A Vaidade Infantil

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A Bianca Victória tem 5 anos e é a minha primeira filha. Ela gosta de roupas combinando, saltinhos (mas, não permito usar), ela também adora passar  maquiagem, mas a convenci depois de muitas argumentações a utilizar somente os tons rosa- claros e apenas gloss e sombra, pois se dependesse dela,  usaria tudo que tem direito e ainda capricha nos acessórios,  perfumes e hidratantes. Desde um ano e sete meses, já pegava meus colares e sapatos e a partir dos dois anos já passava gloss na boca, sozinha sem olhar-se no espelho.Houve ocasiões em que foi necessária minha intervenção no sentido de não  usar determinada roupa, por exemplo: quando íamos ao shopping que ficava admirando as sandalinhas e/ou sapatinhos de saltos e  implorava para eu comprar. Mas tinha que ser firme o bastante para dissuadi-la da ideia, explicando que ela é muito nova  para usar salto e que a sua coluna não suportaria e que iria lhe ocasionar dor. Nessas ocasiões ela sempre perguntava com quantos anos isso aconteceria? E eu prontamente  respondia-lhe que quando tivesse  uns dezoitos anos filha, e ela dizia que iria demorar muito. Essa situações se repetiram até uns quatro anos aproximadamente, hoje aos cinco anos ela já não insiste mais e se conforma com as roupas e os calçados que escolho, mas sempre levando em consideração a sua opinião, pois acredito ser válido desde cedo a criança ter poder de decisão e escolha. Cabe aos pais apenas orientar e conduzir para o que realmente é apropriado para a idade, sem pular as fases ou erotizar a criança ou deixar prevalecer apenas a vontade de alguém que ainda não tem maturidade para fazer escolhas suficientemente maduras e acertadas.

Enquanto mãe, incentivo as minhas filhas a serem vaidosas, a se cuidarem, em virtude de eu ter sido incentivada pela minha mãe, que é bastante vaidosa e pela minha avó Dona Djanira Fonseca, que aos 83 anos é uma sumidade no assunto, visto que, até mesmo em casa ela está sempre arrumada e cheirosa, com um pozinho de arroz básico e acessórios para completar ainda mais o teor de sua vaidade.

Acredito que se isso, for administrado desde a mais tenra idade com equilíbrio e cautela, mostrando sempre para a criança os seus limites, estas, assimilarão de forma adequada que a boa aparência é sinônimo de auto-estima elevada e que isso, gera bem estar, felicidade e qualidade de vida.

Enquanto psicóloga, percebo que cada vez mais cedo, as crianças possuem aparência de adultos com roupas mais arrojadas, sapatos de saltos, cosméticos, marcas e, principalmente, acessórios. De que maneira essa antecipação de “mini-adultos” prejudica na fase infantil e adulta da criança? Historicamente, percebe-se que a criança foi vista como adultos em miniaturas. O  hábito de vestir as crianças à semelhança dos adultos não é recente. Hoje em dia, no entanto, temos muito mais opções de roupas e acessórios com temas infantis, roupas coloridas, divertidas e com mais apelos de marketing, como aquelas que vêm com um brinde, ou aquelas de um personagem famoso da televisão ou dos quadrinhos. O que atualmente acontece é que a “ditadura” da beleza e da estética exerce forte influência efetiva, não só sobre o consumismo dos adultos, mas também no consumismo infantil. Essa “ditadura” da beleza está também associada a uma idéia de que é importante ter determinados produtos e se vestir de uma só maneira, para ser bem aceito em um grupo social. O grande problema dessa influência cultural é que as crianças acabam deixando de aprender outros valores mais importantes, como, por exemplo, o respeito às diferenças. Vale também ressaltar que muitas das roupas e acessórios “da moda” podem não ser apropriados para as brincadeiras típicas da infância. Sapatos de salto alto, por exemplo, são incompatíveis com brincadeiras de pular e correr, que por sua vez são inerentes à fase da infância,  além dos prejuízos que acarretam para o desenvolvimento físico da criança. O uso exagerado de maquiagens pode prejudicar a pele da criança e o uso de alguns acessórios (pulseiras, colares e anéis) pode causar acidentes quando se prendem a outros materiais. Portanto, pode-se dizer que é necessária cautela por parte dos adultos na hora de escolher as roupas e acessórios que seus filhos usarão, pois por trás do gesto de comprá-los e de incentivá-los a usar esses produtos estão implícitos alguns valores que serão transmitidos para as crianças.

As crianças que se comportam como adultos o fazem porque os adultos acham graça. Estamos acostumados a assistir na TV as meninas com saias bem curtas e saltos altos, rebolando como as dançarinas de axé ou de pagode, e achamos uma gracinha, até incentivamos! Achamos muito bonitinho o menino usando terno e gravata, mesmo que ele esteja suando embaixo de toda aquela roupa! O que é preciso dizer é que, quando incentivamos as crianças a se vestirem como adultos e a se comportarem como adultos, estamos retirando delas a chance de se comportarem como crianças e de aproveitarem todos os benefícios da liberdade, da menor censura sobre seus atos, da aprendizagem, da fantasia… Não é sempre prejudicial que a criança se vista como adulto ou brinque de imitar os comportamentos do adulto, isso faz parte do universo infantil e é por meio dessas brincadeiras que a criança vai aprendendo sobre papéis sociais e outros aspectos importantes da vida em sociedade. O que é nocivo é privar a criança de seu mundo natural, que é constituído principalmente pela brincadeira e pela fantasia.

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Fabiolla Fonseca
Psicóloga, nascida em Itacoatiara, casada e mãe de duas filhas. Especialista em Psicologia Jurídica.

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