24 de maio e 10 de julho

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As ruas 24 de maio e 10 de julho revelam datas de enorme relevância na história do Amazonas e deveriam ser reverenciadas pelo poder público e sociedade civil, especialmente por aquelas ONGs que afogadas em verbas públicas do presente, não têm tempo para valorizar o passado.

Essas ruas têm seu significado contado, por exemplo, pelos historiadores Antonio José Loureiro e Etelvina Garcia, que registraram o fato de a etnia negra ter sido introduzida na Amazônia no século 18, entre 1756 e 1788 quando 28.647 escravos chegaram à região, comprados pela Companhia Geral do Grão Pará e Maranhão, com esse número representando 4,36% do total de escravos entrados no Brasil naquele período. No século seguinte, no ano de 1848, o número de escravos na Amazônia havia aumentado para 34.207 quase todos vivendo no Pará e apenas 710 no Amazonas, na região do Rio Negro, representando 3,1% dos 22.692 habitantes deste pedaço do Brasil elevado à categoria de Província, pela Lei 528/1850.

 

Dias de Glória

Apesar dos poucos escravos negros surgiu, no Amazonas, um forte movimento contra a escravatura, com a criação de algumas organizações, sem financiamento público, como: Sociedade Libertadora; Sociedade Amazonense Libertadora; Clube Juvenil Emancipador; Clube Escolar Abolicionista; e Cruzada Libertadora da Escola Normal. O movimento pelos direitos humanos ganhou intensidade e, no dia 4 de maio de 1884, foi publicado o primeiro jornal amazonense sobre o tema, intitulado “O Abolicionista”. A pressão da sociedade civil levou o Presidente da Província – Theodoreto Carlos de Faria Souto – a decretar, em 24 de maio de 1884, a abolição dos escravos em Manaus e pouco mais de um mês depois, no dia 10 de julho, estender a liberdade a todos os escravos existentes na Província. Um dos importantes destaque desse ato é que ele aconteceu quatro anos antes da Lei nº 2.225 de 13 de maio de 1888, a chamada Lei Áurea, que decretou a abolição dos escravos no Brasil.

 

Amazonas na frente

Esse pioneirismo libertário na Província se reveste de enorme importância por ter acontecido em uma região com extremas dificuldades de comunicação com outros centros e pelo fato do atual Estado do Amazonas nunca ter sido um polo escravagista como mostram os dados do Censo de 1872 e 1890. No primeiro ano (1872), a Amazônia tinha 15,52% de negros enquanto no Amazonas o percentual era de 3,3% e em 1890 a população negra na Amazônia tinha diminuído para 6,7% e no Amazonas para 3,0%.

 

História esquecida

É lamentável que a luta pioneira deste Estado, em favor das minorias, não mereça a atenção do poder público. A meu juízo, isso é decorrência de termos o governador, três senadores e metade da bancada federal composta por pessoas de outras origens as quais, mesmo apregoando amor pelo Amazonas, não têm, realmente, raízes em nossa geografia, em nossa história e em nossas tipicidades culturais. A odisseia da Zona Franca (um modelo sem futuro), evidencia essa desvinculação com o passado e com o futuro, pois a luta da classe política (no mau sentido) é pela manutenção do “fausto econômico” presente. E capenga.

Não sou profeta, mas afirmo que ao correr do tempo, um vereador descompromissado e sem saberes, vai propor a mudança do nome das ruas 24 de maio e 10 de julho e o plenário inculto vai aprovar a proposta e apagar o registro público de duas excepcionais páginas de nossa história.

Para os interessados recomendo o livro do médico e ex-vereador Expedito Teodoro – “Se essa rua fosse minha…” (Editora da Universidade do Amazonas, 1999) que resgata a história de nossas ruas, indicando a denominação antiga e atual, com breves biografias das pessoas homenageadas. No livro é possível ver algumas aberrações inexplicáveis de mudança de nome de nossas vias e cito, como exemplos emblemáticos a transformação da rua Orquídea (Tancredo Neves) para Alexandrita; Ajuricaba (São Jorge) para Alice Salerno; Tucunaré (Jorge Teixeira) para Ana Falcão; Lores Cordovil (Alvorada) para Antonio Figueiredo; Eduardo Ribeiro (Chapada) para Araújo Amazonas.

Com todo o respeito pelas pessoas que deram seus nomes para as novas designações, penso que o fato de Manaus precisar de tantas novas vias para abrigar moradias dos milhares de migrantes e minimizar o caos do trânsito, o melhor seria usar os “expoentes” da história atual para designar os novos becos, ruas, avenidas, etc., deixando a memória (pessoas e tipicidades) como marcos e marcas inalienáveis de nossas peculiaridades e história.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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