Água demais

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*Rafael  Garcia

Após usinas, Madeira tem a maior cheia da história e afunda vilas inteiras na lama

“Nasci aqui e nunca vi alagação assim. Mas o que mais espantou foi o aterro”, conta Leonor Pereira da Silva, 58, moradora de São Carlos, distrito de Porto Velho (RO) às margens do rio Madeira.

Na vila, 70 km rio abaixo da capital do Estado, já era costume entre os moradores, na época da cheia, usar armações de madeira –as marombas– para suspender móveis dentro de casa. Em março, porém, a enchente já tinha ultrapassado as marombas de muitas moradias.

Quando a água começou a baixar, em maio, quem voltava para casa encontrava um metro de lama nos cômodos. Em junho, quando a Folha esteve no local, muitos moradores não tinham terminado de limpar as residências.

A maior cheia já medida no Madeira, que elevou em 19 metros o rio na altura de Porto Velho, ocorreu pouco mais de dois anos após o início da operação das usinas de Jirau e Santo Antônio.

Em 2008, Francisco Barbosa de Oliveira soube que a hidrelétrica de Santo Antônio inundaria seu sítio na vila de Teotônio, na margem direita do rio Madeira, 30 km acima de Porto Velho. O agricultor começou a procurar outro.

Em 2010, recebeu cerca de R$ 100 mil da hidrelétrica e comprou um lote em Cujubinzinho, abaixo do barramento da usina, onde acreditava que o rio não se alteraria.

Em fevereiro deste ano, o novo sítio foi atingido pela cheia. Chuvas deram ao rio uma vazão de cerca de 65 mil metros cúbicos por segundo (m³/s), 50% acima da média histórica de cheia na altura de Porto Velho. Tal fluxo encheria em pouco mais de um segundo o lago do parque Ibirapuera, em São Paulo.

“Aqui eu tinha coco, caju, açaí, goiaba, graviola, manga, maçã, lima, tangerina, laranja, limão, ingazeira, abacate… Acabou tudo”, lamenta Oliveira, conhecido pelo apelido de Omédio.

Dorisvalder Dias Nunes, geógrafo da Universidade Federal de Rondônia, diz que, ao abrir as comportas para controlar o nível de água a montante (rio acima), a usina pode ter liberado grande quantidade de sedimento.

A Santo Antônio Energia afirma, porém, que a abertura das comportas foi feita de forma gradual, ao longo de 15 dias. “O Madeira, ainda que sem as usinas, teria levado o mesmo sedimento até ali”, diz Carlos Hugo de Araújo, diretor de sustentabilidade.

 

VAZÃO RECORDE

Santo Antônio (que fica 7 km acima da capital, Porto Velho) e Jirau (cerca de 100 km a montante) são usinas a “fio d’água”. Como a vazão média do Madeira é enorme, 32 mil m³/s, a água tem força para gerar energia mesmo sem um desnível significativo entre o topo da barragem e a saída das turbinas.

Os reservatórios, longos, não alagam grandes áreas fora do leito do rio.

Em janeiro, perto de Jirau, a vazão era de 40 mil m³/s, um recorde desde 1967 para essa época do ano no local. Na represa de Santo Antônio, que começa já no pé da barragem de Jirau, a subida da água ameaçava Jaci-Paraná.

Além de Cujubinzinho e São Carlos, abaixo de Santo Antônio, foi afetada a orla de Porto Velho. Acima de Jirau, na fronteira com a Bolívia, sofreu a vila de Abunã.

A Defesa Civil de Rondônia estima que mais de 20 mil pessoas tenham sofrido o impacto direto da enchente.

Na maior cheia já medida na região, em 1984, a vazão do rio chegou a 48 mil m³/s. À época, não havia barramentos no Madeira, e a imprensa mostrou que a água atingiu o telhado das casas de Jaci-Paraná.

Para Antônio de Pádua Guimarães, diretor da Santo Antônio Energia, isso mostra que a vulnerabilidade do local não está ligada à criação do reservatório.

 

DILÚVIO TRISSECULAR

A estratégia das usinas para regular a vazão do rio se baseia na probabilidade de uma certa cheia ocorrer a cada período. Capazes de suportar uma vazão de 80 mil m³/s, Santo Antônio e Jirau oferecem proteção “decamilenar” (uma cheia desse porte a cada 10 mil anos).

Segundo esse critério, a enchente deste ano foi “trissecular”, com risco teórico de repetir-se a cada 300 anos. Essa cheia fenomenal veio pouco menos de dois anos após a operação das usinas.

Dias Nunes diz que essas probabilidades devem entrar no cálculo de risco, mas que o histórico de medidas precisas no Madeira é curto – começou em 1967. “Uma certa segurança seria uma série histórica de cem anos”, diz.

A margem de erro de qualquer projeção também deveria aumentar agora, pois o aquecimento global e seus efeitos regionais são um componente a mais de incerteza.

Carlos Hugo de Araújo, da Santo Antônio Energia, considera vaga a demanda acadêmica de que a mudança climática seja levada em conta na gestão de risco em hidrelétricas. “A coisa entra num terreno muito especulativo. Ao trazer o macro para discutir o micro, fica difícil estabelecer uma conexão.”

 

TRAVESSIA DO BAGRE

Pedro Ferreira exibe ao repórter um anzol do tamanho de um sapato. Era o que usava para pegar douradas na época da pesca de burra, tradição que se extinguiu com as usinas. “Onde tem mais peixes é nos pés das usinas, mas ali é proibido pescar.”

Pescadores dizem que a atividade está menos rentável e que o trecho mais prejudicado fica entre as usinas. Ali, eles pescavam utilizando as burras, armações de madeira pelas quais andavam para chegar até o meio das corredeiras, onde a captura do peixe era compensadora.

Eles lamentam que a cachoeira de Teotônio, uma grande corredeira, tenha sido encoberta pela água, acabando com a pesca de burra.

Para fazer a piracema (migrar rio acima), os peixes precisam atravessar as barragens. O tema foi muito discutido em 2007, antes do início da obra, e o então presidente Lula chegou a dizer que a demanda do país por energia não poderia ser comprometida por causa de um bagre.

Santo Antônio possui um canal em ziguezague por onde a água atravessa a barragem, dando aos peixes um atalho para subir o rio. Já em Jirau os peixes são selecionados numa área de captura e depois levados num tanque até o lago acima da usina.

As concessionárias das hidrelétricas dizem que seus sistemas são aprovados por auditorias. Mas o pescador José Cláudio Coelho Lima questiona se os peixes estão mesmo conseguindo atravessar as barragens.

Ele diz que as usinas já promoveram visitações ao pé do canal de transposição, mas ainda não mostraram aonde chegam os peixes.

 

NUNCA ANTES

Para os pescadores que agora sobem e descem o reservatório, a cheia de 2014 não é culpa só das chuvas. “Se nunca tinha acontecido uma enchente desse tamanho antes, por que ela aconteceu logo agora?” –pergunta Idervan Damasceno.

O médio, que teve sua lavoura soterrada em Cujubinzinho, não pensa em vender as terras, porém, nem em retirar a lama de seu sítio. Ele já lançou sementes sobre os sedimentos trazidos pelo rio: “Essa terra é muito boa. Se não vier outra enchente, formo o sítio todo de novo”.

*Jornalista. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Tudo sobre crise da água 3. Edição de 14/09/2014.
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