Ultimamente, entre sexta-feira, 29 de abril, e segunda-feira, 1º de maio, o historiador Francisco Gomes da Silva e sua esposa Fátima estiveram em Itacoatiara, onde cumpriram uma agenda de visitas e comemorações repetindo, aliás, uma tradição de muitos e muitos anos. Abstraídos os passeios pela cidade, os encontros com familiares e amigos e as solenidades religiosas na Catedral, dois agradáveis acontecimentos mexeram com a alma e o coração de ambos. Sim, na manhã do dia 30 (domingo) visitaram o ‘Banho do Jordão’; e à noite participaram de uma festa dançante sob os acordes dos cantores Natinho do Mureru e Antônio Batista, filhos da terra, amigos do casal e, sem dúvida, duas das maiores expressões da música popular amazonense. 

Sem esquecer que, às 14 horas do mesmo dia 30, Francisco Gomes interagiu durante cerca de duas horas com os dois sensacionais cantores itacoatiarenses, no programa cultural da Rádio Difusora de Itacoatiara (emissora desse outro notável ‘serpano’ Cleuter Mendonça), que alavanca na cidade a audiência radiofônica de todos os domingos. 

A festa foi em homenagem ao Dia do Trabalhador, teve o patrocínio da Associação Comercial, pré-show da Banda Água Doce e direção central do Grupo Correnteza. Traduzindo música e poesia, foi um momento único. Uma beleza! Dois cantores notáveis revezando-se continuamente, das 22 horas até à madrugada seguinte, permitindo o desfilar pelo salão superior do excelente edificio Bela City Center dos casais Gomes-Fátima, Zé Batista-Lia, Cardovan-Rosa, Elias-Graça Melo, Firmino Rosas-Marlene e tantos outros amigos. O sensacional da noite foi quando Natinho interpretou o poema “Pedra Pintada”, escrito pelo poeta Alírio Marques e musicado por José Rolim – tudo buona gente da Velha Serpa, – seguida de “Raizes”, outra maravilhosa peça poética cantada por seu próprio autor Antônio Batista. Coisas que só a gloriosa Cidade da Pedra Pintada pode oferecer… 

Puro encantamento – para quem já estivera na manhã desse mesmo dia no paraíso silvestre “Banho do Jordão”, do notável cientista e grande pesquisador amazonense, filho de Maués, Francisco Orlando Jordão, situado à margem do Rio Caru, há cerca de trinta minutos de Itacoatiara. Biólogo, com 35 anos de experiência profissional, Jordão é ex-servidor da antiga EMATER-Am por onde se aposentou, ex-secretário municipal de Agricultura de Itacoatiara, e hoje exerce atividades como produtor rural desenvolvendo trabalhos na área de fruticultura agroecológica e turismo.    

O “Banho do Jordão” é um local onde ainda se respira ar puro, pode-se trafegar entre árvores nativas e frutíferas e navegar sobre águas cristalinas. O Caru corre paralelo ao Rio Anebá; ambos piscosos, desaguam no famoso Rio Urubu e guardam em suas margens vários sítios arqueológicos. Há milênios, a região foi um reduto dos índios Anibá (ou Anebá), povos de língua Aruak procedentes das regiões fronteiriças de Venezuela e Colômbia. Eram inimigos ferrenhos dos índios Aroaqui, que infestaram grande parte do alto e médio Urubu, e com eles estavam sempre guerreando. Infelizmente, não há mais resquício de nenhuma dessas tribos. Nos séculos 18/19 foram trucidadas impiedosamente por genocidas europeus e/ou vitimadas por doenças vindas de fora. 

Pois foi nessa mitológica área rural da região de Itacoatiara que nosso amigo Jordão foi estabelecer sua propriedade, não somente com o interesse de explorá-la economicamente, mas, como é de seu feitio, transformá-la num reduto de pesquisa e experimentação agrícola. Lá, ele, a esposa Fransineti, seus filhos e netos, mantêm uma excelente área de lazer para onde, nos finais de semana e dias feriados, afluem visitantes, técnicos e curiosos, aos quais disponibiliza a boa comida, o passeio fluvial, as caminhadas pela floresta – tudo a um preço módico, além do bom papo e das lições de ecologia que só ele – o bom Jordão – é capaz de direcionar àqueles felizardos que ali comparecem. 

