Alternativa Alter do Chão

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*Zeca Camargo

Diante de mim, estava a ilha do Amor; nem quis saber se era nome oficial ou apelido: apaixonei-me na hora.

“Não aguento mais, viu, pra mim essa cidade já deu.” Escuto isso nas primeiras horas do dia pegando um voo para Brasília, a caminho de um lugar que, se o viajante que disse a frase acima -enquanto esperava na vagarosa fila do raio-x do aeroporto para ouvir a inevitável pergunta: “Tem laptop na bagagem de mão, senhor?” – conhecesse, certamente não reclamaria tanto do seu cotidiano.

Ali, onde eu estava prestes a chegar em apenas algumas horas -longas e penosas, posto que transcorreriam em plena madrugada – encontra-se a solução para qualquer estresse de quem mora numa metrópole.

Um lugar que sugere a possibilidade de uma vida alternativa até mesmo no nome: Alter do Chão.

Fui a Santarém, no Pará, convidado para falar num evento de turismo. Conheci a cidade numa passagem esquecida dos tempos de mochileiro -anos 1980.

Porém, se a memória geral dessa viagem era turva, a lembrança do rio Tapajós era impossível de ser apagada.

Naquela geografia privilegiada é ele que empresta beleza e força a toda a região -e, se você for ouvir as lendas de lá, o Tapajós é mais que isso: é o guardião que não deixa o barrento Amazonas lamber as margens da cidade…

Se apelo para a poesia é para declarar que nem ela será suficiente para descrever meu entusiasmo quando encontrei Alter do Chão.

Pois quando cheguei lá, num trajeto de menos de meia hora de Santarém, fui tomado por um misto de deslumbramento e apreensão.

Começo pelo deslumbramento. A rodovia emoldurada num denso verde até lá não te prepara para a beleza da visão do rio Tapajós, logo depois que você passa por um esboço de urbanização.

“Aqui tem tudo de um”, conta-me o meu motorista. “Um posto médico, uma farmácia, um posto de gasolina…” Para que mais? O segredo desse lugar é ser desse tamanho – o suficiente para dar conforto a quem visita sem ambições de crescer demais.

Desembarquei do carro mesmo antes de chegar à praia – que é, claro, fluvial, e, conforme vários relatos, profissionais e amadores na internet, uma das mais bonitas do mundo.

Diante de mim, a ilha do Amor. Nem quis saber se era nome oficial ou apelido: apaixonei-me imediatamente.

Conforme a época do ano (e a hora do dia) é possível chegar até ela a pé, mas naquele momento só um barco poderia me ajudar na travessia. Preferi namorá-la de longe – estava com o tempo apertado e queria conhecer tudo.

A indispensável igreja na praça. A loja de artesanato indígena. O ponto dos catraeiros – seus condutores pelo Tapajós. A praia dos cajueiros – carregadinhos! E até o longo píer onde desembarcam os navios de turistas. Que foi justamente o que me trouxe apreensão…

Quantas pessoas um paraíso desses é capaz de suportar – sem deixar de ser um paraíso?

Aquelas águas preguiçosas que se abrem para a ilha do Amor emergir na sua serenidade sobreviveriam a um turismo de massa?

Praias e refúgios arruinados por uma ganância imobiliária e hoteleira não faltam pelo nosso Brasil – e a pergunta inevitável é: seria Alter do Chão o próximo da fila?

Tudo indica que não. Primeiro, porque não há necessidade: Santarém está ali tão perto que se alguém quiser construir um hotel maior, pode muito bem fazê-lo na cidade – e convidar seus hóspedes para passar o dia na praia sem perder o conforto.

E, segundo, porque pelo que senti ao andar por aquelas ruas e pela beirada do rio, essa não é a vocação de Alter do Chão.

É um prazer ver uma comunidade que tem consciência da importância de preservar sua beleza -e foi exatamente isso que senti nessa visita. A tentação de superexplorar esse tesouro turístico, reconheço, é grande.

Mas a vontade de preservá-lo é ainda maior.

E é por isso que aquele passageiro estressado que pegou o voo comigo naquela madruga pode ter esperanças de um dia conhecer um lugar onde a vida é realmente maravilhosa…

*Jornalista e apresentador; Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Turismo D6, de 07/09/2017
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