A emoção da marchetaria da floresta

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J. R. López*

Era uma vez na Amazônia, a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
e no fundo d’água as iaras, caboclos, lendas e mágoas
e os rios puxando as águas…
Vital Farias, trovador.

A marchetaria – arte de revestir com madeira, marfim, madrepérola ou outros materiais, superfícies em formas geométricas ou não -, chegou à região pela mão e obra da Companhia de Jesus, quando os missionários espanhóis para cá vieram catequizar os ameríndios da Amazônia, há quatro séculos. É uma arte muito antiga e os primeiros vestígios foram encontrados no Egito e na China há 3.500 a.C.,  fazendo parte da artesania fina, incentivada por mecenas, nos palácios de reis e rainhas.  A profissão ainda não é regulamentada em nosso país.

A marchetaria também remonta a antigas civilizações como a assíria, babilônica e a grega, mas, aqui, adaptada a riqueza da regionalidade da Amazônia, ganha outros tons, faz emoção aos olhos dos estrangeiros e a diferença em relação aos turistas nacionais que ficam encantados com a diversidade de espécies, cheiro e cores, riqueza de detalhes e o fino acabamento dado a cada peça. Na questão relacionada aos negócios, observa-se que na Europa e na América do Norte há, atualmente, um mercado solidificado, porém, no Brasil este nicho comercial está em expansão.

O marchetier é o designer que cria o estado da arte, montando e colando peças ou lâminas de madeiras com diferentes matizes, ornamentando uma superfície, formando um desenho, subsidiado por um gabarito. Para tanto, em diversos casos, o artesão utiliza-se da régua de pica (pronuncia-se páica) para contar os milímetros, afinal eles fazem muita diferença no final da confecção, pois cada obra deve ter a qualidade avaliada por quem a adquire, especialmente se for colecionador.

Esses profissionais enfrentam muitas dificuldades em suas atividades laborais cotidianas, mas todo empreendedor, acredita e procura vencer as adversidades: vivem da atividade de modo artesanal para sustentar suas famílias, tendo em vista que, na indústria nacional ainda não existe fabrica para a produção de equipamentos para essa área da artesania fina ou popular. Projetam, constroem e adaptam os próprios instrumentos de trabalho como engenhos, maquinários e ferramentaria para confeccionar os artefatos, dando uma mão ao ambiente ao reaproveitar os descartes de oficinas e serrarias, visto que a obtenção da matéria prima é escassa, por se tratar de madeira nobre.

A tendência do mercado sinaliza que a marchetaria pode se tornar, em curto prazo, um setor viável a partir do desenvolvimento de políticas públicas setoriais, que vão da facilitação de créditos, parcerias e investimento em novos conhecimentos para a produção de mobiliário, no revestimento de acessórios, decoração de interiores em hotéis de floresta e, especialmente, na valorização da Sociedade sobre esse segmento. Mas longe da ótica enviesada e caôlha do SEBRAE que há bem pouco tempo considerava o artesão um pedinte.

Pedro Lopes e Assis Costa se especializaram na arte da  marchetaria contemporânea, trabalham na área há mais de duas décadas e migraram  para Manaus, pelos mesmos motivos dos outros irmãos, falta de perspectivas de trabalho na cidade natal, dando continuidade a diáspora itacoatiarense pelo mundo, justificada pela inexistência de uma política pública que contemple a juventude. A tendência para a arte floresceu ainda na adolescência quando estudavam na Escola Dr. Ellis Ribeiro, no turno matutino e, à tarde, faziam complementação de aulas na disciplina “Artes Industriais” no Artesanato Ozório Fonseca, com a emérita professora Marina Penálber, no Principado de Serpa. Hoje, são reconhecidos como expoentes da nobre arte na Amazônia por participarem de feiras nacionais, tendo seus trabalhos expostos na Alemanha.

Nos respectivos ateliês são produzidos desde objetos como tabuleiro para jogos de xadrez, dominós, damas, caixas diversas, brincos femininos e bandejas de diversos estilos; porta-joias, porta-retratos, porta-cartão e porta-caneta estilizados; bolas incrustadas com diversas espécies de cipós e serragens;  baús de vários tamanhos e até miniaturas etc.

 *É Professor Ministrante do componente curricular de História,
no Centro de Mídias. Também é jornalista.  Natural de Itacoatiara.
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