando continuidade a esta prática foi o próprio governador Joaquim de Mello e Póvoas que em suas viagens deu novos nomes para antigas aldeias indígenas:

“…fui antigua Aldeia doz Abacaxiz aqual está mudada pa Itacutiara, …e a Eregi emnova Va de Serpa,…” “Passey também a antigua Aldea de Saraca, e a eregy em nova Villa de Silvez,… “e mandei o Capitão Engenheiro “riscar a Situação da Praçaz, e … Cazaz detodos os Moradorez”. “Segundo as Ordens de S. Mage …Eregi em Villa de Ega esta, Aldea de Thaphé…”

“O Lugar de Alvaraes achey… muito bom, … com os Dessimentos … “tenho”… esperancas, q. venha a Ser hua grande Povoação”. “…achei novamente mudado oLugar de Fonteboa, enão gostey nada daa Situação emq. Estava…”

Na aqntigua Aldeya de S Paullo criey anova Va de Olivença, também nesta Va não achey Farinhas;…”

“…cheguey ao Javary, e… medesconsolou muito omau Sítio emq. Está estabelecida aquella Povoação, … e criey anova Villa de S. Jozé do Javary,…”

“Estez Moradores também não uzão de Farinha, nem … Macaxeira; … Sustentandose de frutaz do mato, epacovas aSadas q. … Serve depão”. (Universidade do Amazonas. CEDEAM. Cartas da Primeiro Governador da Capitania de São José do Rio Negro, Joaquim de Mello e Póvoas (1758-1761). p. 33).

Admite-se que o idioma de um povo é um dos elementos constituintes de sua própria identidade e naturalidade. Expropriado de sua própria língua um povo perde sua identidade, pois perde o seu instrumento principal de comunicação coletiva. Nesse sentido Pierre Bourdieu afirma: “o que fala nunca é a palavra, mas toda pessoa social”.

A espoliação capitalista não se contenta em expropriar a cultura material dos povos, mas arranca-lhes seus traços psicológicos de expressar a sua identidade e impõe-lhes com o discurso do desenvolvimento, do moderno, do avançado as suas práticas nefastas desqualificando valores, conhecimentos e a sabedoria tradicional dos povos. O idioma, as artes, a música, as manifestações folclóricas enfim toda as manifestações de cultura dos povos são desqualificadas e impostas novas manifestações ao gosto dos dominadores.

Impedir um povo de expressar o que pensa através de seu próprio idioma, impedir um povo de construir e exprimir seus raciocínios de acordo com as regras gramaticais de sua própria língua é a tortura mais execrável que se pode cometer contra um povo pois que cruelmente mutila a pessoa de sua própria razão e a emudece para sempre.

Os indígenas do Brasil e da Amazônia foram impedidos de escrever a própria história e com isso perderam a memória coletiva de seu passado criando condições para serem tutelados o que lhes tem impedido de assumir e programar o próprio futuro.

A colonização portuguesa no Brasil e na Amazônia foi um processo conflituoso que envolveu a interação e a comunicação do Estado português plenamente instituído em Lisboa e com seus prepostos nas colônias, e as nações indígenas amazônicas iniciando seu processo de desenvolvimento e integração à sociedade capitalista, ainda no estágio de tribos isoladas e independentes aqui na Amazônia.

Na verdade, na Amazônia foi negado às nações indígenas o direito humano fundamental e indisponível ao desenvolvimento. São nações abortadas pela civilização cristã ocidental que lhes negou desde os primórdios de sua formação o direito à autodeterminação dos povos.

O primeiro governador Mello e Póvoas foi categórico; “O meyo mais eficaz e prompto para Seintroduzir nos habitantes desta Capitania civilização deque tanto carecem hé o Cazarem os Soldados Com as índias[…] e a frequência das escolas emque aprendem os pequenos não Só a ler, escrever, e contar, mas tão bem a Língua portuguesa”. (”. (Universidade do Amazonas. CEDEAM. Cartas da Primeiro Governador da Capitania de São José do Rio Negro, Joaquim de Mello e Póvoas (1758-1761). p. 3.

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Roberto Monteiro de Oliveira
Natural de Manaus, AM. Licenciado em História pela FSFCLL/SP. Mestre em Geografia pela UNESP. Doutor em Geografia pela USP. Analista de C&T do INPA.

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