“A República das Abelhas”

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O poder expressa toda a grandeza e a miséria do ser humano, afirmou Gabriel Garcia Marquez. Autocrítica significa um não à intolerância, renunciar ao radicalismo, ao fanatismo. Reconhecer que a verdade tem duas faces, e que ambas têm de ser levadas em conta quando se analisa fatos históricos de fortes repercussões políticas e sociais.

Não me parece que este tenha sido o caminho da Comissão da Verdade ao apontar torturadores do regime militar e passar por cima, ignorar, tornar-se omissa em relação aos atos terroristas que, no mesmo período, igualmente, mataram inimigos, mas também pessoas inocentes em nome de um projeto político que, em síntese, significava substituir uma ditadura por outra. O regime militar pela ditadura do proletariado, a implantação de um regime – o comunista – absolutamente estranho à cultura e às convicções políticas do povo brasileiro, razão pela qual não lhe deu ouvidos nem suporte de qualquer espécie.

Não se pode pretender escamotear esta realidade. A revolução brasileira comunista que se pretendeu implantar nos anos 1960 foi urdida na União Soviética, sendo seus instrumentos e  pontas de lança no País muitos dos líderes sacrificados nos anos de chumbo. A troco de praticamente nada, a não ser dor, ódio e ressentimentos infindáveis. Efetivamente, o processo de implantação do comunismo no Brasil começou a ser planejado e posto em prática logo após a Revolução Russa  de 1917. Daí em diante muita coisa aconteceu.

O livro “A República das Abelhas” (2013), que acabei de ler, escrito por Rodrigo Lacerda com base nas memórias do tetravô Maurício e de seu avô, o lendário Carlos Lacerda, ex-comunista e posteriormente prócer da UDN, descreve em preto e branco a atrapalhada e frustrante índole revolucionária do brasileiro. Da Proclamação da República, em 1889, até o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, aponta o livro, o Brasil foi sacudido por revoltas, revoluções, golpes e contragolpes os mais diversos de efeito político quase sempre pífio.

O mais importante, descreve Lacerda, “os projetos de país e de poder duelavam entre si, enquanto seus líderes trocavam ferroadas públicas e secretas”. Índole que perdura até hoje. Em resumo, segundo os melhores historiadores, houve a insurreição anarquista de 1918, o episódio dos 18 do Forte, o conflito paulista de 1924, as colunas armadas, das quais a mais importante foi a de Prestes, nos anos 1930; a  revolução de 1930 (que só durou três semans), o movimento Constitucionalista de 1932 e a Intentona Comunista de 1935. Além desses, ainda se registrou o golpe do Estado Novo (1937-1945), a primeira deposição de Vargas, de seu retorno em 1950 e da crise que levou ao seu suicídio em agosto de 1954. De comum a esses movimentos, a grande quantidade de mortes de pessoas inocentes, em geral alheias às conflagrações precipitadas.

Nesse meio tempo o Brasil ainda teve tempo de flertar com o tenentismo, o integralismo, o fascismo e até o nazismo, por cuja corrente Getúlio Vargas pendia até o começo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando foi  induzido a posicionar o Brasil ao lado dos Aliados. Acresça-se a todo esse furor revolucionário, o mais recente, a revolução militar de 1964.

O Brasil, desde a independência, em 1922, e, sobretudo a partir do golpe militar que depôs Pedro II e substituiu a Monarquia pelo regime Republicano, em 1889, à frente os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto esteve rotineiramente envolto em conflitos político-militares quase sempre inócuos. Dizem que em virtude do extremado medo da morte do brasileiro. Não obstante, ainda não encontrou seu Norte, um sistema que atenda aos reclamos da população, fortaleça as instituições democráticas,  moralize o governo e a classe política e promova o desenvolvimento. Como se esses objetivos não resumissem a expectativa mais forte da nação.

Quanto ao transplante da ditadura do proletariado para o Brasil, a ideia era simples e direta: se o laboratório comunista pudera se instalar na Rússia, por que não aqui? Para a União Soviética o Brasil era estratégico tendo em vista a importância de fincar base sólida da revolução leninista-stalinista na América Latina. Cuba só veio bem depois, já nos anos 1950.