Francisco Gomes voltou dali sumamente impressionado com o que viu e ouviu. E emocionou-se com a entrevista que manteve com o neto do seu amigo Jordão – o jovem Víctor João de Santana, nascido em 26 de outubro de 1996 – portanto, com pouco mais de 20 anos de idade – acadêmico do Curso de Tecnologia em Construção Naval da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

Graduandos do Curso de Tecnologia em Construção Naval da UEA: da esquerda para direita – Víctor Jordão de Santana, Tannuzya Oliveira Alves, Jorge Eduardo da Silva, Sávio Silva, Kese Magalhães, Valdeney Brasil  e Eligelson Vilaça.

Víctor e mais seis colegas de curso são autores de um revolucionário projeto, idealizado como alternativa para a navegação nos rios amazônicos, tendo como marca registrada a segurança. Trata-se do Hovercraft da Amazônia, o primeiro modelo anfíbio de embarcação construído na região para o transporte de passageiros. Também conhecida como aerodeslizador, tal embarcação difere das que navegam frequentemente pelos rios da região. Construída com alumínio, é composta de fibra e resina. A proa é apoiada num colchão inflável mantido por compressores e possui hélice, assim como os aviões. Com 24 metros de comprimento, é capaz de mover-se sobre a água e se deslocar em terra firme, por isso é perfeitamente adaptável ao período de vazante. 

Segundo o coordenador do curso de Tecnologia em Construção Naval da UEA, Alex Monteiro, o modelo hovercraft já é utilizado em diversos países do mundo, sendo considerado um meio de transporte seguro, além de possuir velocidade superior aos demais veículos aquáticos existentes, diminuindo, assim, o tempo de viagem. 

O coordenador, que é tecnólogo em Operação e Administração em Sistema de Navegação Fluvial, especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho, e mestrando em Engenharia Naval e Oceânica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que esse tipo de embarcação possui aplicações em manobras militares, práticas esportivas, diversão, transporte de passageiros e também para uso comercial em muitos países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Bélgica e Escócia. 

Conforme texto a respeito, publicado na Revista CREA-Amazonas, edição número 6, referente aos meses de janeiro/março de 2017, “primeiro hovercraft construído no País, para fins de transporte de passageiros, comporta 140 pessoas e pode se deslocar a uma velocidade de até 80 km/hora. Em uma hora de viagem consome 300 litros de óleo diesel.” Artigo recente sobre “A Viabilidade do Transporte Aquaviário de Passageiros por meio do Hovercraft da Amazônia, foi apresentado no 26º Congresso Nacional de Transporte Aquaviário, Construção Naval e Offshore, no Rio de Janeiro, mostra outros benefícios da embarcação. A orientação foi do professor Alex Monteiro. Uma das vantagens apontadas foi o fato do modelo possuir extensão suficiente para acomodação de poltronas largas e reclináveis com um maior espaçamento entre elas, pois necessita de uma grande área para baixar a pressão do colchão e garantir boa estabilidade. Essa situação não acontece no caso de embarcações convencionais, que possuem dimensões restritas para acomodação dos passageiros, por terem uma área de arraste reduzida para evitar o atrito com a água”. 

Outro aspecto a ser considerado, conforme o graduando do curso de Tecnologia da UEA, Victor Jordão de Santana, autor do artigo, “é a alta velocidade atingida, que permite um tempo menor de viagem, enquanto que a velocidade média de um barco convencional de transporte de passageiro não ultrapassa os 48 km/hora, prolongando o tempo e viagem. Além disso, como o casco rígido não navega em contato com a superfície da água, e sim, apoiado no colchão de ar, a resistência ao avanço é reduzida de maneira considerável, fazendo com que o impacto na água praticamente não seja sentido pelos passageiros”. 

Como vêem, o jovem itacoatiarense Víctor Jordão de Santana promete muito. É uma esperança que se fortalece. Boa e grata esperança do Amazonas que um dia será forte.

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