A perda da infância

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*Rosely Sayão 

Para brincar, não é preciso ter brinquedo; é preciso ter tempo!

Muitas crianças estão aguardando ansiosamente a chegada de 12 de outubro. Elas esperam pelos presentes que ganharão no dia dedicado a elas. Muitas terão boas surpresas! Outras sabem antecipadamente o que receberão, porque têm o costume de fazer a lista do que querem ganhar. Fica, então, a pergunta: elas ganharão presentes ou receberão suas encomendas?

Muitos pais estão igualmente ansiosos, à espera do dia de testemunharem a alegria dos filhos. Os pais da atualidade adoram presentear seus rebentos, e para tanto apertam o orçamento familiar de todos os lados e até fazem dívidas só para satisfazer os caprichos das crianças. Será que esse costume que adotamos faz bem a elas?

Sabemos que, quanto mais brinquedos as crianças têm, menos elas brincam. É difícil para as crianças escolher um entre tantos para se dedicar a ele, por isso elas acabam por ficar apenas olhando para todos ou estabelecem um troca troca sem fim, que impede que uma brincadeira aconteça. E brincar é a atividade mais importante da infância.

E, por falar em infância, o que nós, pais, temos a comemorar no Dia das Crianças? Bem pouco, porque a maioria das crianças vem perdendo a infância.

Perdem parte da infância as crianças que têm quase todo o seu tempo tomado por compromissos: escola, lição de casa, cursos para todos os gostos, práticas esportivas, educação financeira, coaching.

Tudo isso os pais propiciam às suas crianças com esforço e dedicação, porque está em vigor a ideia de que o futuro delas depende da boa formação oferecida na infância. E qual é a mãe ou o pai que não deseja um futuro promissor aos filhos? Por isso eles investem nessas atividades, mesmo que sejam cansativas e custosas, tanto para os pais quanto para as crianças. Acontece que crianças com tantos compromissos não têm tempo para brincar livremente! Permita-me insistir: para brincar, não é preciso ter brinquedo; é preciso ter tempo!

Perdem parte da infância também as crianças que são precipitadas para a adolescência precocemente. São as roupas, o uso das tecnologias, as redes virtuais de todos os tipos, os comportamentos, as celebrações, os grupos de mensagens instantâneas de que participam sem a tutela dos adultos, os jogos, a pré-adolescência. Céus! O que é mesmo a pré-adolescência, senão o final da infância?

O que fica esquecido nessa história é que, para entrar bem nessa nova fase da vida – a adolescência -, é preciso terminar bem a infância, e o conceito de pré-adolescência aborta o final da infância.

Perdem uma parte da infância todas as crianças que já carregam o peso do mundo adulto nas costas. Por causa da intensa comunicação global das mais variadas formas, inclusive com imagens, elas tomam conhecimento de todas as desventuras deste nosso mundo: crimes, violência, intolerâncias, preconceitos, desastres naturais. Isso sem que tenham recursos para fazer frente a tantos problemas.

Desta questão não podemos protegê-las, mas das outras é uma escolha. Faço, então, meu apelo: vamos escolher proteger o pouco de infância que resta às nossas crianças?

*Psicóloga. Artigo na Revista Veja nº 2550, de 04/10/2017.
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