*José Francisco Botelho

O mundo letrado às vezes esquece que ler é prazer.

O ano de 1513 não foi gentil com Nicolau Maquiavel. Em uma das célebres confusões políticas da Itália renascentista, o astuto diplomata e delicioso prosador foi arrancado do posto de chanceler, que ocupara por catorze anos em sua cidade natal, Florença. Conheceu as noites do calabouço, suportou a tortura, foi condenado ao exílio. Uma recompensa o aguardava, contudo, ao fim da tormenta. Escorraçado da carreira política, Maquiavel agora tinha tempo para fazer o que mais amava: ler. Todas as noites, em sua casa no vilarejo de San Casciano, vestia-se com roupas de cerimônia, como se fosse a uma festa cortesã, e adentrava solenemente a biblioteca.

“Lá não me envergonho de falar com as grandes almas do passado, e elas, em sua humanidade, me respondem”, contou em uma carta ao amigo Francesco Vettori. “Pelo espaço” de quatro horas não sou afetado pelo tédio, esqueço todas as dores, não temo a pobreza, e a morte não me assusta.”

Nicolau Maquiavel lia por prazer. Naturalmente, também o fazia por outros motivos: instrução, entendimento e o que hoje chamaríamos de pesquisa bibliográfica (foi em 1513, aliás, que começou a escrever O Príncipe). Mas ninguém “esquece todas as dores” apenas cumprindo um dever; ninguém transcende o tédio da existência por meio de circunspecções burocráticas. O prazer da leitura – prazer que pode ser tão desavergonhado quanto qualquer outro – é uma das benesses que ganhamos, entre tantas agruras, por termos nascido – humanos. É de espantar, portanto, que algumas das principais ameaças a esse deleite tão próprio à espécie venham precisamente do mundo letrado.

A ideia da leitura enquanto forma de ascese tem lá suas razões de ser, naturalmente. Imergir na leitura exige um tipo específico de compenetração, que nem sempre surge de modo espontâneo. Além disso, há deleites livrescos que demandam aprendizado prévio e alguma medida de paciência: é preciso certa cancha para desfrutar Homero e nem todos chegam prontos a Virgílio. Muito bem: isso significa que a leitura deve ser cultivada; que devemos fazer nela uma espécie de investimento. Mas o mesmo pode ser dito a respeito de muitas outras coisas; a amizade, por exemplo. Pouco sacerdotal que sou, e nada afeito ao martírio, cultivo por prazer algumas boas, embora poucas, amizades; e ninguém há de dizer que isso é – sic – mero entretenimento.

Menosprezar o prazer da leitura é acreditar na dicotomia entre os livros e a vida: é supor que ambos estejam separados em esferas platônicas incomunicáveis e que, no fim, uma das facções terá de vencer. Há quem proclame a leitura ascética, desprovida de alegria, como uma espécie de barricada erguida contra o mundo. Também há quem se renda ao mundo, renuncie à ilusão livresca e diga, resignado: é melhor escutar o canto dos pássaros do que falar com as tais grandes almas que encantavam Maquiavel. Já o leitor sem vergonha ignora esses achaques – pois sabe que os livros não são o oposto da vida, mas seu infinito prolongamento.

*Jornalista e escritor. Matéria na Revista Veja nº 2534, de 14/06/2017.
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