Antonio Candido foi o último dos grandes intérpretes do Brasil

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*Manuel da Costa Pinto

Crítico literário e sociólogo, professor universitário responsável por implantar o ensino de teoria literária na USP e formar mais de uma geração de críticos e teóricos, intelectual militante que sempre se declarou socialista, Antonio Candido, que morreu na madrugada desta sexta-feira (12), em São Paulo, publicou, em seus 98 anos, inúmeros ensaios reunidos em diferentes coletâneas, além de livros que abordam autores e temas específicos —como Graciliano Ramos (objeto dos textos publicados em “Ficção e Confissão”) ou as transformações da vida do caipira paulista (assunto de sua tese de doutorado em ciência sociais, “Os Parceiros do Rio Bonito”, defendida em 1954).

Se fosse necessário, entretanto, eleger uma obra que condensa seu pensamento crítico, não haveria dúvida: trata-se de “Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos”, estudo elaborado entre 1946 e 1957, publicado em dois volumes em 1959 e, após várias reedições, reunido num único tomo pela editora Ouro sobre Azul, em 2006.

Não é exagero algum dizer que “Formação…” encerra o ciclo de grandes ensaios de interpretação do Brasil empreendido por Gilberto Freyre (“Casa Grande & Senzala”,1933), Sérgio Buarque de Holanda (“Raízes do Brasil”, 1936), Caio Prado Jr. (“Formação do Brasil Contemporâneo”, 1942) e Celso Furtado (“Formação Econômica do Brasil”, 1959). A simples inclusão de Antonio Candido nesse rol de pensadores indica sua importância —com a recorrência do conceito de “formação”, nos títulos de duas dessas obras, sublinhando a mesma preocupação teórica. Mas há duas diferenças fundamentais.

A primeira, de caráter disciplinar e metodológico, é que seu ponto de vista não é culturalista (Freyre), sociológico (Buarque de Holanda) ou socioeconômico (Prado Jr., Furtado), mas literário. Antonio Candido examina os “momentos decisivos” —a saber, arcadismo e romantismo- em que a produção ficcional e poética brasileira se empenha no projeto de constituir uma literatura nacional. Algo que só poderia ocorrer mediante a instauração de um “sistema literário”, segundo expressão sua, que ao mesmo tempo condiciona objetivamente e possibilita tal projeto (na forma de um circuito interligado de autores, obras e leitores) e é por este potencializado (na forma de uma produção que pensa a criação e a continuidade de uma tradição nacional).

A segunda diferença -muito menos notada, porém salientada por Roberto Schwarz em “Os Sete Fôlegos de um Livro” (ensaio sobre “Formação…” incluído no livro “Sequências Brasileiras”)- é que, enquanto seus pares pensavam a formação como fenômeno incompleto, cuja organicidade só adviria com a superação da herança colonial e da dependência econômica, Candido deu essa formação por concluída já no século 19. Ao justapor um sistema literário orgânico e funcional a um substrato socioeconômico inorgânico e disfuncional, Candido deixou um rastro de possibilidades interpretativas que respondem às principais objeções feitas a “Formação…”.

Longe de ser um livro de caráter evolucionista, ou que pensa a literatura em termos de uma teleologia ou destinação —no qual aquilo que não se encaixa no recorte formativo teria de ser excluído, conforme sugere Haroldo de Campos ao questionar o “sequestro” dos barrocos Antonio Vieira e Gregório de Matos na “Formação…”—, Candido evita justamente o anacronismo de considerar “nacional” aquilo que se passou, em termos históricos e de mentalidade, muito antes de que existisse uma ideia de nação.

Além disso, as análises de obras e autores específicos por Antonio Candido, que ocupam cerca de 700 de suas 800 páginas (na edição em volume único), muitas vezes são colocadas em segundo plano pelos leitores, atentos apenas às seções iniciais, metodológicas, em que se explica a dinâmica de um sistema literário que vai encorpando o processo formativo da nação e da literatura nacional. No entanto, é em tais análises que Candido (1) desvela a maneira como a questão formativa entrou na pauta de poetas e intelectuais e (2) mostra como, ao contrário da visão dos românticos -que enxergavam nos árcades um classicismo artificial, de empréstimo-, estes configuraram uma particularidade nacional até mais “autêntica” do que a cor local dos românticos, que respondiam a expectativas europeias (Candido lembra que o indianismo teve no francês Ferdinand Denis seu modelo imediato).

