Brad Pitt e Gisele: feios

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*Antonio Prata

O rico velho, se souber aplicar o dinheiro, fica mais rico, mas não existe aplicação para a beleza. 

Vira e mexe o dinheiro toma na moleira: é o pai da desigualdade, mãe da injustiça, filho da ganância, irmão da discórdia, tio do ressentimento, primo (por afinidade) da desilusão – e paro por aqui a genealogia, pois ao contrário dos americanos, não sou pago por palavras. Anarquistas e socialistas utópicos quiseram abolir o dinheiro, Thomas Morus, em 1516, já descrevia sua Utopia como “Um lugar onde ninguém possui nada, mas todos são ricos” e tenho certeza de que algum grego cuja parca erudição deste cronista não alcança deve ter sugerido que se todas as dracmas fossem doadas a Poseidon, no fundo do mar Egeu, um sol eterno brilharia sobre a pólis.

“Tá legal, eu aceito o argumento” -como diria o poeta que também cantou “Dinheiro na mão é solução/ E solidão”-, mas ouso afirmar que há um outro ativo muito mais injusto, pernicioso e mal distribuído a fustigar nossa miserável humanidade: a beleza.

A beleza é congênita, aleatória e não meritocrática. Num país minimamente igualitário (não me refiro ao Brasil, claro), um pobre que se esforce bastante tem chances de acabar rico. Já um bebê que vier ao mundo com nariz de Nosferatu, orelhas de Dumbo e dentição do Shrek vai morrer tão feio quanto nasceu. Não, minto: muito mais feio do que nasceu. O estado de bem-estar social, a ONU, George Soros ou o Medicina Sem Fronteiras são impotentes diante do feio. Tenho amigos ricos a quem posso pedir dinheiro emprestado, mas aos meus amigos bonitos eu não posso pedir por uns meses, com juros e correção monetária, um portentoso maxilar. Se houvesse uma loteria da beleza, deixaria no chinelo as filas da Mega Sena acumulada.

O cineasta Luis Buñuel começa sua autobiografia dizendo que ao chegar aos 80 sentiu uma paz inédita. A partir dali, ao cruzar uma mulher deslumbrante, seguia impávido: estava livre da beleza. Uma mulher ou um homem belos caminham pela terra a espalhar sofrimento: angústia nos que não podem tê-los, inveja nos que não podem sê-los. São como pequenos tornados provocando, por onde passam, inundações de neurotransmissores.

Ao contrário do dinheiro que, durante o século 20, aos trancos e barrancos, aqui e ali, foi sendo mais bem distribuído, a beleza concentrou-se. Antes das revistas, do cinema, da televisão, da internet, a mais bonita do vilarejo era a mais bonita do mundo. Cada cafundó tinha seu Brad Pitt, sua Gisele. Chineses se mediam pelos padrões chineses, Yanomami pelos padrões Yanomami, congoleses pelo congolês. Agora todo mundo é feio, ó o Brad Pitt e a Gisele é que não.

Pior, mesmo o Brad Pitt e a Gisele são vítimas do esteticismo selvagem: a cada dia que passa, a cada hora, a cada minuto, se afastam do Brad Pitt e da Gisele que foram. O rico velho, se souber aplicar o dinheiro, fica mais rico, mas não existe aplicação para a beleza. (Bem, existe aplicação de botox, mas é temporária). Hoje, Sophia Loren é feia. Axl Rose é medonho. Marlon -Coronel Kurtz- Brando, gordo e careca, perdido nas profundezas do Camboja, já estava próximo do Apocalipse: “O horror! O horror!”.

Aí vem o século 21, império do Photoshop e chegamos à miséria absoluta. Até o ser humano considerado mais belo só será belo nas fotos, com filtro, na tela de um celular. Concentramos tanto a beleza que acabamos por extingui-la – o que não deixa de ser, de um modo estranho, certa forma de justiça.

*Escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano B2, de 05/11/2017.
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