As festas de ano novo

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“Verdade é que, de tempos em tempos, essas festas foram sendo modificadas. Em Manaus, então, nem se fala. Houve época em que, à meia-noite do último dia do ano era comum o soar dos sinos das igrejas e das sirenes de todas as fábricas e navios ancorados no porto …” 

O dia consagrado ao Ano Novo decorre de imposição de um rei de Roma e de uma determinação papal. Vem de há muito que o dia 1 o de janeiro é a data do ano bom e abre o calendário civil, tal como fixado pelo imperador Júlio César em 46 a.C., e mais tarde foi promulgado pelo Papa Gregório XIII com a bula “Inter gravíssimas”. E desde então vem marcando o ritmo e as relações de todas as nações do mundo, muito embora em alguns lugares e por diversas crenças, haja outros dias com essa característica.

Nas nações europeizadas a tradição tem sido observada com rigor, e terminou por ser institucionalizada. Por isso, todos os povos festejam o novo sol no mesmo dia. Cada qual conforme os seus costumes, a servir de motivação P31ra quantos se arvoram a conhecer modos diferentes de vida. No Brasil, o longo dos anos essas comemorações ganharam ares e formas as mais diversas, desde os passeios largados pelas ruas das cidades até os grandes festejos nas praias de Copacabana e da Ponta Negra, ao badalar ressoante de verdadeiras alvoradas festivas.

Verdade é que, de tempos em tempos, essas festas foram sendo modificadas. Em Manaus, então, nem se fala. Houve época em que, à meia-noite do último dia do ano era comum o soar dos sinos das igrejas e das sirenes de todas as fábricas e navios ancorados no porto. Em outras épocas dava-se a explosão de fogos de artifício nos céus e o povo saía passeando, cantando e dançando pelas ruas, livremente, ao som dos alto-falantes superpotentes que as emissoras de rádio costumavam dependurar nos postes para ajudar na animação. Tempos depois passou a ser a vez das aberturas dos bailes carnavalescos nas sedes dosclubes sociais. Os “réveillons” à fantasia, em traje de gala ou “nuitblanche” que embalavam os encantos das damas da alta sociedade e o sonho da juventude que aguardava ansiosa a hora certa de vestir o traje elegante para o primeiro baile à rigor.

Nos clubes Rio Negro, Ideal, Nacional, UniãoEsportiva, Luso, Olímpico, Barés, Cheik, Sírio Libanês, Bosque, Beasa, Bancrévea, AABB, São Raimundo, Sul América, Fast, União de Constantinópolis, ou fosse onde fosse, havia sempre um calendário de festas de carnaval que davam o que falar e animavam a rapaziada, muitos delescomeçando a ferver logo ao romper do novo ano. O que sucedia de verdade era o povo caindo na

folia para festejar com samba no pé ou ao som das marchinhas tradicionais, a chegada de uma nova era, em meio à folia e brincadeira.Parece que, sempre do sempre, o brasileiro procurou esquecer a vida dura do passado, depositando energia e confiança no ano novo, e esquecendo que tudo isso é apenas uma simbologia.

Um versejo antigo que deve ter sido bem conhecido de nossos avós parece melhor traduzir esse sentimento do falso ano novo que costuma renovar a própria vida em cada um de nós, somente porque o ano começa, e com tal poder e magia que sepulta as tristezas de lado e ergue torres de euforia, como se o mundo fosse recomeçar.

Diziam os antigos tal qual o jornal de 1910 repetiu na distante cidade de Lábrea: “vem o ano … vai o ano … sempre o homem nesse engano!”, a demonstrar com precisão de sabedoria popular que é sempre certa, que os desejos ardentes de que tudo passe a ser diferente, pode até ser um engano … mas não custa nada sonhar.

Eu também quero um ano cheio de mais amor e graça, que me encante e me faça sonhar, traga saúde e sucesso, e, antes de tudo, me ensine a viver e a amar a vida ainda mais, me ajude a ser um homem melhor, e não me engane … nem roube de mim a esperança. Eu, que tenho a rosa mais bela do mundo.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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