Ainda o velho Bituca

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“Para que não paire dúvidas sobre o meu tempo nessa passagem, eu não conheci o velho Bituca, mas sempre ouvi falar dele com veemência por muitos dos meus interlocutores …

… desde meu querido pai que contava histórias do arco da velha, ao mestre Agnello e seus filhos Benjamin, Agnello e Ulysses, e até o jovem cineasta Flávio Bittencourt. Cada um contava um pouco das façanhas do antigo governador e homem público e suas peripécias em família, o que, por certo, fez com que o incluísse entre os meus preferidos nos estudos sobre história do Amazonas.

Amazonense típico, meio rude até, falando a linguagem própria do caboco, ele passou pelos cargos e serviços mais simples da administração da Província chegando ao mais elevado posto de governador do Estado, sempre com a mesma postura: honesto, discreto, trabalhador, sincero e prático.

Em meio a todas as turbulências da transição política do Império para República, serviu como membro do corpo administrativo da secretaria do Governo e depois na Assembleia Provincial e no Congresso de Representantes, chegando à aposentadoria funcional em posição modesta.

No campo político-partidário foi mais audacioso, seja no exercício de mandatos eletivos do parlamento local, como vice-governador e no governo, culminando com sua eleição para o Senado, tomada ‘pelos adversários, tal como sucedeu em muitos outros casos, em várias fases da vida nacional.

No seu tempo as lideranças regionais estavam sempre apegadas, atreladas ou associadas a uma grande figura de renome nacional, seja Francisco Glicério, Rui Barbosa ou Pinheiro Machado, por exemplo, sendo comum a alternância de lado, fosse quem fosse, país afora. Bituca não fugiu a essa regra. Em 1897 assumia posição contrária à liderança nacional de Francisco Glicério, mas em 1906 marchou ao lado dele, coisa que ninguém esperava nessa cidade de Manaus.

Em 1903, temporada de forte pressão e comando silverista no Estado, Bituca resolveu ser candidato ao Senado em substituição a Affonso de Carvalho que anunciara candidatar-se com o beneplácito de poderosos oligarcas amazonenses, Vencedor nas urnas – diziam os jornais de seu partido -e sem que houvesse Justiça Eleitoral para regular e definir o processo, ele foi garfado em seu mandato não sendo reconhecido pela Comissão de Poderes do Congresso Nacional, aquela que mandava e desmandava, ou “botava e desbotava” como assinalou certa feita uma figura pública de nossa terra em programa de televisão ao falar de seu líder.

Arrancado da cadeira de senador quando preparava as malas e cuias para seguir viagem para a capital federal, Bituca foi contemplado com o cargo de vice-governador no mandato de Constantino Nery, porém, quando da renúncia de Constantino, em 1906, ele se negou a sucedê-lo, para ser eleito governador, conforme a vontade de Silvério que dizia à boca pequena estar pagando uma dívida de gratidão com o velho companheiro. No governo Bituca enfrentou a tudo e a todos, inclusive ao próprio Silvério. Denunciou as falcatruas, desentendeu-se com seu vice-governador e foi por ele e outros afastado e até “renunciado”, e embora tenha conseguido voltar ao exercício do mandato viveu um verdadeiro puxa-e-encolhe sem fim. Deu-se com ele uma verdadeira catarse política porque mostrou as vísceras das oligarquias locais e deixou a nu o velho “rei”, prostituído por seus próprios atos no comando da coisa pública.

As proezas que dele falavam os antigos nas conversas de vime no Instituto Geográfico e Histórico do qual foi presidente, daria um bom livro, mas o que se diz em síntese é que o velho Bituca era quase endiabrado em suas sacadas de humor e duro na queda em suas investidas políticas.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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