A ideia de que a formação seja um conceito abstrato e nacionalista, portanto, soçobra diante da verificação objetiva de que a “literatura empenhada” foi um fato, uma preocupação que imantou a produção literárias desses períodos -e não um juízo de valor, como o autor assevera no prefácio à segunda edição da obra. E seu suposto evolucionismo, igualmente, não resiste ao confronto com as análises que expõem o modo como, ao plantarem a literatura do Ocidente no Brasil, os árcades cunharam uma sensibilidade tão brasileira quanto o exotismo romântico posterior -contradizendo a hipótese de que o livro seja prisioneiro de uma visão linear.

A partir de “Formação da Literatura Brasileira”, podemos identificar um método crítico que é materialista, mas não determinista, e que Antonio Candido expôs, com sua habitual clareza, no “Memorial do Candidato” que apresentou no concurso para professor titular de teoria literária na USP, em 1974. Nesse documento, que permanece inédito, ele sintetiza as linhas de um trabalho teórico já em ação nas “Notas de Crítica Literária” publicadas semanalmente na “Folha da Manhã”, como “crítico titular”, e parcialmente reunidos em seu primeiro livro, “Brigada Ligeira” (1945): “O esforço básico tem sido, desde que as posições teóricas e a prática adquiriram certa maturidade, reconhecer três momentos válidos na atividade crítica: enfoque do texto em sua autonomia relativa; consideração dos elementos de personalidade e sociedade; tentativa de estudar estes, não como enquadramento ou causa, mas como constituintes da estrutura. O candidato tem passado pelos três, com inclinação crescente pelo último, que parece permitir o tratamento específico do texto, enquanto sistema que se pode abordar em si mesmo, permitindo ao mesmo tempo manter o interesse pelos aspectos pessoais e sociais, quando for o caso.”

Apesar da profissão de fé desse ateu declarado, fixou-se em Antonio Candido a imagem de um crítico de feição sociológica (o que não deixa de ser verdade) que colocava em segundo plano a autonomia do artefato estético (o que é um equívoco de leitura dos mais eloquentes). Ciente disso, em diferentes momentos de sua obra, incluindo aulas e conferências, Antonio Candido iria reiterar sua preocupação em examinar, no texto literário, o modo como “o ‘externo’ (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se portanto, interno'”, como ele escreve em “Crítica e Sociologia” (ensaio do livro “Literatura e Sociedade”, 1965).

Longe de conferir um significado fechado à obra literária, pacificando a leitura e neutralizando o papel perturbador da literatura (aquele “desassossego” da atividade crítica descrita em “Timidez do Romance”, do livro “A Educação pela Noite e Outros Ensaios”, de 1987), Antonio Candido elegeu como tema de seus ensaios justamente aquelas obras que trazem uma “intuição da dinâmica social do Brasil” -uma intuição cuja eficácia está na “capacidade de criar formas pertinentes” (dirá ele em “O Direito à Literatura”, em “Vários Escritos”, de 1970), como a “dialética da ordem e da desordem” entrevista no romance “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida (tema do ensaio “Dialética da Malandragem”, de “O Discurso e a Cidade”, 1993).

São escolhas de um crítico que identificou, em sua obra máxima, o sistema literário de um país que não realizou (e talvez nunca realize) a plena integração de suas partes – e que por isso melhor se expressa justamente nos livros e nos autores que incorporam essa precariedade e essa falta de organicidade. Último dos grandes intérpretes do Brasil, Antonio Candido foi o pensador de uma literatura em tempos de indigência – uma indigência que parece intrínseca e que ele não cansou de combater, em sua militância política e em sua militância universitária.

*Jornalista. Escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada de 12/05/2017.
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