É meu entendimento pessoal, de quem tomou parte de algumas lutas políticas lideradas pelo movimento estudantil nos anos 50, 60 e 70, de  alguém que presenciou a sequência de ações deflagradas antes e após 1964, sempre entendi, com efeito, que mais uma vez o Brasil se perdeu no meio do caminho, sem rumo, subalterno a radicalismos sombrios, inconsequentes e manipuladores. O que, evidentemente a nada leva. Como de fato não levou. Quem leu “O que é que isso companheiro?”, escrito por Fernando Gabeira em 1979 após seu retorno ao Brasil do exílio sabe muito bem do que estou falando.

Qual o resultado objetivo de tudo isso? Uma classe política emergente do processo de redemocratização, levada a cabo a partir de 1985, que, lamentavelmente depravou o governo, o Judiciário e o Congresso Nacional, além de haver ignorado as distâncias geográficas e as assimetrias regionais do nosso território. Além do mais, de costas para os interesses maiores da nação permitiu que se instalasse enorme antro de corrupção e injustiça nas três esferas de governo “como nunca antes visto na história deste País”.

Portanto, a Comissão da Verdade, nos termos e nas condições em que seu relatório foi apresentado à nação, só serviu a um propósito: fazer o jogo político e midiático de Brasília, procurar desviar a atenção do processo de apuração e investigação por parte da Polícia Federal, do Ministério Público e da Procuradoria Geral da República sobre o elenco de falcatruas e golpes desferidos por membros do governo e empresas estatais em diversos setores públicos. Seu relatório, por conseguinte, não levará a nada, posto que segrega e discrimina correntes, dissemina o ódio, a intolerância e joga irmãos contra irmãos.

O povo brasileiro, salvo a militância petista e da base aliada, como também os beneficiários do bolsa família, o MST, a base sindical e a estudantil mantidas a peso de ouro pelo Planalto, a esta altura está dividido, perdido, atordoado, não sabendo em quem confiar. Nos torturados, nos terroristas, nos militares, nos comunistas, nos bolivarianos, na nova democracia? Como, se o País, além da corrupção generalizada, experimenta índices dos mais degradantes em termos mundiais no tocante à política econômica, às taxas de juro, inflação, crescimento, ao ensino, à saúde e à segurança pública, à descrença no futuro, à desnacionalização e ao sucateamento tecnológico de muitos setores da indústria?

Para ser respeitada pelo povo brasileiro a Comissão da Verdade tinha que concluir seu relatório conclamando o repúdio a toda e qualquer forma de totalitarismo, independentemente de cor ou tendência ideológica. Ao contrário, se omitiu vergonhosamente ante os desmandos comunistas e bolivarianos na Argentina, na Venezuela e em Cuba, países em permanente e grave estado de crise institucional, e que desrespeitam as liberdades individuais e de imprensa, levando suas economias a desastres monumentais. A Comissão foi, por conseguinte, parcial e tendenciosa, transformando coisa séria em espetáculo de efeito pirotécnico. Claro, no fim, o choro da presidente Dilma Rousseff caiu como uma luva aos propósitos do governo.

O Brasil precisa vascularizar a sociedade com questões inovadoras nos campos político, cultural, educacional, tecnológico e ambiental. Somente assim poderá pôr na cadeia os corruptos e ladrões de recursos públicos, fazer respeitar as regras de mercado, a lei de diretrizes orçamentárias e de responsabilidade fiscal. Enfim, fazer a lição de casa e chegar ao padrão social, cultural e político do Chile, país que, também no mesmo período, foi submetido a uma ditadura cem vezes pior do que a brasileira, e que hoje desponta como o mais desenvolvido da América Latina.

Como dizem nos Estados Unidos, para ser um bom americano não precisa acreditar no governo. Tem que acreditar no país. Exatamente o que falta aos brasileiros. Aqui, a OAB e as demais entidades representativas de classe, os sindicatos, as lideranças estudantis e comunitárias, ao contrário,  renunciaram à luta contra os desvios constitucionais do governo brasileiro, passando a tolerar, e mesmo legitimar o aparelhamento do Estado, como em relação aos 20 mil cargos  ocupados pela militância e o decreto de sovietização; a corrupção generalizada e os desmandos de gestão do setor público vindos a público a partir do Mensalão.

 

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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